

Serie Cris 1 -  Promessa de Vero
Robin Jones Gunn

Ela saiu de uma cidade pequena para passar as frias na Califrnia. E que frias! Passeios em praias maravilhosas, restaurantes, compras no shopping e uma transformao
no visual. Nada que lembrasse aquela vidinha sem graa do interior. 
Foi essa onda de mudanas que levou Cristina Miller ao encontro de um incrvel Promessa de Vero! 
Tudo parecia perfeito: aquela garota de quatorze anos vai passar as frias na praia, na casa dos tios ricos, conhecer outras pessoas, lugares diferentes, e ainda 
por cima longe dos pais! Era tudo o que uma adolescente poderia querer. 
S que nem tuso sai do jeito que ela esperava. Ted, o rapaz mais bonito do lugar, parece no se decidir se gosta de Cris ou de outra garota. Como se no bastasse 
essa confuso de sentimentos, uma festa termina num acidente fatal e Cris tem que contar para a polcia tudo o que sabe sobre o caso e explicar se tambm est envolvida 
com drogas. E pra complicar ainda mais a situao, seu relacionamento com a tia come;a a ficar difcil. 
Cris havia feito uma promessa a seus pais: no fazer nada de que se arrependesse mais tarde. Ser que ela vai conseguir cumprir sua promessa? Ou vai topar qualquer 
coisa para conquistar Ted, entrar de vez para a turma e mergulhar de cabea em tudo o que aquele vero parece prometer? 


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      Comeando Mal 
      1
      - Eu te detesto! gritou Cris Miller, olhando-se no espelho do closet.
      Com um gemido de gata ferida ela enrolou a toalha de "praia e jogou-a no espelho, observando como ele distorcia sua imagem de magricela.
      - Cris, querida? veio do corredor uma voz aguda. Voltou to depressa da praia?
      - Sim, tia Marta, disse Cris, pegando uma escova e fingindo desembaraar seu longo cabelo castanho.
      Sua tia era uma mulher esbelta e elegante, com cerca de quarenta anos de idade. Abrindo a porta do quarto de hspedes, ela olhou em volta e perguntou:
      - Que barulheira foi essa, querida? Com quem estava falando?
      - Com ningum. S estava pensando alto, respondeu Cris calmamente, tentando abafar o vulco de emoes prestes a explodir.
      - Por que voc no est na praia, meu bem? O dia est maravilhoso e voc fica a, trancada nesse quarto, falando sozinha! Marta apontou para a porta de modo 
teatral.
      - Voc devia estar l fora se bronzeando! Aprenda a surfar! Divirta-se!
      A garota mordia o lbio, sem resposta.
      - Voc est na Califrnia! Viva um pouco! Ns no trouxemos voc l do Wisconsin para passar o vero enfurnada no quarto. Saia e procure fazer amizade com 
o pessoal a.
      De repente o vulco interno explodiu, jorrando palavras e lgrimas.
      - Eu tentei, t bem?! engasgou Cris. Tentei me enturmar com a galera na praia, mas so todos uns esnobes! No os suporto! Eles so mal-educados e maldosos. 
Riram de mim.
      Dizendo isso ela cobriu o rosto com as mos; as lgrimas escorriam entre os dedos.
      - Eu no imaginava! disse a tia, mudando o tom de voz e conduzindo Cris  beira da cama.
      - Senta, querida. Diga-me o que est acontecendo. 
      Cris levou alguns minutos para se recompor e dizer:
      - Eu no tenho nada a ver com as pessoas daqui. Elas me acham careta.
      - E voc ? desafiou a tia.
      - Sou o qu?
      - Careta.
      A garota no respondeu. Ficou olhando sua imagem refletida no espelho, do outro lado do quarto.
      - E ento? insistiu Marta.
      Cris pulou da cama e colocou-se de p diante dela.
      - Olhe pra mim, tia. Eu sou branca como um picol de coco, e meu corpo  reto como uma tbua! Se isso no  uma tremenda caretice na praia de Newport, no 
sei o que !
      - Ora Cris, repreendeu Marta, um picol de coco?
      - Olhe pra mim, insistiu Cris, esticando os braos para mostrar seu metro e setenta, com cinquenta quilos de peso. O maio inteirio cobria seu corpo de Olvia 
Palito como um esparadrapo verde-cheguei.
      - Diga que eu no pareo um picol!
      - Voc no parece um picol, respondeu a tia. 
      - Voc s est dizendo isso para me consolar, disse Cris, sentando-se no cho e cruzando os braos.
      - Ora, vamos, Cris. Talvez voc demore um pouco para florescer, mas  um encanto de menina e tem um potencial tremendo.
      - Ah ? V dizer isso para os surfistas l na praia. Os que iram de mim e disseram: "Oi, gatinha! Onde voc arranjou essa vagem com alas? Num catlogo de 
compras?"  
      Marta parecia confusa. 
      - E o que eles queriam dizer com isso? 
      - Estavam se referindo ao meu maio, tia Marta! 
      Cris deixou as lgrimas correr e fungou alto.
      - E isso aborreceu voc? Um comentrio bobo sobre um "maio que parece vagem"?
      - No. Voc no entendeu? Eu comprei mesmo num catlogo de compras!
      A garota cobriu o rosto com as mos e chorou at as lgrimas escorrerem pelos braos. O tipo de choro que vem do fundo do estmago e traz consigo uma forte 
dor de cabea. O tipo que a pessoa fungar e urrar, e por mais que se sinta idiota e tente parar, no consegue.
      - Por favor, acalme-se, querida. No  to ruim assim. Podemos comprar-lhe um maio novo hoje mesmo. 
      Cris respirava meio ofegante, tentando relaxar. A tia aproveitava a oportunidade para reforar uma idia que vinha defendo?
      -  exatamente por isso que eu disse  sua me que queria ir voc passasse o vero conosco. Voc merece mais do que seus pais podem lhe dar no momento. Gostaria 
muito de oferecer-lhe mais oportunidades do que sua me e eu tivemos. 
      Cris limpou o nariz com as costas da mo.
      - Use isso, por favor, disse Marta, entregando-lhe um leno de papel. Como eu estava dizendo, meu alvo nestas frias  proporcionar a voc algumas das melhores 
coisas da vida. Quero tambm ensinar-lhe, Cristina Juliet Miller, a ser mais autoconfiante.
      A moa piscou e tentou segurar um forte arroto que surgira em consequncia do choro. Tarde demais. O som embaraoso, embora abafado, saiu sem querer.
      - , parece que no vai ser fcil, hein, querida?
      - Desculpe, respondeu Cris, sentindo uma vontade incontrolvel de rir. Voc tem certeza de que conseguir transformar um picol arrotante numa pessoa autoconfiante? 
Pode ser perigoso!
      Ao dizer isso, caiu na risada, mas a tia continuou sria.
      - Comearemos amanh, Cristina. Vou tentar marcar s nove horas com uma especialista para escolher suas cores. Depois iremos comprar umas roupas novas pra 
voc.
      Imediatamente a moa ficou sria.
      - Tia, eu no trouxe quase nada de dinheiro.
      - No seja tola!  um presente meu. No so umas simples roupinhas que vo me deixar pobre. E mais uma coisa: precisamos cortar seu cabelo. Um estilo curtinho, 
bem na moda. Meu cabeleireiro, Maurice, faz um trabalho divino. No fim, voc vai se sentir e parecer outra pessoa.
      Ela falou com tanta fineza que Cris quase acreditou. Um novo guarda-roupa? Novo corte de cabelo? E o que ela queria dizer com "escolher suas cores"?
      - Por que voc no toma um banho e se arruma, meu bem? Seu tio ainda no sabe, mas ele vai lev-la para jantar hoje  noite, e depois vocs iro ao cinema, 
anunciou Marta ao sair.
      Cris aproximou-se do espelho com uma nova perspectiva. Segurou o longo cabelo castanho no alto da cabea, e fez diversas poses, tentando imaginar como ficaria 
de cabelo curto. Mas no dava para visualizar muito bem a mudana.
      Queria que Paula estivesse ali com ela. Paula, sua melhor amiga, sempre lhe dava conselhos quando estava diante de grandes decises. Mas a amiga tambm tinha 
l suas falhas. Afinal, fora ela que a ajudara a escolher aquele maio verde!
      Cris franziu o nariz e chegou o rosto bem perto do espelho para ver se havia novas manchas na pele. Nenhum cravo ou espinha, mas as bochechas estavam coradas 
demais. Alm disso, o nariz vermelho e os olhos inchados revelavam sua choradeira.
      - Meus olhos so totalmente sem graa, murmurou. No so azuis, nem verdes. So uma espcie de nada, como tudo em mim.
      - Posso entrar? perguntou o tio Bob, diante da porta entreaberta.
      Imediatamente ela soltou o cabelo e afastou-se do espelho, envergonhada por ter sido vista em meio a esse auto-exame aborrecido.
      - Parece que ns iremos ao cinema hoje. Voc quer assistir a algum filme em especial? perguntou, observando-a sorridente. Ele estava usando um quepe branco 
e, a julgar pelas marcas de suor em sua camiseta, parecia estar voltando do campo de golfe.
      - No, respondeu a moa.
      - Tudo bem. Vou dar uma olhada no jornal para ver o que est em cartaz. Sua tia no gosta muito de cinema. Espero que voc no se importe se formos s ns 
dois.
      - No.
      - Vamos sair daqui a uma hora, est bem?
      - Tudo bem.
      - A propsito, disse ele, tirando o quepe e limpando a testa. Ainda no lhe disse, mas estou muito contente por voc ter vindo passar as frias conosco. Voc 
 minha sobrinha predileta, sabia?
      - Tambm; sou a nica!
      - Detalhe de mnima importncia, minha cara, mnimo detalhe, brincou ele, saindo e fechando polidamente a porta.
      Com um suspiro, Cris jogou-se sobre a cama. No sentia vontade de tomar banho e no ia demorar para se trocar. Como tinha uma hora livre, resolveu escrever 
 Paula. Gostava de escrever, principalmente quando estava preocupada. Colocaria tudo no papel e, ento, quando relesse, seria como olhar para os prprios pensamentos 
num espelho. As idias saam claras no papel, mais do que quando tentava falar. Pegou a caixa de papel de carta com ursinhos e comeou a escrever.
      Querida Paula,
      Como esto as coisas a na fazenda? A viagem de avio foi divertida no comeo, mas depois ficou chata.
      No vi nenhum artista de cinema no aeroporto, mas guardei seu bloco para pegar alguns autgrafos, caso eu encontre algum famoso.
      Lembra quando voc telefonou quinta passada e eu lhe disse que no podia conversar?  porque meus pais estavam me dando o maior sermo sobre minha viagem para 
c. Me fizeram prometer que nestas frias eu no faria nada de que pudesse me arrepender mais tarde. Voc acredita?
      O engraado  que a nica coisa da qual me arrependo  ter vindo para c. Detesto este lugar! No h nada para fazer, e todo mundo  to metido!  uma chatice. 
 noite fico sentada, vendo televiso com meu tio.
      Pelo menos uma coisa boa vai acontecer. Amanh minha tia vai me levar para fazer compras e, sabe o que mais? Provavelmente vou cortar o cabelo! Voc acredita?
      Estou com um pouco de medo, mas acho que ela quer me dar uma nova imagem, ou algo parecido.
      Bem, tenho de parar agora. Na prxima carta contarei como foi a grande transformao. Imagine s, talvez voc nem me reconhea quando eu descer do avio, em 
setembro! Acho bom voc me escrever!
      Com carinho,
      Cris
      
      
      
      
      
      
      
      A Transformao 
      2
      Na manh seguinte, Cris acordou com o barulho do mar. Parecia um gigante respirando fundo, tranqilo, a cada ida e volta das ondas. Abriu as cortinas e ficou 
olhando umas gaivotas que sobrevoavam a praia  procura de comida. As brancas brilhavam como um flash no azul do cu. Abriu a janela para curtir a brisa. Estava 
encantada com o oceano. Ondas espumantes quebravam na praia, apagando as pegadas de duas pessoas que haviam corrido ali mais cedo. Tudo parecia refrescante e novo.
      Vestiu-se depressa, correu para a cozinha e disse um "Bom dia!'" animado ao tio Bob, ao qual ele respondeu:
      - Bom dia, olhos brilhantes! Espere s pra ver o que eu preparei para voc!
      - Hummm! O cheirinho  de panqueca.
      - Acertou! disse o tio, tirando a primeira panqueca fumegante da frigideira. Tem manteiga e calda na mesa, e esta  pra voc. Eu mesmo preparei a massa e devo 
admitir que parece que saiu perfeita, merecedora de um premio.
      - Estou impressionada!
      Cris foi correndo passar manteiga na panqueca, cortou-a com cuidado, fechou os olhos e levou a primeira garfada  boca. De repente Marta entrou na cozinha 
e exclamou:
      - Cris, queridinha! O que voc pensa que est fazendo?
      - Tomando meu caf da manh.
      - Mas meu bem, voc sabe quantos carboidratos tm nessa panquequinha? Isso no  um desjejum apropriado para uma moa que quer que seus olhos brilhem, sua 
pele seja perfeita e seu cabelo sedoso!
      - Ser que eu quero mesmo? Quer dizer, no  bom no?
      Com o garfo a poucos centmetros da boca e manteiga escorrendo pelos dedos, Cris olhou para o tio  procura de apoio. Bob apenas sorriu.
      Marta tirou algo do armrio, bateu no liquidificador e ofereceu  sobrinha.
      - Aqui est, meu bem. Isto  muito melhor para voc. Tem todas as vitaminas e sais minerais de que necessita para que os rapazes a notem.
      Entregou-lhe um copo com uma bebida espumante, rica em protena.
      - Vamos, beba! Experimente!
      Cris soltou o garfo e pegou o copo. Parecia horrvel. Tomou um gole. O gosto era pssimo.
      - Eca, tia Marta. Voc quer que eu beba isso?
      - Claro. Tome tudo. E tenho mais uma coisa pra voc.
      Tirou da geladeira metade de um grapefruit em gomos, num prato de vidro com uma toalhinha de papel enfeitado. Com ar muito satisfeito, entregou  garota a 
fruta amarga.
      - A. No  uma maravilha? O desjejum perfeito. Acabe logo enquanto eu troco de sapatos. S temos vinte minutos antes de sua consulta de cores. Dizendo isso 
saiu da cozinha.
      Cris olhou para a panqueca e o grapefruit. Virou-se ento para o tio que, tentando conter uma imensa gargalhada, disse:
      - Vitaminas e sais minerais, hein?!
      - No achei graa! retrucou Cris, esforando-se para segurar uma risada.
      - No sei... parece um excelente desjejum.
      - Ento beba voc! disse ela, empurrando-lhe o copo.
      - Eu no! Sua tia j tentou mudar minha alimentao uma vez. Pra mim chega!
      Cris olhou para a bebida, depois para a panqueca e, enfiando duas garfadas enormes na boca, pediu:
      - No conta pra ela no, t?!
      - Seu segredo est seguro comigo. Bob deu unia piscadinha e tirou outra panqueca da frigideira.
      - Voc sabe que as intenes dela so boas, no sabe?
      - Sei, sim, disse Cris com um suspiro. Tio, voc acha que eu devo cortar o cabelo?
      Ele sentou-se ao seu lado  mesa, estudando seu rosto e cabelo como um fotgrafo em busca do ngulo certo.
      - Acho que no sou a melhor pessoa para responder isso. Sempre gostei do seu cabelo do jeito que . Sua tia  que entende de moda. Por que no pergunta a ela?
      - Esse  o problema. Ela quer que eu corte o cabelo hoje, e no tenho certeza se devo.
      - Bem, disse o Bob, cortando sua panqueca. O nico conselho que posso dar  "a ti mesma s fiel".
      - A mim mesma o qu?
      "A ti mesmo s fiel"  uma citao de Shakespeare. Quer dizer, faa o que voc quer fazer e no tente agradar a todo mundo. Siga sua prpria cabea.Tenho adotado 
essa filosofia h anos, e, provavelmente,  por isso que tenho tanto sucesso nos negcios imobilirios. Simplesmente sigo meu "faro" e sou autentico. Sempre fui 
fiel a mim mesmo.
      Marta entrou na cozinha vestida com um macaquinho lils que exibia seu corpo esbelto.
      Cris levou discretamente os pratos para a pia e jogou fora a bebida de protena, antes que a tia notasse.
      - Espero que voc tenha contado  Cris que muito do seu sucesso vem tambm da secretria maravilhosa que tinha em seu primeiro escritrio imobilirio. Dizendo 
isso abraou o marido e beijou seu rosto, deixando uma mancha de batom cor maravilha.
      - Sabe, n? Aquela doce secretria, com quem voc acabou se casando...
      Trocaram um sorriso e um beijo rpido.
      - Est vendo, Cris? ressaltou Bob. Sempre vale a pena seguir sua voz interior!
      - Bem, minha voz interior me diz que temos de correr! exclamou Marta.
      Deu ento uma olhada para a sobrinha e perguntou:
      - Querida, voc vai assim? Bem, no tem importncia. No temos tempo de trocar. Vamos!
      A garota olhou para a saia xadrez rosa e azul com babados, e a blusa azul clara de mangas bufantes. Era um dos seus melhores conjuntos, e gostava dele; mas 
o comentrio da tia fez com que se sentisse cafona.
      Sentiu uma onda de depresso, mas no tinha tempo de deix-la tomar conta de seus pensamentos como no dia anterior. Marta j estava tirando o Mercedes prateado 
da garagem.
      -  melhor voc correr, disse Bob. Quando sua tia entra nessa corrida, no h quem a faa parar.
      Bob estava certo. Ao lado da tia Marta, o dia voava. Na primeira hora e meia, uma senhora elegantssima "vestiu" a jovem com variados tecidos de cores diversas. 
O objetivo era determinar quais eram as "suas" cores e quais no lhe caam bem. Selecionou ento algumas amostras de cores e tecidos e entregou-as a Cris. Ela deveria 
lev-las consigo sempre que fosse comprar roupas.
      - Estas so as suas cores, disse a especialista. Jamais use uma cor que no esteja entre as amostras selecionadas.
      O verde forte do seu maio no estava na seleo de "suas" cores. O azul claro da blusa que vestia tambm no. Cris nunca soubera o quanto era desinformada 
a respeito de moda.
      Enquanto perambulavam por lojas super chiques, Cris tentava, com dificuldade, acompanhar o pique da tia. Quando se tratava de fazer compras, Marta ia a todo 
vapor. Nada a fazia parar e nada estava fora do seu limite de preo.
      Ao meio-dia pararam para comer uma salada no restaurante Bob Burns, que Marta disse ser o nico lugar com a atmosfera adequada em toda a "Ilha da Moda". Cris 
no gostou nada do lugar. Achou o ambiente escuro e silencioso demais, mas acompanhou a tia a um dos ambientes. Caindo sobre um assento almofadado, empurrou as sacolas 
contra a parede.
      - Estou achando nosso progresso muito lento, queridinha, disse Marta, espremendo uma fatia de limo no ch gelado. Voc no est gostando das compras? Parece 
com medo de provar as coisas. Ainda no experimentou um maio sequer! Qual o problema, Cris?
      A garota passou os dedos pelas pontas do cabelo e resolveu ser sincera com a tia. Afinal de contas, o tio Bob lhe dissera que fosse autntica.
      - No sei se gosto das mesmas coisas que voc. As duas blusas e a sandlia que compramos so peas bsicas, mas no sei se me sentiria bem usando alguns dos 
conjuntos que voc estava me mostrando. Alm do mais, no sei, eu acho estranho deixar voc pagar tudo. Nunca fiz tantas compras assim na vida!
      A garonete chegou com as saladas e perguntou a Cris se ela queria pimenta em seu prato. Cris olhou-a meio perdida por um momento e respondeu: 
      - No, acho que no.
      No conhecia aquele tipo de pimenta.
      A garonete parecia no ter notado a inexperincia de Cris. Havia-se voltado para Marta e oferecia-se para salpicar pimenta na salada dela.
      - Escute, continuou Marta. J lhe disse que hoje quem paga sou eu. No estrague o meu prazer! Vamos comear a comprar!
      Cris acenou concordando e empurrou o tomate para o lado do prato.
      - Vou tentar me soltar.
      - Isso nos leva a outro assunto, Cris. Voc precisa se esforar para ser mais extrovertida se quer fazer amizade com a turma da praia Tome as rdeas do seu 
destino, querida. Defina o que voc quer c v em frente. Lute para assumir o controle de sua prpria vida. D o primeiro passo! Seja atirada!  a nica maneira de 
vencer.
      - Sei no. No  assim que sou.
      - Ento torne-se assim! Levante a cabea e diga a si mesma que tudo que quiser  seu!
      Cris terminou a salada e olhou com vontade para a bandeja de sobremesas que a garonete lhes apresentava.
      - Aceito aquela coisa de chocolate ali, disse ela, apontando para uma torta de nozes e chocolate.
      - Querida! exclamou tia Marta. Antes que a tia pudesse repreend-la, a garota falou:
      - Voc acaba de me dizer que tudo que quiser  meu, e eu quero um pedao de torta!
      Marta deu uma risada leve que removeu por um momento sua capa de sofisticao, revelando a moa simples de cidade do interior que fora um dia.
      - Est bem, voc venceu. J estou satisfeita, disse, dirigindo-se  garonete. Virou-se ento para a sobrinha:
      - Saboreie depressa seus carboidratos pra gente sair e fazer mais compras.
      Na cabine de provas de uma das lojas em que entraram, Cris havia experimentado uma dzia de mais, quando Marta trouxe um que parecia encant-la.
      - Este  maravilhoso! exclamou ela com entusiasmo renovado. No  cavado demais como o vermelho, mas est bem na moda. Confie em mim, querida. Vai ficar absolutamente 
divino em voc!
      O mai tinha alas fininhas cruzando nas costas; era preto, com pequena estampa azul-turquesa. Definitivamente no era o tipo de maio que Cris teria escolhido, 
mas resolveu experiment-lo para ver a reao da tia.
      Marta realmente gostou do mai.
      - Ah, Cris! Eu no lhe disse? Ficou perfeito em voc. Absolutamente perfeito. Vamos, saia desse cubculo e olhe-se nesse espelho de corpo inteiro!
      Enquanto a garota saa timidamente, Marta chamou a atendente:
      - Veja minha sobrinha neste mai. No est maravilhosa? 
      Que vergonha! Cris viu no espelho o reflexo da atendente, que sorria e concordava educadamente.
      - Ser que devo comprar? perguntou Cris, olhando a etiqueta de preo, onde marcava oitenta dlares.
      - Mas  claro! respondeu Marta. Agora, vamos ver o que mais a gente encontra aqui. Eles tm uma coleo maravilhosa.
      Meia hora depois, Cris observava a caixa somando o preo de suas roupas novas. Alm do mai, levava trs calas sociais, seis blusas, dois vestidos de ala, 
um bluso de moletom, uma saia jeans e quatro shorts.
      - So setecentos e oitenta e sete dlares e cinquenta e oito centavos, disse a moa com um sorriso.
      Marta tirou o carto de crdito e, entregando-lhe ainda um par de brincos amarelo-cheguei, perguntou:
      - Pode acrescentar estes tambm? Ficaro perfeitos com esse vestidinho de ala, no acha, Cris?
      A jovem ainda estava sem flego pelo total da compra. Sua me costumava fazer a maior parte de suas roupas, e quando tinham de comprar alguma, no podiam gastar 
mais de quarenta dlares numa tacada. Mas agora estava com a tia Marta, e esse era o jeito dela. Ento respondeu: 
      - Claro, so lindos.
      Na sada, passando pela seo de cosmticos, Marta exclamou:
      - timo! Ainda bem que passamos por aqui. Meu perfume esta quase no fim.
      Pediu  balconista o tamanho maior do "Private Collection". Em seguida, disse, em parte para a balconista e em parte para a sobrinha:
      - Ei, tenho uma idia! Vamos aproveitar e fazer sua maquiagem aqui!
      A balconista concordou com prazer, e antes que Cris se desse conta, estava sentada numa banqueta alta diante de um espelho, com luzes voltadas para ela. A 
especialista em cosmticos passou um chumao de algodo sobre a face e o nariz da garota, explicando o procedimento correto para a limpeza dos poros.
      Deve ser um sonho! pensou Cris, enquanto a esteticista passava uma sombra lils em suas plpebras. Com um lpis macio, a moa fazia um trao ao redor de seus 
olhos, aplicando-o com cuidado nos cantos externos. A escova em sua pele parecia veludo, e quando apertou os lbios, pensou em como o brilho tinha cheiro de morangos.
      - pronto, disse a esteticista. Olhe-se no espelho. O que acha?
      Cris abriu os olhos devagar.
      - Ser que sou eu? disse baixinho.
      Era ela, mas no parecia ser. Aparentava mais idade e maturidade. E seus olhos! Nunca havia notado como eles eram bonitos.
      - Os olhos dela  tem o formato perfeito, disse a esteticista. Ela pode fazer qualquer coisa com eles, no que diz respeito s cores; eles tm uma cor azul-esverdeada 
to diferente!
      -  mesmo? perguntou Cris, aproximando-se um pouco mais do espelho para examin-los melhor.
      - Sim, assegurou-lhe a maquiadora, levantando o queixo de Cris para olhar mais de perto. Conheo modelos que fariam de tudo para ter olhos como os seus.
      Cris mal podia acreditar. Sentia uma empolgao diferente, quase como se tivesse feito algo que no deveria.
      Em casa, sua me s lhe permitia usar um pouco de brilho nos lbios. Tudo isso agora era maravilhoso!
      - Voc fez um trabalho excelente, comentou Marta para a esteticista. Vamos comprar um de cada produto que voc usou.
      - Tia Marta! Tem certeza? assustou-se Cris.
      - Mas  claro! No faa tanto escarcu, querida! Voltando-se ento para a esteticista, acrescentou:
      - Queremos tambm a linha completa de produtos para o sol.
      Cris nem conseguia acreditar que tudo aquilo estava acontecendo com ela.
      - Muito obrigada, tia!
      - Por nada, querida. Marta entregou-lhe a sacola repleta de cosmticos, e disse:
      - Agora s temos mais uma parada a fazer, caso voc queira saber.
      - E onde ? perguntou a sobrinha, vendo seu reflexo numa vitrine.
      - O salo do cabeleireiro Maurice,  claro! 
      Percebendo a manobra da tia, Cris sorriu e comentou:
      - , parece que  agora ou nunca!
      
      O Pesadelo 
      3
      
      
      Chegaram em casa s quatro e meia da tarde e encontraram Bob no escritrio,  frente do computador, com uma pilha de correspondncia.
      - Ttttam! anunciou Marta teatralmente.
      Bob virou-se, e por um momento, pareceu chocado. Ento seu sorriso voltou.
      - Ora, ora, no sabia que voc iria trazer uma atriz de cinema para jantar conosco! Se soubesse teria vestido algo mais apresentvel!
      - Que  que voc acha? perguntou Cris, dando uma voltinha. Gostou? Meu cabelo ficou bom, curtinho assim?
      Estava curto mesmo! Pouco abaixo das orelhas. Maurice havia feito uma escova deixando-o todo cheinho. Ele cortara o cabelo do alto da cabea bem curto, arrumando-o 
num penteado espetadinho e puxando uma franjinha desfiada. Ao olhar-se no espelho, Cris reclamou que estava parecendo um poodle. E embora tivesse dito isso baixinho, 
Maurice ouviu e repreendeu-a severamente. Parecia ofendido por algum ousar questionar uma de suas criaes. Todos os cabeleireiros elogiaram a garota, dizendo que 
estava deslumbrante.
      Contudo ela no se convencera. Queria saber o que Paula acharia. Mas como a amiga estava a trs mil e quinhentos quilmetros de distncia, ficou ansiosa por 
ouvir o que o tio Bob iria dizer. Sabia que ele seria sincero. 
      - Voc me surpreendeu, mocinha! Se no estivesse com a mesma roupa que estava usando quando saiu daqui hoje cedo, eu no a teria reconhecido. Ficou estonteante!
      - O cara do salo me mostrou como se aplica esse negcio de musse, e eu trouxe dois frascos. Comprei tambm um enrolador eltrico de cabelo que ele me ensinou 
a usar. Mas no foi s isso! Espere s pra ver o que tem nessas sacolas. Nunca fiz tantas compras assim em toda minha vida!
      Animada, ela abriu todos os pacotes para mostrar os novos pertences. Logo o sof estava coberto de roupas, sapatos, acessrios e uma linha completa de maquiagem.
      - D pra acreditar? perguntou Cris, toda sorridente. Queria poder usar tudo de uma s vez!
      Marta parecia muito satisfeita consigo mesma.
      -  exatamente o que ela precisava, disse baixinho a Bob. Umas roupas novas e coisas que a ajudassem a melhorar a auto-estima. Eu no lhe disse que ela ficaria 
mais animada?
      - Voc estava certa! disse Cris, dando um gritinho. Estes brincos ficam timos com este vestidinho. No vejo a hora de sair com ele.
      - Que tal pr agora? Assim aproveito para levar minhas duas "namoradas" pra jantar fora e comemorar, ofereceu Bob.
      - timo, Bob, disse Marta, naquele tom de quem est no controle da situao. Mas tenho uma reunio com o grupo de mulheres hoje  noite. Vo vocs dois. Por 
que no a leva  Cozinha do Siri?
      - Est bem, concordou Bob. Parece uma boa idia. Q que voc acha, Cris?
      A garota j havia ajuntado as roupas novas e estava correndo escada acima quando respondeu:
      - Estou pronta em cinco minutos!
      Surpreendentemente, ela aprontou-se rpido mesmo e, quando desceu, encontrou o tio ao telefone. Enquanto esperava notou que ele trocara de camisa e penteara 
o espesso cabelo castanho. Bob era um homem atraente, que aparentava ter bem menos que os seus cinquenta e um anos de idade. A pele, curtida pelo sol das muitas 
tardes no campo de golfe, apresentava pequeninas rugas ao redor dos olhos, que se acentuavam quando sorria. A voz suave e grave harmonizava-se com sua personalidade 
tranqila. Seu jeito de ser contrastava profundamente com o estilo de vida acelerado de Marta.
      Quando Cris entrou na sala, Bob deu um assovio e ofereceu-lhe o brao.
      - Posso ter a honra de acompanh-la at o carro, gentil dama? Cris deu uma gargalhada.
      - Mas  claro, vossa "charmosidade". 
      Quando estavam saindo, Marta gritou:
      - Divirtam-se!
      Ao chegarem  Cozinha do Siri, descobriram que teriam de esperar uma hora para conseguir um lugar. Ento pediram um coquetel de camaro e caminharam at um 
longo banco de madeira, passando por um grande nmero de pessoas.
      - Que ventinho agradvel, comentou Bob.
      - Tem cheiro de peixe, acrescentou Cris.
      -  porque o quebra-mar de Newport fica logo ali no fim da rua, explicou Bob, apontando a direo com o garfo de plstico.
      -  l que todos os barcos descarregam a pesca diria.
      - Puxa! Olha s aquele carro!
      - Voc est falando do Rolls Royce?
      -  isso a. Ser que tem algum artista de cinema nele? Perguntou abaixando a voz.
       -  pouco provvel.
      - Eu nunca tinha visto um carro desses, a no ser na televiso.
      Cris levantou-se do banco e jogou o copinho de plstico do coquetel no lixo. Naquele momento, um carro esporte, conversvel, entrou no estacionamento.
      - Aquele  que  meu tipo de carro! exclamou Bob, quando ele voltou ao banco. Tala larga, rodas de magnsio, direo esporte. Deve ser um 68.
      - Ah, respondeu Cris. Ela no parecia muito impressionada com o carro. Entretanto ficou bastante interessada nos rapazes que desciam dele. Observando-os enquanto 
vinham em direo ao restaurante, ela concluiu que eles representavam o que ela gostava na Califrnia. Bronzeados, usavam shorts de surfista de cores vivas e camisetas 
estampadas. Pararam a poucos metros, com ar de quem no quer nada.
      Por um momento Cris pensou que estivessem olhando para ela. Devia estar imaginando coisas. Mas Bob confirmou suas suspeitas.
      - Aqueles caras esto olhando pra voc.
      - No esto no!
      - Claro que esto. Deve ser a roupa e o penteado novo. Quer que eu os convide pra jantar conosco? brincou ele.
      Cris virou as costas para os dois rapazes, que estavam realmente olhando na sua direo.
      - Pra! cochichou. Nem acredito que voc tenha dito isso!
      - Nossa! Para algum que nem esteve no sol hoje voc est vermelha demais. Naquela hora a recepcionista do restaurante chamou:
      - Sr. Robert, grupo de dois, por favor!
      Parece que s conseguimos uma mesa para dois, disse Bob. Seus namorados vo ter de esperar uma prxima vez.
      Cris abaixou os olhos ao passar por eles. Bob sorriu e cumprimentou-os com a cabea. De dentes cerrados, ela ameaou:
      - Eu te mato, tio!
      Depois que fizeram o pedido, ainda esperaram uns vinte minutos at serem servidos.
      - Graas a Deus, disse Bob, ao ver o garom aproximar-se. Estou morto de fome.
      Seu comentrio fez com que Cris perguntasse algo que vinha-lhe martelando a mente havia algum tempo.
      - Voc e a tia Marta acreditam em Deus? Bob pensou um instante e explicou:
      - Acho que encaramos a religio como algo muito pessoal. Algo interior, baseado naquilo que se cr. No  uma coisa sobre a qual se deve falar publicamente.
      - Vocs costumam ir  igreja?
      - Claro, de vez em quando. Mas sempre acreditei que Deus est em todo lugar e  parte de tudo, assim a gente pode ador-lo onde estiver. No precisa ir  igreja 
pra isso.
      Cris freqentava uma igreja desde que se entendia por gente. Toda sua famlia e suas amigas de Wisconsin tambm freqentavam. Na verdade, ela conhecera Paula 
numa classe de escola .dominical para crianas. Eram amigas desde ento. Nunca conhecera ningum que acreditasse em Deus que no tivesse o habito de ir  igreja.
      - E ento, disse Bob, com um suspiro profundo. Parece que voc e Marta tiveram um dia empolgante, fazendo compras. Como se sente com o novo visual?
      Espetando o garfo num camaro, ficou a pensar por um momento. Estava gostando de se sentir mais adulta e mais na moda, e no ntimo adorara a ateno daqueles 
rapazes l fora. A sensao de estar misteriosa e atraente instigava-lhe o desejo de experimentar um estilo de vida que nunca vivenciara antes, mas sobre o qual 
fizera mil fantasias.
      - Sabe, comeou ela com a voz mais amadurecida possvel. Realmente gosto.  muito mais o "eu" de verdade, no acha? 
      Ele deu um daqueles sorrisos cativantes e declarou: 
      - Se voc estiver feliz, Cristina Juliet Miller,  isso que importa.
      *****
      Aquela noite, obedientemente Cris aplicou o novo adstringente e o hidratante antes de vestir o camiso de dormir. O adstringente cheirava a remdio, mas o 
hidratante tinha uma fragrncia de perfume fino. "Estou ate com cheiro de rica", pensou, deitando-se na luxuosa cama e cobrindo-se com a colcha branca de bordado 
ingls.As palavras do tio ainda lhe ecoavam na cabea, no silncio do quarto: "Se voc estiver feliz,  isso que importa."
      Hoje ela se sentira feliz. Uma felicidade contagiante, empolgante. Mas aquela empolgao trazia a tiracolo um novo temor. Uma vez no vero passado ela se sentira 
assim quando voltava de um passeio com alguns amigos. O irmo de Paula havia lhe sugerido que dirigisse sua pick-up. Ela no estava muito a fim. Contudo Paula e 
sua prima j haviam dirigido naquele dia, e ela no poderia agora simplesmente dizer que no queria.
      Estava penas a setenta por hora quando os outros riram e desafiaram:
      - Vai mais depressa!
      Ela sentia um frio na barriga. Divertido? Talvez. Apavorante? Certamente.
      Apagou a luz do abajur sobre a mesinha de cabeceira e dormiu, pensando em como faria no dia seguinte, na praia, para parecer mais extrovertida, tomar seu destino 
em suas prprias mos e tudo mais.
      s duas da manh, acordou assustada, corao disparado e a camisola ensopada de suor. Acendeu depressa a luz e tentou respirar mais devagar.
      - Ar fresco! Preciso de mais ar!
      Pulou da cama e escancarou a janela. Tragando fundo a brisa que vinha do mar, sentiu a mente comear a se aclarar.
      - Que pesadelo horroroso!
      Ela arfava, tremendo com a lembrana do sonho assustador: Estava deitada na praia quando, de repente, veio sobre ela uma onda gigante que a arrastou para o 
mar. Depois de muito lutar, finalmente ela conseguiu subir  tona. Contudo, em todas as direes que olhava, s via gua. A terra desaparecera.
       distncia, avistou um barquinho a remo. Tentou nadar at l, mas tentculos compridos e gosmentos de algas marinhas se enroscaram em suas pernas, tentando 
pux-la para baixo. Cada brao de alga tinha uma voz e, todos juntos, diziam:
      - Pegamos voc! Pegamos voc!
      Finalmente ela alcanou o bote e agarrou-se  sua borda, desesperada para pular para dentro dele. Houve um momento aterrador em que ficou indecisa: no sabia 
se deveria erguer-se e entrar no barco, ou entregar-se ao mantra das algas. Naquele instante crucial estava paralisada pela indeciso.
      Foi ento que acordou.
      - "Foi s um sonho", disse a si mesma. "Um sonho bobo e sem significado."
      Respirou fundo mais uma vez, fechou a janela e ps-se a andar para l e para c.
      - "Foi s um sonho", repetia.
      Ento, deixando a luz acesa, enfiou-se debaixo da colcha e orou:
      - Querido Pai celeste, protege-me e guarda-me em segurana. Esteja com minha me, com meu pai e com o Davizinho. Amm. 
      Orando por sua famlia, Cris lembrou-se da promessa que fizera aos pais antes de sair de casa. Acrescentou ento:
      E, querido Deus, ajuda-me a cumprir a promessa que fiz aos meus pais de no fazer nada de que possa vir a me arrepender. Amm.
      Instantes depois, estava dormindo.
      
      Surfe e Algas Marinhas 
      4
      
      
      Na manh seguinte, se houvesse um concurso para ver quem leva mais tempo se aprontando no banheiro, Cris teria tirado o primeiro lugar. Depois de quase uma 
hora e meia de preparativos, abriu a porta e encontrou tia Marta no corredor, prestes a bater na porta do quarto.
      - Voc est a, querida? Ns j estvamos preocupados. Vamos ver, como est?
      Esperando algum sinal de aprovao, Cris perguntou:
      - E ento, que tal estou?
      - Seu cabelo, meu bem... seu cabelo parece... bem, digamos que, sendo a primeira vez, voc fez um bom trabalho.
      - Acho que usei demais daquele treco de espuma: minha franja est grudada.
      - Sim, talvez voc deva usar menos da prxima vez. E pode maneirar um pouco no lpis de olho. Mas o mai... o mai ficou lindssimo em voc, com essas suas 
pernas compridas. No vai ter sempre essas coxas se puxar a famlia da sua me; por isso se quiser manter as pernas sempre esbeltas, tem de evitar comer massas.
      - Est bem, tia Marta.
      A voz de Cris demonstrava a irritao que sentia por causa dos constantes conselhos.
      - Bem, voc sabe o que dizem por a: "Dinheiro e boa forma fsica nunca so demais", acrescentou Marta. 
      As duas riram e desceram para o trreo. 
      - Voc tem algum bom livro para eu levar pra ler na praia? perguntou Cristina.
      - Claro, de todos os tipos, querida. Esto na estante no escritrio. Escolha o que quiser. Vamos  sua bebida matinal? 
      Cris ficou arrepiada s em pensar.
      - Eu no estou com fome, tia. S vou levar alguma coisa para beber na praia.
      Tirou ento um romance da estante. 
      Marta voltou da cozinha com duas garrafas de gua mineral e colocou-as na sacola nova de Cris.
      - A est. Divirta-se e lembre-se: tente fazer amizade com outros jovens na praia.
      - Sim, tia Marta. 
      Cris foi depressa para a cozinha, onde Bob lia o jornal.
      - Psiu, sussurrou ela, com o dedo sobre os lbios e, abrindo a geladeira, trocou a gua mineral por duas latas de refrigerante. 
      Bob deu uma piscadela e voltou ao jornal. 
      Algumas nuvens finas velejavam pelo cu naquele final de manha, enquanto Cris caminhava pela areia. Os "jovens", como Marta os chamava, estavam reunidos perto 
do quebra-mar, onde os surfistas ficam. Cris aprendera com o tio Bob, em seu primeiro dia ali, que o quebra-mar  uma longa pennsula artificial feita de rochas. 
Ele funciona como um divisor de guas no oceano, criando uma baa calma de um lado e as maiores ondas da praia, do outro.
      Cris parou e olhou a arrebentao batendo contra o quebramar. As ondas do norte se formavam a certa distncia, vindo como um enorme muro estourar com fora 
sobre as rochas. 
      "Controle seu destino!" As palavras de Marta ecoavam na martelando-lhe os seus nervos. Ergueu a cabea e para o mesmo grupo que tinha rido dela poucos dias 
atrs. Com um novo penteado e um novo mai, esperava que pensassem que fosse outra garota. 
      Estendeu a toalha e notou que alguns dos rapazes pareciam olhar para ela. At aqui, tudo bem! pensou.
      Ento, deitada de bruos, comeou a ler seu romance, mexendo na areia com os dedos do p. No sabia o que seria pior: se eles a ignorassem de novo, ou se algum 
viesse conversar com ela.
      Pouco depois, arriscou uma olhadela tmida para ver se os rapazes ainda a estavam olhando, mas no estavam. Tinham agora os olhos fixos numa garota incrivelmente 
bonita que vinha em sua direo.
      Alta e magra, ela estava de biquni e culos de sol, e vinha caminhando com leveza sobre a areia. Seu cabelo loiro caa at a cintura, parecendo a crina de 
um cavalo selvagem.
      Parou bem perto de Cris. Depois, enquanto todos olhavam, aquele modelo de beleza de praia acomodou-se na areia e olhou para o mar, como se estivesse posando 
para uma propaganda de bronzeador.
      "Que  que ela est tentando provar?" perguntou-se Cris, fingindo no not-la. "Por que veio sentar perto de mim? E se os rapazes vierem aqui conversar com 
ela? E se puxarem conversa comigo?" Uma vontade imensa de fugir apoderou-se de Cris. Mas, contudo, ignorou o jeito que seu corao acelerava e fixou os olhos no 
livro. A voz da tia ressoava em sua cabea: "Controle seu destino! D o primeiro passo! Seja ousada!"
      O cheiro doce de leo de coco que emanava da garota perturbou tanto Cris que ela acabou virando-se e dizendo um tmido "Oi!"
      A moa respondeu prontamente.
      - Esse livro  timo. J chegou  parte em que eles ficam presos num txi em Hong Kong?
      Cris espantou-se com a simpatia da moa.
      - No.
      - Ento no vou estragar o suspense, disse com um sorriso. Mas a parte em Hong Kong  tima, e muito sensual.
      - Ah, bem, replicou Cris, tentando estudar a garota mais a fundo. Parecia muito boazinha, para uma esnobe. Ento a moa perguntou:
      - J entrou na gua? Est muito fria? Cris notou que ela tinha um sotaque diferente ao dizer certas palavras.
      - No, disse Cris.
      Depois, percebendo que no estava acrescentando nada  conversa, gaguejou:
      - Quer dizer, ontem no entrei; hoje tambm ainda no. Mas antes de ontem ela estava uma delcia.
      Cris hesitou um pouco, mas acabou perguntando:
      - Voc esteve aqui ontem?
      - No, ns chegamos ontem. Meu nome  Alissa. E o seu?
      - Cris. De onde voc vem?
      - Acabamos de chegar de Boston, da casa de minha av, mas no ano passado morvamos na Alemanha.
      -  mesmo! Voc  da Alemanha? Meu pai tem uns parentes l. Sempre quis conhecer...
      - S ficamos na Alemanha dois anos. Antes disso moramos no Hava e na Argentina.
      - Deve ser legal!
      - Tem suas vantagens e desvantagens. Meu pai era da Fora Area. E voc? Mora aqui?
      - No. Estou passando uns dias na casa de uns tios aqui. Eu moro no Wisconsin.
      O Wisconsin parecia to sem graa em comparao com a Argentina e o Hava...
      Entretanto Alissa no fez nenhuma gozao. Ao contrrio, convidou-a para dar um mergulho. Cris sentiu o olhar dos surfistas acompanh-las enquanto caminhavam 
devagarinho em direo ao mar. Quando estavam j com gua na altura da cintura, mergulharam numa onda espumante. 
      Cris sentia a gua fria em cada poro. "No existe no mundo sensao igual a esta!" pensou com entusiasmo. Virando-se ento para Alissa, disse:
      - Adoro o mar! E voc?
      - Sem sombra de dvida! Respondeu Alissa, flutuando numa pequena onda. Voc adoraria as praias do Hava. A gua  to morna e clara... D vontade de ficar 
o dia todo. E as ondas so perfeitas para pegar jacar.
      - Eu queria saber pegar jacar, lamentou Cris. Sou desajeitada demais.
       -  tudo questo de pegar a onda certa, na hora certa, explicou Alissa. Veja essa que est chegando, por exemplo. Se esperar demais, ela quebra em cima de 
voc e a leva ao fundo. A gente tem de comear a bater os ps e nadar enquanto a onda est formando a crista atrs. Da deixamos que ela leve a gente at a praia, 
como se estivssemos dentro dela.
      A onda surgiu atrs delas grande demais para que pudessem boiar. Ento prenderam a respirao e mergulharam fundo, onde a gua estava tranqila. Quando subiram, 
viram a onda quebrar-se numa curva espumante em direo  praia.
      - Essa teria sido perfeita para pegar jacar, disse Alissa, alisando o cabelo encharcado. T vendo aqueles rapazes l embaixo? Eles pegaram a onda. Uns surfistas 
me disseram no Hava que a stima onda  a melhor.
      Haviam flutuado sobre mais quatro ondinhas quando Alissa disse:
      - Olha a stima onda. Deve ser a melhor dessa srie. Passe por cima dela, que eu vou tentar peg-la. Talvez veja o que quero dizer com bater os ps antes da 
onda comear a quebrar.
      A onda ergueu Cris como um pai levanta seu bebe. Ela observou Alissa navegando sobre ela com graa e destreza at a praia. "Ela d a impresso de que  to 
fcil!" pensou, com um suspiro.
      A galera da praia estava igualmente de queixo cado com a graa de Alissa. Quando ela saiu da gua, quatro surfistas largaram a prancha e correram para puxar 
conversa.
      Cris olhava de longe, com inveja, enquanto Alissa, pingando gua, puxava o cabelo comprido sobre o ombro e o torcia.
      "Ah, se eu tivesse um corpo e uma personalidade como da Alissa! Ela tem tudo que se possa desejar." Cris a admirava e, ao mesmo tempo, sentia antipatia por 
ela.
      Distrada com o que acontecia na praia, Cris no viu a onda enorme que surgia por trs dela. Inesperadamente, a onda quebrou, puxando-a para baixo com uma 
fora esmagadora. Ela virou cambalhota debaixo d'gua e, apavorada e sem ar, engasgou, engolindo muita gua. O pavor que sentira no pesadelo retornou, dando-lhe 
a sensao de que estava lutando com um perigo maior do que o do oceano. Sem d, a onda deu-lhe mais um golpe, jogando-a na praia e raspando seu cotovelo na areia 
grossa.
      Era seguida, a onda retrocedeu, deixando-a como uma foquinha ilhada na praia, bem perto de Alissa e dos surfistas.
      - Ah no! exclamou ela, enquanto o grupo disparava a rir. Saia gua do seu nariz, seus ouvidos estavam cheios de areia, as al;as dos mai estavam retorcidas 
e um pedao grande de alga marinha envolvia seu tornozelo. Pior de tudo, seu cabelo estava em p na parte de trs e o lado direito emplastrado sobre o rosto, cobrindo 
o olho. Ela piscou, olhando para o grupo em busca de uma  "fora", mas eles continuavam rindo. Alissa mais que os outros.
      Havia um surfista alto e bonito, de cabelo louro, prximo a Alissa.
      - Radical! gozou ele. Isso foi totalmente chocante! 
      Nesse instante notou que escorria sangue do seu cotovelo, que ardia quase tanto quanto seu orgulho ferido. "Este , sem sombra de dvida, o pior momento da 
minha vida", pensou.
      Um dos surfistas aproximou-se e ajudou-a a desembaraar as algas do tornozelo.
      - Voc est bem?
      Era mais uma declarao do que uma pergunta.
      - Sim.
      Cris olhou para cima e viu um dos rapazes mais interessantes que j vira em toda a sua vida. Era exatamente como o "cara perfeito" que ela descrevera para 
Paula meses atrs: cabelo clareado pelo sol, olhos azul-prateados.
      Ele a tomou pelo cotovelo e ajudou-a a levantar-se.
      - Estou me sentindo ridcula! confidenciou ela. 
      -  posso imaginar. A maneira como ele falou expressava bondade. Parecia realmente entender como ela estava se sentindo.
      Os outros voltaram a paquerar Alissa. Cris caminhou pela areia at sua toalha. O cara bonito a seguiu e ficou ali, enquanto ela se enxugava e tentava tirar 
a areia dos ouvidos.
      Finalmente ela quebrou o silncio.
      - Obrigada por ter me ajudado.
      - Claro, disse ele, sentando-se sobre a toalha de Alissa. Sua amiga se importa se eu me sentar aqui?
      Cris olhou para a "amiga", que flertava tanto com os surfistas que parecia nem lembrar que ela existia.
      - Acho que no.
      - Meu nome  Ted. Disse ele, com um sorriso franco e amistoso.
      - Eu sou Cris, respondeu ela, surpresa por estar to calma ao lado desse cara maravilhoso. Voc mora aqui?
      - Sim, durante o vero, com meu pai.
      - E sua me? Perguntou Cris.
      - Tallahassee.
      - Onde  isso?
      - Na Flrida. Meus pais so divorciados, e minha me mora em Tallahassee. Moro com ela durante o ano letivo e passo o vero e alguns feriados com meu pai.
      Naquela hora, Alissa e um dos surfistas vieram para perto deles. Pareciam estar se dando muito bem. Ele estava com o brao na cintura da jovem, e cada um segurava 
uma lata de cerveja.
      - Quer um pouco? ofereceu o rapaz a Cris.
      - No, obrigada, respondeu, sentindo-se meio desajeitada.
      - Ah! disse ele, com ar de superioridade. Voc deve ser daquele tipo de amigos que o Ted tem.
      - Na verdade, eu trouxe uns refrigerantes, balbuciou ela, sem saber o que ele queria dizer com "aquele tipo de amigos do Ted" Tenho dois. Voc quer um, Ted?
      - Claro. Ted aproximou-se de Cris, e o outro surfista sentou-se com Alissa, na outra toalha. Ted apresentou o rapaz como Sam, e Cris apresentou Alissa.
      Isso  bom demais pra ser verdade! pensou Cris. Sabia que sua tia ficaria encantada.
      Ficaram papeando durante cerca de uma hora. Alissa praticamente dominava a conversa. Tinha muitas histrias sobre vida na Alemanha. Cris gostou do seu sotaque, 
que devia se uma mistura do jeito de falar de todos os lugares em que vivera.
      - E aqui os carros vo to devagar nas "autovias". Mas no   essa a palavra que vocs costumam usar. Como  que vocs dizem? "Autopistas"?
      - No, disse Cris.
      - Sim, disse Ted ao mesmo tempo.
      Olharam um para o outro. 
      - Na Califrnia ns as chamamos de autopistas, explicou Ted..
      - Bem, no Wisconsin ns as chamamos de rodovias, respondeu Cris, com uma risada.
      - Bem, seja como for, vocs dirigem muito devagar aqui, observou Alissa. Em Stuttgart no era nada dirigir a 120 por hora.
      Ted e Alissa comearam ento a falar sobre carros, e Cris ficou escutando. No sabia sequer a diferena entre um Fiat e um Fiesta e tinha medo de dizer alguma 
bobagem. Sam tambm ficou quieto. Parecia no estar nem a, e seus olhos tinham um brilho estranho. Cris sentia-se mal quando ele olhava para ela. No tinha certeza, 
mas achava que o olhar dele era o que os livros chamam de "lascivo".
      - Olha s! exclamou Sam de repente, apontando na direo da gua. Essa  de rachar!
      - O que ele quer dizer? perguntou Cris baixinho a Ted.
      - Ta vendo aquele menino na prancha branca? S tem uns oito anos e j surfa muito bem.
      - Quantos anos voc tem? perguntou Alissa a Cris. 
      Pensando que provavelmente era a mais nova dos quatro, mentiu a princpio.
       - Tenho quinze. Entretanto corrigiu-se logo em seguida. Na verdade tenho quase quinze. Fao aniversrio daqui a algumas semanas. E voc?
      - Dezessete.
      Cris no sabia se Alissa estava mentindo ou no. Sua aparncia era mesmo de uma garota dessa idade, mas quando ria, parecia no ter mais que uns quatorze anos. 
Alm do mais, se tinha mesmo dezessete, por que estaria se relacionando com ela, que tinha quinze?
      - Vocs meninos, no nos disseram sua idade. Falou Alissa. 
      - Eu no me lembro, brincou Sam.
      - Vamos l Sam! disse Ted. Ns dois temos dezesseis anos. Ele esta com medo de que voc no queira sair com um cara mais novo.
      - No  isso no, negou Sam.
      - Depende da minha fome, desafiou Alissa, lanando a Sam um olhar que deixou Cris envergonhada.
      No sabia bem por que, mas sentia-se como uma intrusa numa brincadeira particular.
      Certamente Sam conhecia todas as regram do jogo, pois se abaixou e beijou Alissa nos lbios. Cris desviou o olhar para o quebra-mar.
      - Est com fome?
      A voz de Sam tinha um timbre forte.
      - Faminta, respondeu Alissa.
      Sam levantou-se, puxando Alissa consigo, quando Ted quebrou aquele clima romntico.
      - Vamos surfar, Sam! As ondas parecem legais.
      - Ah, mas  claro, debochou Sam. Alissa pegou sua toalha e os dois atravessaram depressa a areia em direo  casa de Sam.
      - Eles vo preparar um lanche ou algo assim? Perguntou Cris, confusa pela sada repentina do casal.        
      Ted olhou para ela meio espantado.        
      - No exatamente.
      Cris no sabia bem o que ela no "pegara", mas percebeu que; o Ted no estava muito contente com a sada do Sam. Contudo! ela no se importou nem um pouco.
      Adoraria passar o resto do dia sentada ali, conversando com o Ted, olhando para seus enormes olhos azuis. Nunca gostara de um cara como estava gostando dele. 
E s o conhecera hoje Ser que ele estava gostando dela? Parecia que sim, mesmo no tendo tentado beij-la, como Sam fizera com Alissa. Na verdade o pensamento a 
deixava atnita. E se ele tentasse beij-la assim?
      - E a, o que voc quer? Perguntou Ted, interrompendo se devaneio.
      O corao de Cris deu um salto.
      - Quer o qu?
      Ser que ele estava lendo seus pensamentos?
      - Quer surfar?
      - Ah! disse Cris, com uma risada. No sei. Como voc deve ter notado, no tenho muita coordenao na gua.
      - Eu lhe ensino.
      - O que eu queria mesmo aprender  a pegar jacar. Era o que a Alissa estava tentando me ensinar.
      - No sou o melhor nisso por essas bandas, mas posso lhe ensinar o que sei.
      Mergulharam no mar, e Cris teve novamente aquela sensao de bem-estar, agora ainda mais intensa por causa da presena de Ted.
      Como dois golfinhos, eles enfrentaram juntos as ondas, conversando e rindo. Com pacincia, Ted tentou ensin-la a pegar jacar, mas ela no conseguia se cronometrar. 
Cada onda que passava levava Ted em sua crista e a deixava para trs, encharcada.
      Depois de certo tempo, outro surfista passou por eles e Ted apresentou-o. Chamava-se Douglas. Era uma gracinha, e ela o achou muito mais simptico que os outros 
surfistas que encontrara antes.
      - Experimente isso, disse Douglas, oferecendo-lhe sua prancha de Body Board.
      - Como se usa? perguntou Cris, insegura sobre o que fazer com a prancha macia, amarelo-cheguei, que ele oferecia.
      - Bem... voc s tem que subir nela e, e... ah, eu no sei! Usa-se como se usa uma prancha de Body Board, disse Douglas.
      - Aqui, eu mostro, ofereceu Ted.
      Prendeu com velcro uma tira em volta do punho e esperou um instante. Quando veio a onda seguinte, deitou-se de bruos na pranchinha e comeou a bater furiosamente 
os ps, deslizando  frente dela.
      Cris e Douglas ficaram boiando e observando Ted, enquanto aonda estourava atrs dele, levantando-o sobre a prancha de Body Board at  praia.
      - Legal! exclamou Cris. Posso tentar? 
      - Claro, concordou. Use-a o quanto quiser.
      - Obrigada.
      Ted remou de volta com as mos e entregou a prancha curta e esponjosa para Cris.
      - Isso facilita pra pegar as ondas!
      Meio sem jeito, Cris deitou sobre a pranchinha. Espero que meu traseiro no esteja muito saliente! preocupou-se.
      - Ta. Comece a bater os ps!
      A garota bateu os ps sem parar e no olhou para trs. De repente a fora da onda levantou-a, puxando-a para cima e para a frente. Antes que conseguisse perceber 
o que estava acontecendo, a onda a cobriu. Agarrou a prancha com toda fora e sentiu o mpeto do mar impelindo-a para a praia. A prancha escorregou sobre a areia 
grossa da praia e, imediatamente, a onda recuou.
      Cris ficou de p, sem um arranho, e acenou para Ted e Douglas, que acenavam parabenizando-a.
      Quero fazer isso de novo!  por isso que o pessoal gosta tanto de surfar. Imagine como seria fazer isso de p numa prancha grande! Mesmo deitada nessa pranchinha 
j  uma delcia de tirar o flego!
      Enfrentou as ondas e voltou para onde estavam Ted e Douglas.
      - Que brbaro! disse Douglas quando ela chegou.
      - Que brbaro? repetiu Ted. Ningum mais diz "Que brbaro" hoje em dia!
      - Pois eu digo, respondeu Douglas rindo. Cris, voc foi brbara naquela onda. Alis, em todo o percurso!
      - Ei, que horas so? perguntou Ted.
      - Quase trs e meia, respondeu Douglas, consultando seu relgio de mergulho.
      - Tenho de ir, disse Ted. Vou dar uma carona  Trcia para o trabalho. Virou-se ento para Cris e perguntou:
      - Voc vir aqui amanh?
      Cris assentiu com a cabea, tremendo um pouco por causa da gua fria.
      - Ei, essa a parece uma boa!
      Ted apontou para a imensa onda que se aproximava. Vamos todos nela!
      Cris deitou-se sobre a pranchinha e os dois rapazes seguraram nas beiradas. Os trs estavam batendo os ps ao mesmo tempo, mas, quando a onda os alcanou, 
o impacto separou-os, empurrando a garota mais depressa. Ela deu um gritinho ao sentir a fora que arrancou a prancha de debaixo dela. Virou urna vez debaixo da 
onda e saiu por trs dela. A amarra no pulso permitiu que puxasse a prancha de volta. Ted e Douglas, agora ambos  sua frente, saam da gua na beira da praia.
      Cris deitou-se novamente sobre a prancha e deixou que a onda que veio em seguida, menor e menos forte, a impelisse suavemente para a praia, onde Ted sacudia 
vigorosamente a gua do cabelo.
      - Ento vejo vocs amanh, disse ele. 
      - At mais! respondeu Douglas e, virando-se para Cris, perguntou:
      - Voc vai pegar mais onda? 
      Ela hesitou um instante e depois disse:
      - Estou com um pouco de frio. Acho que vou tomar um solzinho. Obrigada por ter-me emprestado sua prancha. Foi divertido!
      De nada, disse ele, pegando-a de volta. Est sempre s ordens.
      Ela esticou a toalha e deixou que o sol quente a tostasse. A gua salgada secava formando manchinhas nas suas pernas, e ela sentia a pele ressequida e coando, 
e a boca muito seca.
      Douglas ainda estava na gua, curtindo sua prancha de Body Board, e Ted no voltaria mais naquele dia. Ento ela resolveu ir embora.
      Enquanto ia caminhando com cuidado na areia quente, pensava: Esse dia foi realmente brbaro, como diria o Douglas. Minha tia vai se orgulhar de mim! Ela tinha 
razo: eu s precisava de um bom mai e um belo corte de cabelo. Adorei me enturmar com a galera do Ted. Nossa! A Paula nem vai acreditar...
      
      
      
      
      O Convite 
      5
      Na manh seguinte, Cris foi bem cedinho para a praia, de cabelo arrumado e com maquiagem nos olhos. Esperou ansiosamente pelo Ted. No havia quase ningum, 
exceto uns poucos surfistas que no conhecia. Ningum do grupo que conhecera no dia anterior estava l.
      Voltou para casa, que ainda se achava em silncio, e olhou para o relgio. Oito e vinte e sete. No era de espantar que ningum estivesse na praia.
      Esparramou-se sobre uma poltrona e ligou a televiso. Estava passando um programa infantil. Cris ficou ali assistindo meio desligada, vendo um boneco que tentava 
convencer o outro comprar um sorvete de picles e sardinha. O segundo ficava dizendo que no gostava.
      - Como pode dizer que no gosta se nunca experimentou?!
      O primeiro insistiu tanto que o outro acabou comprando o sorvete.
      - Eca! gritou ele ao experimentar o sorvete. Provei e no gostei.
      - Ha-ha-ha! riu o primeiro boneco. Sabia que no ia gostar. Sinto muito, mas agora sua moeda j est no meu bolso. Ha-h-ha! Ganhei o dia. He-he-he!
      - Que chatice! pensou Cris, desligando a TV. Pensar que isso  um programa "educativo", para criancinhas! Credo!
      - "Provei, e no gostei!" disse ela arremedando o personagem.
      - No gostou do qu? 
      A voz de Bob veio da porta.
      - Ah, um sorvete de picles com sardinha.
      - E que tal uma omelete de picles, sardinha e queijo?
      Cris riu da brincadeira do tio e replicou:
      - timo, se eliminar os picles e as sardinhas! 
      Enquanto tomavam o caf da manh, Cris conversou com o tio sobre Ted.
      - Ele  o cara mais bacana que j conheci, e tenho certeza de que gosta de mim.
      - Qualquer rapaz seria louco se no gostasse de voc!
      Era to fcil conversar com o tio Bob. Ela queria poder relacinar-se assim com seu pai, mas ele era um homem muito fechado. Conversar com ele consistia em 
ouvi-lo falar sobre um assunto durante horas e, no final, a sua concluso: " assim que tem de ser. " Ele no lhe dava espao para ter suas prprias idias e express-las. 
Ele era o pai, ela a filha. Ele dizia, ela obedecia. Era assim mesmo. Estava gostando dessa liberdade de poder dar suas opinies, conversar sobre tudo e sentir-se 
capaz de tomar decises acertadas.
      Com a autoconfiana aumentada, dirigiu-se novamente  praia, l pelas onze horas, pronta para o que desse e viesse. Estava to entusiasmada que, quando viu 
o Ted, correu para cumprimenta-lo, sem perceber que ele estava conversando com outra garota, alis, uma graa de garota.
      - Ei, Cris! disse Ted. Como vo as coisas? Esta  a Trcia.
      - Oi, disse Trcia com um sorriso rpido. A jovem era baixa e magrinha. Tinha cabelo escuro na altura do ombro e olhos vivos, cor de chocolate. Seu bronzeado 
era bem mais intenso que o de uma modelo de propaganda de bronzeador.
      Os olhos de Cris pularam de Ted para Trcia e novamente para Ted. Ser que estava interrompendo alguma coisa?
      - Vocs se importam se eu colocar minha toalha aqui?
      - Claro que no, respondeu Trcia. O Ted me disse que havia conhecido duas garotas novas na praia ontem, enquanto eu estava trabalhando. Sua amiga vir?
      - No sei. Na verdade eu a conheci ontem e, depois que ela saiu com o Sam, no a vi mais.
      - Eu vi os dois hoje cedo, disse Ted em voz baixa. Provavelmente eles ainda vo aparecer mais tarde.
      - No sei como voc consegue ser to amigo dele, disse Trcia a Ted.
      - Eu e Sam somos amigos h muito tempo.
      - Sei, mas vocs dois no tm mais nada em comum.
      - No posso simplesmente ignor-lo, defendeu-se Ted.
      - No fique zangado, respondeu Trcia repreendendo-o. Eu s fico me perguntando por que voc ainda anda com ele, s isso.
      - Onde voc trabalha? interrompeu Cris, tentando melhorar o clima.
      No dava para saber se Ted e Trcia estavam conversando como, irmos ou como namorados.
      - Na Sorveteria Hanson. Fica l perto do Pavilho. Quer um emprego? Eles esto procurando mais algum para trabalhar  noite.
      - No, mas obrigada pelo interesse, respondeu Cris, ainda tentando descobrir qual o relacionamento de Ted e Trcia. Ted e Trcia! At os nomes combinavam! 
Ser que ele gostava dela? Sentiu-se meio insegura sem saber direito o que ela era para ele. 
      - Que horrio voc trabalha hoje? perguntou Ted a Trcia.
      - Meio dia s seis. Voc ainda vai poder me dar uma carona?!
      - Claro.  melhor irmos embora logo. Olh'a, o Sam e a Alissa!
      Agora  que Cris sentiu-se sobrando mesmo. Sam e Alissa chegaram abraados, nitidamente orbitando em uma galxia particular.
      Que ser que estou fazendo aqui? perguntou-se Cris.
      - Vocs iro todos  festinha amanh  noite? perguntou Alissa.
      - Que festa? murmurou Cris.
      - Do Sam. Os pais dele vo estar fora da cidade no fim de semana.
      - Voc vai, Trcia? perguntou Cris.
      - No, no sou muito de festas. Alm do mais, tenho de trabalhar.
      - E voc, Ted?
      - Provavelmente darei uma passada por l. O interesse de Cris aumentou. Se Trcia no fosse, talvez ela tivesse mais chance com o Ted.
      - Acho que eu vou, disse Cris. Vou pedir que minha tia me deixe l.
      - Ah! No faa isso! disse Alissa com uma risadinha. No numa festa dessas! So s algumas quadras. Voc pode ir comigo, se quiser.
      - timo!
      Cris lanou um olhar para Ted para ver se ele se ofereceria para lev-la.
      - Temos de ir, foi tudo o que ele disse. Vou levar a Trcia para o trabalho. Alm disso, prometi a meu pai que terminaria de pintar a varanda hoje.
      - Tchau! Vejo vocs depois! disse Cris a Ted e Trcia, tentando no deixar transparecer o desapontamento pelo fato de o Ted no passar o dia com ela.
      Alissa e Sam tambm resolveram sair, e foram caminhando pela praia abraadinhos. O corpo bronzeado de Alissa atraa como um im os olhares de todos por quem 
passava. Certamente ela sabia que todo mundo estava olhando, mas agia como se no ligasse a mnima. Cris tirou o romance da sacola e tentou no ficar muito deprimida 
por ter ficado sozinha de repente. O sol da tarde queimava suas costas e, de tempo em tempo, ela erguia os olhos na esperana de que Ted voltasse.
      No dava para entender. Ontem ele parecia estar realmente interessado nela. Hoje ele e Trcia pareciam um casal, discutindo, ele levando-a para o trabalho...
      Como  que eu fico nessa historia? questionou-se. Pelo menos ele vai  festa amanh, e a Trcia no! Eu queria saber lidar com os rapazes como a Alissa. Assim 
seria mais fcil conseguir que um cara como o Ted gostasse de mim.
      Depois de passar ali vrias horas sem progredir muito na leitura, ela juntou suas coisas e atravessou a areia quente aos pulinhos, imaginando como seria que 
a Alissa conseguia andar com tanta elegncia. Tudo que Alissa fazia era perfeito. Se pudesse ser igual a ela...
      O pior de voltar para casa era a certeza de que sua tia pediria um relato completo do dia; e no havia muito a dizer. A no ser sobre o convite para a festa. 
Pelo menos tinha isso de bom para esperar.
      Marta estava deitada, esticada sobre uma espreguiadeira no ptio, com um copo grande de ch gelado na mo. Usava um mai preto com uma faixa roxa na cintura 
e um enorme chapu de palhinha com fita tambm roxa. S suas pernas estavam expostas ao sol.
      Estava lendo uma revista em formato de jornal, com a foto de uma artista de cinema na capa, e uma manchete que dizia algo como: "Alexis quer vingana". Por 
um momento Cris achou a tia um pouco parecida com a artista da capa.
      - Ol, Cris! disse Marta, com uma expresso meio assustada. No vi voc chegando. Como foi o dia querida. To bom quanto ontem?
      Cris fez um relato, eliminando os detalhes. No contou que acabara ficando sozinha na praia, mas falou sobre o convite para a festa.
      Marta disse com orgulho.
      - Eu sabia que voc conseguiria se entrosar com a turma mais popular, se tentasse! A que horas devo deix-la na casa do rapaz?
      - Na verdade, a Alissa vem me buscar.
      Cris esperava que Marta no insistisse em lev-la de carro, porque Alissa dera a entender que ela ia parecer meio infantil se a tia a levasse.
      - Bem, vou pensar no caso, disse Marta. Em seguida, acrescentou:
      -  cus! Temos de sair para comprar um vestido bonito pra voc usar.
      - Mas tia, voc me deu um guarda-roupa inteiro faz poucos dias, lembra?
      - Sim, mas no compramos nenhum vestido de festa de verdade.
      Marta parecia bastante preocupada.
      - Vestido de festa? Sem essa! E se a gente for fazer alguma brincadeira mais movimentada? Eu vou de jeans.
      Para alvio seu, Marta se acalmou. 
      Quando Cris entrou na cozinha, Bob estava retirando um pacote de hambrguer do congelador.
      - Nossa! exclamou ele quando a viu. Voc se queimou!
      - Mesmo? perguntou, parecendo contente. Estou surpresa por meu rosto estar queimado. Fiquei de bruos quase o dia todo.
      - Aqui, sua lagostinha, disse ele, oferecendo-lhe um tubo de gel de aloe vera. Passe isto depois do banho, ou voc vai inchar como tomate e assustar os garotos.
      - Hoje na praia eu no os assustei, respondeu ela com certa petulncia. Fui at convidada para uma festa, anunciou, abrindo a geladeira e procurando algo para 
comer.
      Minha nossa! retrucou Bob. No estamos nos tornando uma borboletinha social de repente?! Teremos a honra de sua presena no jantar hoje?
      - Claro. A festa  s amanh. Cris pegou uma colher e comeou a tomar sorvete de chocolate e nozes direto no pote. Bob parecia no se importar.
      - Foi esse seu novo amigo, o Ted, que a convidou? 
      - No, mas ele tambm vai estar l, disse Cris, terminando de tomar o sorvete. A festa  na casa do Sam, e eu vou com a Alissa, explicou, mexendo nos armrios. 
Tem alguma coisa pra se comer nesta casa?
      - Daqui a algumas poucas horas teremos um jantar rnexicano no ptio, disse com exagero dramtico. Devo cham-la quando estiver tudo pronto?
      - Si, si senor! respondeu Cris, enquanto subia a escada. 
      Foi s quando olhou no espelho do banheiro que viu o que seu tio falara sobre a queimadura de sol. At suas orelhas estavam queimadas! Ao lavar o cabelo, a 
gua do chuveiro parecia mil agulhas enfiando-se nas suas costas.
      Vestir-se foi um esforo monumental. At mesmo o gel de aloe Vera ardia quando o aplicava aos ombros.
      Mais tarde, quando os trs se sentaram  mesa para jantar, Marta olhou bem para o rosto de Cris, e falou:
      - Cristina, querida! Voc est horrivelmente queimada! No levou o filtro solar para o rosto hoje?
      - Est tudo bem, Marta, disse Bob acalmando-a. Eu lhe dei o  gel de aloe vera. Ela vai ficar bem.
      - No coma muito, querida. Voc tem de sentir-se leve amanh  noite.
      - Deixa a mocinha! protestou Bob.
      - Bem, amanh vai ser uma noite importante para Cris, e s quero que ela esteja com seu melhor aspecto.
      *****
      
      Cris no se sentia to bem quando chegou a grande noite. Estava to queimada de sol que acabou passando o dia inteiro deitada pelos cantos, gemendo, tomando 
gua gelada e tolerando a tia, que besuntava uma variedade de misturas nos seus ombros e costas doloridos.
      Ela queria ir  praia para procurar o Ted, mas Marta no a deixou sair de casa. Passou o dia pensando nele.
      L pelas quatro da tarde comeou a revirar o guarda-roupa a fim de decidir o que vestiria. Finalmente resolveu pr um jeans novo e uma camiseta com estampa 
de ursinho. Era o tipo roupa que Paula teria usado. Mas o que ela queria mesmo era ter o nmero do telefone da Alissa para perguntar-lhe o que ela iria vestir. Alissa 
era to mais amadurecida que Paula e, tendo morado em tantos lugares diferentes, sabia muito mais sobre , vida do que todas as amigas de Cris de sua cidade.
      Enquanto escovava o cabelo curto, pensava no lindo cabelo comprido de Alissa. Resolveu deix-lo crescer de novo. Quando completasse dezessete anos, ele j 
estaria novamente do tamanho do Alissa. Virou a cabea pra trs em frente ao espelho, imitando sorriso de Alissa e sacudiu a longa cabeleira imaginria.
      - O que est fazendo, meu bem?
      Marta estivera olhando da porta do quarto. 
      - Oh! S brincando, respondeu Cris, assustada.
      - Est na hora de voc comear a se aprontar. J resolveu o que vai vestir?
      Cris olhou para sua roupa.
      - Isto. Vou usar isto. J estou quase pronta.
      Marta examinou a garota com ar de censura.
      - Parece que voc j se decidiu. Eu estava s querendo ajudar. 
      Virando-se ento para sair, mudou o tom de voz e anunciou com uma alegria exagerada.
      - Bem, o jantar est pronto!
      No agento isso! pensou Cris, com vontade de gritar. Primeiro os adultos insistem em dizer que temos de crescer, ser autnticos e tomar nossas prprias decises. 
Depois, quando a gente resolve, eles falam que somos incompetentes e que nossas decises so insensatas.
      Jogou a escova no cho, abriu de sopeto a porta do armrio, pegou o vestido novo de alas e arrancou a camiseta. Ai! A pele queimada latejava. Caiu no choro 
e jogou-se na cama ficando quietinha at sentir-se mais calma.
      - No me importa o que ela acha, disse bem alto. Vou vestir o que eu quero. O que  que ela sabe sobre a turma?
      Colocou novamente a camiseta, escovou o cabelo e desceu a escada.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      A Festa 
      6
       mesa do jantar Cris revirava, em silncio, seu quiche de camaro. Marta retomou o controle da situao. 
      - Estou ansiosa para conhecer sua nova amiga Alissa. Estou gostando de ver como voc tem feito amizades depressa. At recebeu um convite para uma festa!  
absolutamente ma-ra-vi-lho-so!
      Agora Cris nem sentia mais vontade de ir  festa. Mas comeou a animar-se novamente quando Bob contou, num jeito muito engraado, como seu carro de golfe quebrara 
no dcimo quinto buraco aquela tarde. Quando Alissa tocou a campainha, Cris  estava contente de novo e disposta a se divertir.
      Marta gostou imediatamente de Alissa. "O pice da perfeio", diria ela mais tarde; e um timo exemplo para Cristina.
      Mas o entusiasmo da garota murchou quando abriu a porta, Alissa estava usando um vestido. Um vestido branco incrvel que destacava seu bronzeado. O ar da sala 
encheu-se do seu perfume de gardnia enquanto ela, educadamente, conversava com Bob e Marta,
      Cris analisou-a detidamente. Sua maquiagem estava perfeita, o cabelo muito bem arrumado, tudo nela era perfeito! Cris a detestava e, ao mesmo tempo, daria 
tudo para ser igualzinha a ela.
      Quando estavam a caminho da casa do Sam, Alissa disse: 
      - Eu quase no vinha mais. O Sam  um boboca! To imaturo!
      - Pensei que vocs j estivessem ficando apaixonados. 
      - Voc pensou isso? disse Alissa, parecendo surpresa. Ele  um bebezo. Tenho coisas melhores pra fazer do que criar menininhos.
      Quando chegaram, Alissa desfilou pela sala com movimentos de bailarina. Primeiro girando para cumprimentar uma pessoa, depois levantando graciosamente o brao 
para acenar a outra.
      Cris observava impressionada, e aquela msica barulhenta fazia seu corao bater mais forte. Nem Sam nem Ted estavam por perto. Era um mar de espectadores 
desconhecidos observando o desempenho de Alissa, que cumpriu seu papel bem ensaiado ate ir sentar-se no sof, onde estava o cara mais maravilhoso da festa.
      Cris calculou que ele tivesse vinte e um ou vinte e dois anos. De cabelo e bigode escuros e espessos, lembrava aquele cara do antigo seriado TV, "Magnum". 
Ele estava at usando uma camisa com estampa havaiana.
      Obviamente Alissa decidira que ele seria sua conquista da noite. E ele deve ter percebido suas intenes porque, em poucos minutos, deixou a moa com quem 
viera, passou o brao em volta de Alissa, e os dois saram juntos pela porta da frente.
      Agora Cris estava sozinha, intimidada, assustada e dolorosamente consciente de que era a nica de jeans. Todas as outras garotas estavam com vestidos de festa. 
Ela se sentia como uma menininha de trs anos, tremendo num canto com sua camiseta de ursinho. Como poderia admitir que a tia estava certa sobre o que ela deveria 
vestir?
      Sentiu uma enorme vontade de sair correndo porta afora, mas no poderia ir para casa agora. No queria admitir para a tia que fracassara.
      As pessoas  sua volta davam-lhe as costas, conversando, segurando latas de cerveja, algumas fumando. Ningum olhava para ela. Talvez se sentisse melhor se 
estivesse com uma bebida como todo mundo.
      Enchendo-se de coragem, saiu do seu cantinho e procurou a cozinha.
      - Com licena, disse ela a um dos surfistas em p, perto geladeira.  aqui que a gente pega alguma coisa pra beber?
      Ele no respondeu. Simplesmente apontou para uns tambores de gelo que estavam no meio da cozinha e tomou mais um gole de cerveja. Cris enfiou a mo no gelo 
para procurar um refrigerante. S tinha cerveja. No outro tambor era a mesma coisa.
      No queria beber aquilo. S havia experimentado cerveja uma vez, quando tinha dez anos, e achou o gosto horrvel. "Como algum pode gostar disso?"
      Outro surfista entrou na cozinha e gritou pra ela:
      - Ei, manda duas geladinhas.
      Cris assustou-se. Era a primeira pessoa que falava com ela desde que chegara  festa.
      Atendeu prontamente e, entregando-lhe as latas, perguntou:
      - Voc sabe onde est o Sam?
      Ele pareceu no escutar por causa da msica. Ela perguntou de novo, mais alto:
      - Sabe onde est o Sam?
      O surfista olhou para ela como se estivesse tentando lembrar de onde a vira antes.
      - L em cima, respondeu. Da ele conseguiu lembrar:
      - Ei, a Alissa veio?
      - Veio, mas j saiu com outra pessoa. Cris tinha de gritar porque a msica estava ensurdecedora Da perguntou:
      - Onde l em cima?
      - Ah?
      - L em cima onde? Ela estava gritando no ouvido dele.
      - Ah?
      Ele parecia confuso e, de repente, a msica parou.
      - Eu s queria perguntar ao Sam onde tem Coca. 
      O silncio foi total. Um dos rapazes disse:
      - Qual , gatinha?! Hoje  dia de festa! A menina ao lado dele riu.
      Por que todo mundo est me olhando assim? Seu corao batia Ser que esto me achando infantil por ter pedido Coca em vez de cerveja?
      Tentando manter a pouca compostura que ainda tinha, subiu a escada. Bateu na primeira porta fechada que encontrou, e algum gritou l de dentro:
      - V embora!
      Bateu ento numa segunda porta, e Sam apareceu.
      - Oi, disse Cris, sentindo-se uma completa idiota. 
      Sam olhou em volta e atrs dela.
      - Cad a a Alissa?
      - Saiu com um cara.
      Sua voz refletia a irritao por ter sido deixada sozinha. Sam tambm estava irritado e soltou uma srie de palavres que a deixaram totalmente chocada. Como 
eles podiam parecer um par de pombinhos num dia e desprezar um ao outro no dia seguinte?
      - Eu no queria incomodar voc, Sam. S queria saber se tem Coca ai?
      Ele a olhou assustado, da mesma maneira que aquele rapaz a olhara na cozinha.
      - Claro! Entre aqui!
      Sam conduziu-a para o que certamente era o quarto de seus pais. Cinco ou seis pessoas estavam sentadas na cama e no cho. Todos olhavam para um cara ao lado 
da mesinha de cabeceira, que enrolava alguma coisa entre os dedos.
      Ningum conversava com ela, embora no a ignorassem totalmente. Era como se tivesse entrado numa turminha particular e, alguma razo, eles a haviam aceitado. 
      Sam deu ao rapaz uma caixa de fsforos, depois aproximou-se de Cris e disse baixinho:
      - No tem coca, t legal? Mas esse aqui  de primeira. "Ouro de Kona". Ce sabe, muito melhor do que o que a gente consegue por aqui.
      De repente Cris entendeu e exclamou: 
      - Quer dizer que isso  maconha?
      Novamente todos olharam para ela como os outros na cozinha haviam olhado. Agora ela estava entendendo por qu. De vem ter pensado que ela estivesse pedindo 
cocana, no Coca-Cola! Como ela pde ser to boba?
      Sam parecia ofendido.
      - , como eu falei, a coca no pintou. Toma aqui! disse ele empurrando o baseado na frente do rosto de Cris. Quer a primeira tragada?
      Todo mundo estava esperando. O suor fazia arder seu rosto queimado pelo sol. Depois de toda a confuso que causara, como poderia simplesmente dizer: "No, 
obrigada, tenho de ir embora"?
      Desesperada, ela engasgou:
      - Tudo bem, Sam, v voc primeiro.
      - T legal, respondeu. Ele deu uma tragada, puxando a fumaa densa, de cheiro adocicado, para dentro dos pulmes e prendendo a respirao antes de solt-la.
      S aquele cheiro j estava deixando Cris com a cabea leve. O que deveria fazer quando ele oferecesse de novo o baseado?
      A porta ficava do outro lado do quarto. No dava para sair discretamente. O que Alissa faria? O quarto parecia rodopiar sua volta. A msica que vinha do andar 
de baixo provocava uma vibrao que ela sentia desde a sola dos ps at a cabea. Sam entregou-lhe o cigarro sem dizer nada. Ela tomou-o com mos trmulas entre 
o dedo e o indicador como o vira fazer. Fechou os olhos e levou-o  boca. A fumaa espessa enchia s narinas. Ela abriu os lbio, mas, de repente, parou.
      - No posso! Simplesmente no posso!
      - Parece at que  a primeira vez dela! disse uma das meninas, sentada  beira da cama. Que crianona!
      - Vamo l, passe pra ns! pediu um dos rapazes. Cris entregou-lhe o cigarro, sentindo o ardor das lgrimas nos olhos. De repente ouviu uma voz do outro lado 
do quarto.
      - Ei, legal! exclamou Ted. Ela  uma grande garota.  capaz de tomar suas prprias decises. Todo mundo olhou para ela.
      - Bem, disse ela, engolindo em seco. Eu... ha... aprecio vi ter me convidado, Sam, e... ha... foi muito bom, mas... a-a-acho que vou indo agora.
      - Como voc quiser, murmurou Sam, enquanto ela saa correndo do quarto e descia apressadamente a escada.
      Desesperada, ia empurrando as pessoas para abrir caminho entre amultido que bebia, ria e sacudia a cabea ao som da musica. Passando pela porta da frente, 
deixou as lgrimas escorrerem.
      Sou mesmo uma crianona! pensou, com vontade de gritar. 
      De repente, algum tocou em seu ombro. Cris virou-se bruscamente, pronta para dar um murro em quem fosse.
      Era o Ted.
      - Voc vai para casa agora? perguntou com ternura. 
      Ela desviou o olhar e tentou no chorar mais.
      - Acho que sim.
      - Vou com voc.
      Era mais uma de suas declaraes. No uma pergunta ou um convite, mas simplesmente um fato.
      - Vamos por aqui, acrescentou, caminhando em direo a praia. Cris passou o dedo por baixo de cada olho, para limpar alguma mancha de rmel e lpis. Seguiu-o 
de boa vontade, mas incerta quanto ao que poderia acontecer em seguida. Sentia-se insegura demais para fazer qualquer outra coisa.
      
      
      
      
      
      
      
      
      Tempo de Chorar 
      7
      Atravessaram a areia macia e fresca em silncio. O sol acabara de se pr, deixando tonalidades laranja e rosa no cu. Cris respirou fundo, sentindo o cheiro 
do mar. Queria apagar da lembrana a hora passada naquele lugar.
      Ted fitava o mar. Por que ele tinha vindo com ela? Ela havia sido to tola na festa... ser que ficar sozinha com Ted seria outro passo errado? Ela no sabia 
mais em quem podia confiar. Ted interrompeu os pensamentos confusos da garota.
      - Quer sentar um pouco no quebra-mar?
      - Eu... eu no sei. Acho que sim.
      Ela sentia-se culpada por no confiar nele.
      Ficaram em silncio muito tempo. As ondas quebravam logo abaixo de seus ps, espirrando gotculas de gua na cala jeans de Cris. O ar estava morno, mas aquela 
umidade provocava um friozinho que a fazia tremer. Ela puxou as pernas para cima, sentando-se com as pernas cruzadas sobre a pedra tosca. A noite estava tranqila, 
e a atmosfera toda tinha um efeito calmante.
      - Ento, comeou Ted. Era como se ele tivesse deixado, de propsito, um tempo para a garota aclarar as idias, e agora quisesse bater um papo.
      - No era o tipo de festa a que voc est acostumada, hein?
      - No, admitiu Cris. A propsito, fiquei aliviada por voc ter vindo me socorrer.
      - Voc no precisava de mim. Estava se virando muito bem sozinha; tomou sua deciso sem que eu tivesse que dizer nada.
      Cris notou pela primeira vez o quanto o rosto do Ted transmitia serenidade. Ele tinha personalidade forte e sempre se expressava de maneira bem direta. Entretanto, 
ao olhar para ele naquele momento, Cris viu algo terno em seus olhos. O que comeara como uma leve "paixonite" estava-se tornando algo que nunca sentira antes por 
um rapaz. Estava gostando do Ted pra valer.
      - Posso lhe dizer uma coisa? perguntou. Na verdade eu nunca fumei nenhum tipo de cigarro. Nunca tinha visto nem sentido o cheiro de maconha! Me deu nojo, pra 
ser sincera.
      -  por isso que voc recusou o baseado? perguntou Ted.
      - No, disse ela, hesitando um pouco. Eu ia experimentar porque achava que era o que a Alissa faria, e estava-me sentindo uma idiota parada l daquele jeito. 
Foi por causa de uma coisa que prometi aos meus pais.
      - Que coisa?
      - Antes de eu vir passar as frias aqui, eles me fizeram prometer que no faria nada de que pudesse me arrepender depois.
      - Parece sbio. Voc est contente agora por no ter fumado?
      Cris pensou por um momento.
      - Sim, acho que sim. Tudo estava acontecendo to depressa que no tive muito tempo para pensar se queria ou no. Estava com um pouco de medo e tambm curiosa, 
mas pensei que depois me arrependeria se experimentasse, e disse no.
      Seguiram-se mais uns minutos de silncio, mas logo aps Cris indagou:
      - Voc gosta?
      - Gosta do qu?
      - De maconha. Voc fuma muito?
      Sua ousadia surpreendeu at a ela mesma, mas Ted no era o tipo de cara com quem se pode fazer brincadeiras tolas.
      - No. Antigamente eu fumava. Mas no fao mais isso.
      - Por qu?
      Ted olhou-a direto nos olhos.
      - Porque sou cristo.
      Cris ficou surpresa. Nunca esperava uma declarao daquelas de um surfista de Newport.
      - E o que Cristo tem a ver com isso?
      - Tudo.
      - Bom, tambm sou crist, declarou Cris, tentando recobrar-se do susto. Toda minha famlia . Fui batizada quando era bebe.
      - Eu fui batizado bem ali, disse Ted, apontando para o mar No vero passado. Vinte e sete de julho.
      - No brinca! disse Cris, descruzando as pernas e endireitando o corpo.  o dia do meu aniversrio!
      Ted parecia querer dizer-lhe alguma coisa, mas foram interrompidos por um barulhento grupo de pessoas que caminhava em sua direo.
      Era o pessoal que estava na festa. Sam vinha na frente, gritando e fazendo muito barulho, imitado pelo resto da turma.
      Pararam na praia a poucos metros de onde estavam Ted Cris. Sam gritou alguma coisa sobre surfar no quebra-mar de olhos fechados.
      - Que  que ele est fazendo? perguntou Cris.
      - Ele est pirado. J o vi assim antes. Fica "chapado". Parece que vai tentar surfar, o que nessas alturas  uma loucura. Espere aqui um minutinho. Volto 
j.
      No dava para Cris ouvir o que Ted dizia para Sam, mas ela viu-o puxar o brao do amigo. Ento ouviu Sam berrar uma srie de palavres para Ted, terminando 
com:
      - Eu no preciso de voc! Me larga! 
      Sam mergulhou enquanto alguns da turma debochavam de Ted, que saiu caminhando pela areia em direo a Cris.
      - A Hanson ainda est aberta. Quer ir l? disse ele com voz tensa.
      - Ir onde?
      Cris no se lembrava onde ouvira aquele nome antes.
      - Tomar sorvete.
      - Claro, mas, e o Sam?
      - Eu tentei, n? Ele  responsvel por seus prprios atos. A maneira como Ted estava falando demonstrava ira e frustrao, assustando-a um pouco.
      Tentou anim-lo enquanto andavam at a sorveteria.
      - Meu tio jogou golfe hoje, e aconteceu uma coisa to engraada... o carrinho dele estragou e ele foi a p at a sede do clube; s quando chegou l  que lembrou 
que tinha deixado todos os tacos no carrinho, perto do dcimo quinto buraco!
      Ted no disse nada. Obviamente o caso era muito mais engraado contado pelo tio Bob. O rapaz permaneceu srio at entrarem na sorveteria Hanson. De repente 
ele se animou, e Cris sentiu um aperto no corao ao perceber por qu. Trcia trabalhava ali. Ela estava equilibrando um banana split numa mo e milk shake, na outra.
      - Trcia! Como vo as coisas? Ted mostrou-se mais alegre e encaminhou-se para uma das mesas.
      - Oi, gente! J vou a; um minutinho s. Ela fizera um rabo-de-cavalo no cabelo, amarrado com uma fita rosa-choque que combinava com o babado do avental do 
uniforme. Depois de entregar dois sundaes de chocolate na mesa ao lado da deles, ela limpou as mos no avental e exclamou:
      - Hoje est to movimentado aqui! Se vocs tivessem vindo a uma hora, no teriam encontrado lugar pra sentar!
      - O que voc quer tomar, Cris? perguntou Ted, voltando a mostrar-se tranqilo.
      Cris resolveu provocar Trcia um pouquinho.
      - No sei, Ted. Eu no trouxe dinheiro.
      - No se preocupe. Eu trouxe, desde que voc no pea a "extravagncia do Hanson".
       - Por favor! gemeu Trcia. Fazer duas daquelas numa s noite  demais pra mim; e j ultrapassei minha cota hoje!
       - Ento vou querer um sundae de flocos, sem nozes e com calda de chocolate quente, disse Cris.
      - E eu quero o de sempre, disse Ted, sorrindo para Trcia. 
      Cris ainda tinha cimes da intimidade dos dois. Contudo sentia-se contentssima por estar vivendo seu primeiro encontro com um rapaz.
      Cerca de quatro meses atrs, ela e Paula haviam feito uma aposta para ver qual das duas seria a primeira a ter um encontro de verdade com um garoto. As regras 
eram que ele tinha de convidar, pagar a conta e lev-la em casa. At ali, tudo bem. Parecia que a Paula  que teria de arranjar os cinco dlares.
      O "de sempre" do Ted era um milk-shake de manga com um pedao grande de abacaxi. Trcia, com mos experientes, colocou o sorvete sobre a mesa e perguntou:
      - Voc no ia  festa do Sam, Cris?
      - Eu fui, mas no estava pintando muita coisa l, ento ns viemos embora.
      Por que fui falar isso? E se o Ted disser a ela que na verdade sa de l correndo e aos prantos? pensou Cris.
      - Essa no  exatamente toda a histria, disse Ted.
       Cris se sentia uma boboca.
      - Fico furioso da vida, Trcia. Quando samos, Sam estava totalmente drogado. Tentei evitar que entrasse na gua, mas ele me xingou como se eu no valesse 
nada. Ted parou e deu uma mordida no abacaxi.
      - Quase bati nele, Trcia, continuou Ted. Quase quebrei a cara dele! Mas sei que isso no ia resolver o problema.
      Cris sentiu-se excluda da conversa, ao ver que Trcia dava conselhos ao Ted.
      - Sei que  difcil, Ted, mas voc no pode passar o resto da vida tomando conta do Sam.  ele que est errado. No  problema seu. Simplesmente entregue tudo 
ao Senhor.
      Cris observou naquela conversa o mesmo clima de intimidade que havia notado entre os dois no dia anterior, na praia. Parecia mais uma discusso entre irmos.
      - Mas ele  meu melhor amigo! No posso fingir que no me importo! Voc nunca entendeu isso, Trcia. Sou leal aos meus amigos, mesmo quando eles so uns crpulas!
      Trcia pediu licena.
      - Tenho de atender mais umas pessoas.
      - E ento, disse Cris, tentando entrar no assunto. Voc e Sam so bons amigos?
      - . Ns nos conhecemos desde que eu me entendo por gente, e andamos sempre juntos. Sempre mesmo. Mas no ano passado, quando me tornei cristo, ns nos afastamos. 
No me interessei mais pelas coisas que ele fazia, a no ser pelo surfe.
      Cris no entendia por que "tornar-se cristo" mudava a situao entre amigos.
      Ted ficou um pouco retrado enquanto acompanhava Cris at sua casa. Ela lutava contra o pensamento desalentador de que talvez ele no gostasse dela do jeito 
que ela gostava dele. Mas,  porta, ficou mais animada.
      - Quero o nmero do seu telefone, disse Ted, com seu jeito franco.
      794... principiou mas parou, lembrando que esse era o nmero de sua casa. No sabia o nmero do telefone dos tios de cor.
      - Espere um instante, disse, deixando Ted  porta e correndo para copiar o nmero na cozinha.
      Quando voltou, uma sirene de ambulncia soava a algumas quadras. Estava to alta que quase no conseguiu escutar o que Ted disse ao despedir-se.
      Ser que ele disse: "Te vejo amanh", ou, "te ligo amanh" ?
      De qualquer forma, a animao no diminuiu, mesmo quando encontrou a tia na sala.
      - Ol, querida! Estou morrendo de vontade de saber como foi a festa. Voc e Alissa se divertiram? O que vocs comeram? Brincaram muito como voc pensava? 
      Cris riu at no poder mais.
      - No entendi, disse Marta. Por que est rindo tanto assim? 
      A garota esticou-se no carpete fofo e balanou a cabea.
      - Digamos que no era o tipo de festa que eu esperava. Mas acabei me divertindo assim mesmo, e Ted me trouxe em casa. Talvez ele ligue pra mim amanh, ento 
 melhor dizer ao tio Bob para no pegar no p dele.
      - O que voc quer dizer com isso, Cris? perguntou Marta, ipiscando os olhos. Seu tio jamais far algo que possa envergonha-la!
      - Ah, claro que no!
      A garota subiu para o quarto morrendo de rir. Que noite! Que semana! Parecia que havia amadurecido e mudado mais nos ltimos dias do que nos ltimos trs anos.
      Ainda estava super animada quando acordou na manh seguinte. Enquanto limpava o rosto e se maquiava, pensava em Ted. Ser que deveria descer  praia ou ficar 
em casa esperando seu telefonema? Enrolou o cabelo com um cuidado todo especial e estava quase pronta quando o tio bateu  porta.
      - Cris, telefone. Algum de nome Fred, ou Ned, ou Ed, ou algo parecido.
      - baaaa! gritou. J vou!
      Deu uma ltima olhada no espelho, e desceu a escada de dois em dois degraus, e pegou a extenso na sala de leitura.
      - J peguei, tio Bob! disse, e em seguida ouviu o clique do aparelho sendo desligado.
      - Ol!
      Ela queria parecer meio distante, interessada e charmosa, tudo numa palavra s. Ted parecia ser o tipo do cara que costuma fazer essa espcie de joguinho; 
mas por que ela no podia?
      - Cris,  o Ted. Estou no hospital. Voc acha que sua tia ou seu tio poderiam traz-la?  no Hospital Memorial Hoag. A moa ficou to assustada que quase deixou 
o fone cair.
      - Ted! O qu? Como? O que foi que aconteceu? Voc est bem?,
      - O Problema no  comigo.  com o Sam. Ele foi atirado contra o quebra-mar ontem. Quebrou muitos ossos, perdeu muito sangue e ainda est inconsciente.
      - Quando voc ficou sabendo?
      - Ontem, quando deixei voc em casa. Vi uma ambulncia na praia e tive um pressentimento de que poderia ser o Sam, ento fui seguindo-a at o hospital. Passei 
a noite toda aqui. Os pais dele esto viajando. Acho que vou voltar para a casa dele pra procurar os telefones de parentes ou algum que saiba onde eles esto, concluiu 
com voz cansada.
      - Bem, o que eu posso fazer?
      Cris estava abalada e se sentia incapaz de ajudar, mas faria qualquer coisa pelo Ted.
      - Pensei que talvez voc pudesse ficar aqui com ele. Se ele acordar, talvez saiba dizer onde os pais foram. Eu no queria incomodar voc, mas no consigo falar 
com mais ningum.
      - Claro, Ted, respondeu Cris estupefata. J estou indo a.
      Bob dirigia e Marta falava sem parar. Ted encontrou-os no saguo e disse o nmero do quarto no hospital e do telefone da casa do Sam. Estava plido e a expresso 
angustiada no combinava com o rosto forte e terno que Cris conhecia. Teve vontade abra-lo e chorar em seu ombro.
      Ted foi embora e os trs pegaram o elevador para o andar em que Sam se encontrava. Tantas coisas aconteceram ao mesmo tempo que no dava nem para saber o que 
havia realmente acontecido.
      Sam parou de respirar e foi levado imediatamente para a sala de cirurgia. Havia algum problema por ele ser menor de idade e seus pais no estarem presentes 
para assinar os papis permitindo cirurgia. Bob conversava com o mdico em voz baixa, enquanto Marta e Cris aguardavam no corredor.
      Um policial surgiu de repente e uma enfermeira conduziu-o a Cris.
      - Com licena, senhorita, disse ele, olhando bem para ela. O homem tinha quase dois metros de altura, e s sua presena j amedrontava.
      - Sou o oficial Martin. Posso fazer-lhe algumas perguntas?
      - Sim, senhor.
      Voc estava com Sam Russell ontem  noite na hora do acidente?
      - Sim. Isto , no. Quer dizer, mais ou menos, balbuciou Cris.
      - Sei, disse o oficial, levantando a sobrancelha. Talvez devssemos sentar pra que voc me diga tudo que sabe.
      Marta foi a primeira a sentar-se, mexendo nervosamente com as unhas.
      - Conte tudo, querida, disse a tia, com a voz ainda mais alta e estridente que de costume.
      - Bem, teve uma festa na casa dele ontem  noite, e eu cheguei l pelas oito, comeou Cris.
       - Rolava droga na festa? 
      Marta engasgou.
      - Cus, no!
      O oficial parecia irritado.
      - Talvez a senhora devesse deixar a jovem responder. 
      Marta encolheu-se no sof. 
      O corao de Cris martelava. 
      - Sim, senhor.
      - Havia drogas? repetiu ele.
      - Sim, senhor.
      Com o canto do olho, ela observava a tia empalidecida.
      - Subi a escada, disse Cris, com voz tremula, porque um dos caras me disse para subir. Eu estava procurando alguma coisa para beber que no fosse cerveja, 
e perguntei se tinha Coca em algum lugar. Me mandaram pra cima, pra perguntar ao Sam. Sam Russell. Era na casa dele. A festa, quero dizer.
      Cris tremia tanto que no conseguia nem raciocinar direito.
      - Continue, disse o policial.
      - Bem, subi para o quarto e, quando entrei, tinha umas pessoas que estavam... bem, no comeo eu nem sabia o que estavam fazendo. Mas a conclu que devia ser 
maconha.
      - Oh, no!
      Marta parecia que ia desmaiar.
      - Senhorita Miller, disse o policial, inclinando-se e olhando firmemente para Cris. Voc participou no uso de drogas ilegais ontem  noite?
      - No!
      A palavra lhe saltou da garganta como um gato acuado, Depois, contendo-se um pouco, ela respondeu mais calmamente:
      - No, senhor. Eu no usei.
      Nunca se sentira to bem, to certa de que tinha tomado deciso correta.
      Marta suspirou aliviada.
      - Sabe o nome de alguma outra pessoa que estava na festa? perguntou o oficial.
      - S o Ted. Acho que o sobrenome dele  Spencer, mas no tenho certeza.  ele que est tentando localizar os pais do Sam.
      - E voc no conhecia mesmo as outras pessoas no quarto ontem  noite? Insistiu ele, no parecendo convencido.
      - No, senhor.
      - Est bem. Continue.
      Cris deu mais alguns detalhes. De repente o policial interrompeu-a e perguntou:
      - Quer dizer que o Ted foi embora com voc depois que Sam entrou no mar?
      Ela acenou que sim.
      - Esse Ted tentou impedir Sam de entrar na gua?
      - Sim, senhor. Mas no adiantou. Ele disse que o Sam estava "chapado" demais e no sabia o que estava fazendo. Cris notou que o tio vinha caminhando pelo corredor 
em sua direo, com o rosto plido como cera. Aproximou-se dela, segurou seu queixo com cuidado e, com os olhos marejados de lagrimas, disse:
      - Sinto muito, querida. Os mdicos no puderam fazer nada. 
      - Ai, meu Deus do cu! exclamou Marta. 
      - O paciente expirou? perguntou o oficial sem emoo. 
      Bob acenou, confirmando.
      - Bom, obrigado por sua ajuda, senhorita. Com licena, disse o policial. 
      Bob sentou-se e abraou Cris. Ela comeou a tremer incontrolavelmente e chorou com a cabea em seu ombro, deixando marcas de rmel em sua camisa de golfe azul-clara.
      - Ted ainda no sabe! disse ela chorando. Temos de ligar pra ele. Cad o nmero?
      Marta se recomps e voltou ao controle da situao.
      - Deixe que seu tio faa a ligao Cristina. Fique aqui e procure acalmar-se.
      A cabea de Cris estava a mil enquanto olhava para o tio Bob na cabine telefnica, a alguns metros. Como o Sam podia estar morto? Ela s o conhecera poucos 
dias atrs, e agora se fora. No podia ser verdade! As lgrimas lhe escorriam pelo rosto. 
      Bob voltou e disse mansamente:
      - Acho que  melhor a gente ir embora.
      - E o Ted? 
      Cris chorava incontrolavelmente.
      - Consegui falar com ele, disse Bob. Ele localizou os pais do Sam em Carmel. Eles estaro voltando no prximo vo, e Ted vai busca-los no aeroporto. 
      Falando em voz mais baixa, Bob acrescentou:
      - Eles ainda no sabem.
      A volta para casa foi incomoda. Tirando o fungar de Cris e os suspiros ocasionais de tia Marta, tudo estava quieto. Quando chegaram na rampa de entrada da 
garagem, Marta quebrou  o silncio.
      - Na verdade, Cristina, eu no tinha idia de que era esse tipo de amigos que lhe faziam companhia! Ora, se eu tivesse pensado por um momento que voc iria 
a uma festa com drogas ontem eu...
      Bob interrompeu-a com uma fora que Cris jamais vira.
      - Cala a boca, Marta! No v que foi voc que a empurro para tudo isso?
      - Eu?! Como eu poderia empurrar a menina? Marta bufava, pronta para se defender.
      Bob insistiu:
      - Sim, voc! E voc  teimosa demais; no vai admitir! Com isso bateu a porta do carro e entrou em casa furioso.
      - Que audcia! disse Marta, indignada.
      Cris no sabia o que fazer. Nunca os vira brigando assim.
      Do mesmo modo como uma onda espumante se retira, a ira de Marta desapareceu, e ela recobrou a postura reservada de sempre.
      - Cris, meu bem. No fique sentida com seu tio. Tenho certeza de que ele no quis mago-la. Sabe o que mais? Vamos ns duas comer uma salada na Ilha Balboa? 
H um lugarzinho maravilhoso que h muito quero que voc conhea.
      Cris sentia-se como se o mundo inteiro estivesse girando e rodopiando  sua volta. Como tia Marta podia falar em comer numa hora daquelas? A garota fitou os 
olhos na tia. "Que mulher fria, insensvel! Ser que ela acha que fingindo no ver a realidade, far as coisas ruins desaparecerem?"
      - Vamos? Insistiu Marta, procurando a chave do carro. Cris procurou responder com toda a educao possvel, mesmo com o esprito to conturbado.
      - Sinceramente, tia Marta, no estou com vontade de comer. Prefiro me deitar um pouco, se no se importa.
      O final veio intencionalmente sarcstico e, com um gesto de desagrado, Marta disse:
      - Est bem. Ento vou sozinha.
      Cris saiu do carro e abriu a porta da frente com um gesto melanclico, enquanto o conversvel prateado descia a rampa da garagem e corria pela rua. Uma dor 
lacerante parecia esmagar sua cabea. Refugiou-se ento no quarto, onde passou o resto do dia de porta fechada. Por muito tempo ficou deitada na cama, fitando o 
nada a sua frente. Como um disco arranhado que voltava sempre para a mesma linha, a morte de Sam no saa de sua cabea.
      Os questionamentos eram tantos! Por que Sam? Ele tinha s dezesseis anos.  verdade que de estava fumando maconha, mas sua morte foi um acidente. Deus no 
podia ter evitado que aquilo acontecesse? Todos ns cometemos erros. E onde Sam estava agora? Ser que estava no cu ou ... Ser que o inferno existe? As pessoas 
vo para o inferno quando morrem? Como  que ele foi morrer daquele jeito?
      No parecia verdade. Nada parecia verdade.
      Talvez se escrevesse tudo, colocasse no papel todos os acontecimentos dos ltimos dias, conseguisse entender o que acontecera, ou pelo menos fazer com que 
aquilo parasse de girar em sua cabea. Escreveu tudo numa carta para Paula. Levou horas, e ficou com cibra na mo, de tanto segurar a caneta. 
      - Cris, chamou Bob baixinho, do lado de fora da porta. 
      A garota levantou a cabea.
      - Quer que eu prepare alguma coisa pra voc? perguntou ele.
      - No, obrigada.
      - Quer beber algo? Est com fome?
      - Obrigada, tio. S quero ficar sozinha, se no se importa.
      - Claro. No vou incomod-la mais. Mas se precisar de alguma coisa, me chame, viu? Qualquer coisa, t bem?
      - Est bem. Obrigada.
      Ela continuou a escrever. Foi a carta mais longa que escreveu: vinte e quatro pginas. Contudo, ao reler, no encontrou as respostas que procurava.
      O sol comeava a se pr quando ela olhou pela janela. O mundo continuava seu curso l fora, As ondas continuavam a vir e voltar. As gaivotas sobrevoavam as 
latas de lixo. As pessoas continuavam a fazer sua corrida de fim de tarde, no horrio de sempre. Nada havia parado. A vida continuava para todos os Outros. No parecia 
justo.
      Finalmente foi vencida pelo cansao. Entrou no banheiro, encharcou um pano felpudo com gua morna e fez uma compressa no rosto, respirando o vapor. Tudo parecia 
amargo como fel. At o pano parecia spero contra sua pele.
      Mal conhecia Sam, no entanto estava dominada pela emoo. Como seria, pensou, se isso tivesse acontecido com um amigo mais intimo?
      Trpega, caminhou at a cama, puxou o acolchoado sobre os ombros e caiu num sono profundo.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Perguntas e Respostas 
      8
      
      Os dias que se seguiram foram como uma nvoa sobre o mar. Era como se Cris soubesse que as coisas estavam acontecendo, mas no conseguisse distinguir os fatos 
com clareza. Tudo parecia meio fora de foco em sua mente. 
      Bob e Marta haviam se reconciliado aps aquela briga e ambos vieram pedir-lhe desculpas. Marta ria como se tivesse sido algo sem consequncia, enquanto as 
palavras de Bob foram carregadas de sincera preocupao com os sentimentos da sobrinha.
      Marta sugeriu que fossem juntos passar alguns dias em San Francisco. Queria ir no dia seguinte e j havia feito as reservas de avio. Entretanto, com a ajuda 
do tio, Cris conseguiu persuadi-la a adiar o vo, para que pudesse assistir ao funeral do Sam.
      No dia do enterro, ela ficou um tempo na frente do guarda-roupa, tentando resolver o que vestir. S tinha ido a dois velrios em sua vida, e eram de gente 
mais velha, e h muito tempo. No se lembrava do que havia vestido. No tinha nenhuma roupa preta. Alm do mais, ser que as pessoas ainda usavam preto em enterros?
      Finalmente resolveu pr a saia e a blusa velhas que usara no dia em que sara para fazer compras com sua tia. Talvez esse conjunto no estivesse to na moda, 
mas era algo conhecido, e sentia-se mais segura com ele do que com as roupas novas.
      Encontrou o tio na cozinha, e descobriu que tia Marta havia-lhe preparado a bebida protica, e j estava ocupada arrumando as malas para a viagem. S Bob a 
acompanharia ao funeral.
      Nenhum dos dois falou muito no carro. Quando Bob estacionou em frente  casa funerria branca, em estilo colonial, Cris teve uma vontade enorme de pedir a 
ele que virasse o carro e voltasse para casa. Entretanto mudou de idia ao ver Ted e Trcia ali na escadaria da frente.
      No vira o Ted desde aquela manh, no hospital, e ele s havia telefonado uma vez para dizer a hora e o local da cerimnia fnebre. Cris respirou fundo e se 
dirigiu para onde estavam.
      Ao v-la, Ted sorriu.
      - Ainda bem que voc veio, Cris.
      Parecia exausto. Cris queria chorar, mas em vez disso estendeu os braos para Ted. Ficaram abraados por um bom tempo. Depois, sem palavras, se afastaram, 
e Trcia tambm lhe deu um abrao forte, enquanto Bob e Ted se cumprimentavam com um aperto de mos.
      Foram para uma pequena sala abarrotada de arranjos florais. O ar sufocava Cris, fazendo-a engasgar com o perfume forte e doce. A msica de rgo, lenta e montona, 
fazia sua cabea latejar. Ela sentia vontade de vomitar.
      Um padre careca, de batina preta, deu uma mensagem curta A me de Sam encontrava-se na primeira fileira, chorando sem parar. Uma mulherona gorda e ruiva, vestindo 
um tailleur cinzento, cantou um hino arrastado, juntando as mos como se estivesse numa pera e no num enterro.
      O padre voltou para o plpito, anunciando que um dos amigos mais chegados de Sam havia pedido para dizer algumas palavras. Com seu jeito firme e direto, Ted 
foi at a frente. Parecia confiante, mas Cris notou que suas mos tremiam.
      - Sou amigo do Sam h muito tempo, comeou ele, e parou para limpar a garganta. Estive com ele na noite em que morreu. Provavelmente jamais me perdoarei por 
no ter insistido mais com ele para que parasse. 
      Sua voz ficou embargada.
      -  ramos realmente muito unidos. Estvamos sempre juntos at o vero passado, quando me converti a Cristo. Eu queria que o Sam tambm se tornasse cristo. 
No sei se o fez 
      Foi a que Ted se entregou ao choro. Com um soluo profundo, limpou rapidamente os olhos com as mos. Cris piscava para limpar as prprias lgrimas. Olhou 
para Trcia e percebeu que tambm estava chorando muito, sem nem tentar segurar. 
      Bob tocou ternamente o brao de Cris, oferecendo-lhe um leno. Ela olhou para ele agradecida e ficou surpresa ao notar que ele no parecia emocionado. No 
via em seu rosto nem um pouco de sentimento.
      Ted ainda estava tentando controlar-se e parar de soluar. O padre viera  frente e acenou-lhe para que se sentasse. Ted ergueu a mo como se dissesse: "S 
mais um minuto". Respirou fundo e limpou as mos nos lados da cala.
      - Gostaria de ler uma coisa, disse ele com voz rouca. Eu... fez uma pausa, pigarreou e prosseguiu: encontrei um versculo no Evangelho de Joo que tem me ajudado 
muito. Folheou a Bblia com mos trmulas e, ao encontrar o versculo, colocou-a sobre o plpito. Olhou ento para o pblico, com os olhos marejados.
      - No captulo onze, um dos amigos mais chegados de Jesus havia morrido, e fico admirado em ver que Jesus chorou. Aqui diz que ele chorou. Assim, tudo bem, 
a gente pode se entristecer quando algum a quem amamos morre.
      Ted limpou as lgrimas que escorriam e continuou.
      - Mas o que quero ler  o que Jesus disse para a famlia do amigo. Ele disse: " Eu sou a ressurreio e a vida. Quem cr em mim, ainda que morra, viver!"
      Fechando a Bblia, Ted olhou para os pais de Sam. Seus olhos j no estavam to vermelhos, mas Cris ficou impressionada ao ver como ele estava plido: seu 
rosto parecia uma folha de papel.
      - Bem, disse ele, dando uma rpida olhada para o padre que se encontrava de p, atrs dele. O que eu estou querendo dizer  que gostaria de poder voltar no 
tempo uma semana. Queria que Sam estivesse vivo. Queria que ele tivesse crido em Jesus e entregado a vida a Deus.
      Apertando os olhos como se tentasse encontrar as palavras certas, continuou:
      - No sei se estou sendo claro, mas o que quero dizer  que Jesus me transformou de maneira radical. Simplesmente orei pedindo-lhe para perdoar meus pecados 
e tomar conta da minha vida. Eu me entreguei totalmente a Cristo e agora sei que passarei a eternidade com ele no cu. S queria... S queria que Sam... e parou 
engasgado.
      Ted no conseguiu terminar. Pegou a Bblia, desceu e foi para seu lugar. Cobrindo os olhos com as mos, chorou.
      Cris achou que no agentaria nem mais um segundo. O padre voltou ao plpito e, com voz grave e sem emoo, finalizou com uma bno formal.
      O grupo se dispersou. Muitos fungavam, e a maioria olhava para baixo, em vez de olhar para as pessoas. Cris andou depressa at o carro, engolindo o choro. 
Queria ir embora imediatamente. Assistir ao sepultamento, jamais! Bob nem perguntou nada. Dirigiu em silncio at chegar em casa.
      S quando j estava no avio, a caminho de San Francisco olhando o oceano Pacfico pela janela, foi que Cris soltou as emoes reprimidas na cerimnia fnebre. 
Virando o rosto para a janela, deixou as lgrimas jorrar.
      De olhos embaados, tentava distinguir a linha da costa da Califrnia, em miniatura l embaixo. De cima, as ondas pareciam uma linha fina de espuma de sabo. 
Incuas, macias e espumantes. Como essas mesmas ondas podiam ter tirado a vida de Sam?! Ser que  assim que Deus v as coisas? Ser que dessa altura tudo fica insignificante 
e sem valor para ele? Ser que ele se importa com o que as pessoas sentem?
      Ento ela lembrou-se do que Ted falou: "Jesus chorou. Ele si importa."
      - Cris, chamou Marta, interrompendo seus pensamentos com um tapinha no ombro. Tenho de lhe dizer uma coisa. Voc no devia ficar assim to emocionada com esse 
funeral. Seus pais lhe ensinaram que deve ser uma menina boazinha e crist, e voc no deve ficar pensando em coisas tristes e feias como a morte. Cris encarou a 
tia.
      Como  que algum consegue viver de maneira to simplista, tentando fazer o mundo caber dentro de sua bolsinha de festa? Tem de haver mais na vida do que dinheiro, 
roupas, popularidade e todas essas outars coisas que ela vive martelando na minha cabea. 
      Abaixou a poltrona com um puxo e colocou os fones de ouvido, deixando que o ritmo da msica levasse pra longe aqueles pensamentos sombrios.
      *****
      Cris se sentia como um rob, enquanto andavam pelo aeroporto de San Francisco, e depois no txi que os levaria ao hotel St. Francis. A cabea latejava e o 
queixo doa de tanto cerrar os dentes. Deveria estar impressionada com o carpete espesso, o teto todo decorado e os lustres de cristal reluzentes do saguo. Deveria 
estar tentando memorizar cada detalhe para depois poder contar tudo  Paula, mas no estava nem ligando. 
      Ficou de lado, esperando Marta acabar de registr-los. Mexia com a ala da bolsa e tentava no ouvir os rudos ao redor. Havia gente falando em lnguas estrangeiras, 
atendentes e carregadores colocando malas sobre carrinhos de rodas e, do outro lado do saguo, no restaurante anexo, algum tocava piano. 
      Assim que chegaram s sutes, 1133 e 1134, Bob abriu sua mala e tirou um vidro de aspirinas para Cris.
      - Isso deve ajudar, disse ele, saindo em seguida para o apartamento adjacente.
      Cris desembrulhou o copo que estava no banheiro e encheu-o de gua. Tomou duas aspirinas e olhou-se no espelho. Sua aparncia no estava nada boa: olhos vermelhos 
e inchados, os cantos da boca voltados para baixo e o cabelo murcho. Alm disso, no se sentia bem.
      Dando uma volta pelo imenso quarto, tocou as maanetas de vidro e passou a mo sobre o sofazinho cor de salmo. Abriu a cortina e estava olhando para a praa 
Union, quando Bob bateu  porta.
      - Pronta para um passeio turstico? perguntou, entrando com Marta, que j trocara de roupa. O quarto se encheu da fragrncia de seu perfume.
      - Tudo aquilo ali so lojas de departamentos? perguntou Cris, apontando para os prdios altos que molduravam o parque, no meio da praa.
      -  isso a, disse Bob. Por que acha que ns sempre ficam no St. Francis?
      - AMacy's  maravilhosa, acrescentou Marta, apontando  direita. Mas no podemos deixar de passar tambm no I. Magnin, Nordstroms e Saks.
      - Puxa! exclamou Cris, nunca vi tantas lojas grandes num mesmo lugar!
      - Vamos! sugeriu Bob. Vamos pegar um bondinho.
      Mesmo sendo quatro horas da tarde de um dia de vero, todos levaram agasalhos. Depois de uma espera de quarenta minutos, conseguiram abrir caminho entre a 
multido e pegaram o bonde que se dirigia ao Cais do Pescador. Cris ficou em p no estribo, e firmou o brao no balastre. O bonde sacolejava e balanava enquanto 
os cabos subterrneos o conduziam morro acima, rumo  baa azul,  frente. Sem flego, Cris segurava com toda fora. Que passeio!
      E que clima festivo havia no ar! Ser que vinha do bate-papo dos turistas no bonde? Ou daquele vento forte to agradvel. Talvez fosse das casas  beira do 
caminho, que pareciam tirada de um livro de histrias vitorianas, tornando o passeio ainda mais encantador.
      Fosse o que fosse, Marta notou claramente a animao de Cris.
      - Eu no lhe disse, Bob? cochichou, sentada no banco de madeira. A pobrezinha tinha que se afastar daquele estresse todo. No  bom para uma menina de sua 
idade. Pode causar rugas precoces!
      Bob sorriu concordando e virou-se para o condutor, que se encontrava atrs dele, manuseando as manivelas com mos fortes, protegidas por luvas.
      - Manejou muito bem o bonde naquela curva. Faz esse trabalho h muito tempo?
      - Sim, senhor, respondeu ele, um homem alto, de quepe e uniforme elegante. Desde 1985, quando reabriram as linhas Antes disso, ficaram fechadas dois anos para 
reformas, sabia?
      - , lembro-me de ter ouvido sobre isso. Bob parecia realmente interessado.
      - Temos o maior orgulho dessa linha de bonde.  a nica do mundo que se encontra em pleno funcionamento.
      - Que  divertido, ! gritou Cris, quando o condutor tocou o grande sino de bronze. Dim-dim-dim! Cris deu uma risada e imaginou-se num anncio de televiso 
de arroz com macarro, de San Francisco. 
      - Segura bem, mocinha! avisou o homem. Vamos passar por outro bonde.
      Cris se encolheu toda, encostando o estmago nos joelhos de Marta. O bonde passou raspando, e ela sentiu que a ala de uma bolsa de algum que estava dependurado 
no outro bonde, esbarrara nela.
      - Essa passou perto! Exclamou.
       Bob apertou seu brao.  bom ver esse sorriso de volta no seu rosto. O que voc quer fazer? Comer primeiro ou dar umas voltas pelas "armadilhas" para turistas?
      - Vamos andar um pouco, dar uma olhada por a, no , querido?
      Era evidente que Marta j fizera seu itinerrio.
      - Bob, voc pode ir ver o seu barco de pescaria e depois nos encontramos, digamos, s seis e meia no Alioto's para jantar.
      - Tudo bem, concordou Bob. Quando o bonde parou, desceram e partiram em direes opostas.
      - Esses lugarzinhos so meio cafonas, cochichou Marta para a sobrinha, ao entrarem numa pequena loja de suvenires. Mas pensei que talvez voc pudesse encontrar 
uma lembrana para levar para sua casa. Amanh faremos compras de verdade, no Centro comercial. Agora, se voc achar alguma coisa de que gosta, basta falar.
      Cris pegou uma caixinha de msica colorida, com um bonde que subia e descia o morro de cermica, tocando: "l left my heart in San Francisco" (Deixei meu corao 
em San Francisco).
      - Olha que bonitinho! exclamou.
      Marta pediu  balconista que embrulhasse bem e colocasse numa caixa.
      Enquanto a moa fazia o embrulho, Cris cantarolava baixinho aquela cano. Na verdade, pensou ela, deixei meu corao em Newport Beach. Sonhava em estar junto 
ao Ted no bondinho. Como seria bom sentir seu brao em volta de sua cintura enquanto subiam e desciam os morros de San Francisco...
      Marta trouxe-a de volta  realidade, chamando um jinriqux* para irem ao Cais 39. Papagaios de papel colorido voavam alto no cu da noite de vero, enquanto 
uma variedade de atores de rua atraam as multides.
      *Pequeno veculo montado sobre uma bicicleta, utilizado como txi. (N.E.)
      Cris ficou fascinada por um malabarista que atirava faces de aougueiro para o alto, mas Marta insistia  em ir adiante. Entraram numa loja especializada em 
enfeites de Natal, de toda espcie imaginvel.
      Ento Marta teve uma inspirao repentina: resolveu escolher um tema para sua rvore de Natal e comprar todos os enfeites ali. Depois de muita indeciso, escolheu 
carneirinhos em vez de anjinhos e selecionou o suficiente para encher toda uma rvore.
      - Vou ao caixa, Cris, disse Marta, animada com a compra. Encontrou alguma coisa que quer levar?
      - Ainda no sei.
      Cris mexia num enfeite, um ursinho de madeira com o nome "Ted", pintado com letras rebuscadas. Ela nunca havia compra do um presente para um homem antes, a 
no ser seu pai e seu irmo, e queria levar uma lembrana para o novo amigo.
      - E ento, querida? indagou Marta, l do caixa, pegando um carto de crdito para pagar a conta.
      - No, disse Cris, devolvendo o enfeite  prateleira. No acho nada aqui. Talvez na prxima loja.
      A loja seguinte em que entraram era s de moletons. Havia uma coleo incrvel de todas as cores e tamanhos imaginveis, pendurada na parede, em grandes suportes 
de madeira.
      - Este  legal! exclamou, mostrando  tia um bluso preto e branco com os dizeres: "Escaped from Alcatraz" (Fugitivo de Alcatraz). 
      Marta no pareceu gostar muito.
      - Bem, no  muito feminino, querida, mas se  o que voc quer, acho...
      - No, tia; no  pra mim!  pro Ted. Posso comprar pra ele Por favor?
      - Entendi, disse Marta, examinando a blusa. , suponho que no haja problema. Por que voc no escolhe uma para voc tambm? Aquela azul com veleiro branco 
est um amor, no acha?
      Vinte minutos mais tarde elas encontraram Bob e sentaram-se numa mesa, ao lado de uma janela no Alioto's. Enquanto passavam manteiga no pozinho quente, observavam 
a nvoa que vinha lentamente cobrindo a baa. Cris pediu um prato que nunca havia experimentado: caranguejo. Com cuidado, quebrava a casca e puxava a carne branca, 
pelando de quente, e molhava-a em manteiga derretida. Que festa!
      Estava limpando as mos com um guardanapo de pano, quando Bob interrompeu a tagarelice de Marta para filosofar com Cris.
      - H muitas coisas para se provar na vida, Cris.  bom experimentar tudo que quiser, desde que saiba a hora de parar. Est entendendo o que eu quero dizer?
      - Mais ou menos.
      Na verdade, no estava entendendo nada.
      - Bem,  como aquele passeio de bonde, continuou ele. Voc estava-se divertindo dependurada do lado de fora, sentindo a total do vento e o mpeto do bonde. 
Mas da, na hora "H," quando amos passar pelo outro bonde, voc se jogou para dentro e ficou em segurana.
      - O que est querendo dizer, tio? perguntou Cris, colocando na boca o ltimo pedao de caranguejo.
      - Exatamente o que j lhe disse antes. Seja fiel a voc mesma com o que tem vontade de fazer. Seja autntica. Aproveite a vida ao mximo porque  a sua vida. 
 isso a.
      Pela primeira vez Marta permaneceu calada, enquanto Cris replicou:
      - Mas tio Bob, o Sam fazia exatamente o que ele queria. Ele era mais ele, e olhe s o que aconteceu. Est morto. Depois de uma pausa, Bob respondeu:
      - E isso que eu estava dizendo sobre o bonde. Voc tem de saber se jogar para dentro na hora certa, para no se machucar.
      - Sei no. No tenho certeza se quero viver assim  beira do caos. E Deus? Onde ele se enquadra? Ser que ele simplesmente me larga pra me virar sozinha e, 
caso eu no consiga me jogar para dentro a tempo, a ploft, acaba tudo, e ele apenas diz: "Que pena, hein Cris"? concluiu ela recostando-se na poltrona.
      Marta parecia envergonhada de que estivessem discutindo essas coisas num restaurante e tentou fechar a conversa dentro de seu embrulhinho compacto.
      - Claro que no, querida! Deus  amor. Todo mundo sabe disso. Deus ajuda a quem se ajuda. Voc s tem de ser uma pessoa boa, como Bob e eu sempre fomos.
      - Sim; mas tia Marta, voc tem certeza de que isso  tudo Por exemplo, como podemos ter certeza de que iremos para o cu ao morrer?
      Marta armou-se com todas as suas defesas.
      - Simplesmente no acho que esta seja a hora ou o lugar para uma discusso teolgica, Cristina. Voltando-se ento para Bob, disse:
      - Por favor, querido, pague a conta enquanto vou ao toalete Era como se um vento gelado tivesse varrido a sala quando Marta se retirou. Cris sentia a nvoa 
emocional dos dias anteriores tornar a envolv-la. Talvez fosse mesmo jovem, ingnua e inexperiente, mas sabia que no era boboca. Por que no conseguia raciocinar 
e chegar a uma concluso?
      Nunca lutara com tantas indagaes assim antes. As respostas dos tios no satisfaziam, mas estava resolvida a tentar compreender o sentido da vida. E pretendia 
chegar a algumas concluses antes de voltar para o Wisconsin.
      
O Barco ou a Praia? 
      9
      
      - Depressa, tio Bob! O telefone est tocando! 
      Cris estava com as mos cheias de coisas, diante da porta da casa de praia. Bob estava retirando a bagagem do porta-malas do Mercedes e Marta ainda se encontrava 
no carro, verificando o cabelo no espelho.
      - Vamos depressa! gritou Cris. Entretanto quando Bob conseguiu enfiar a chave na porta, o telefone j havia parado de tocar.
      - Eu verifico a secretria eletrnica, disse Cris.
      Bob continuou a descarregar o carro e Cris ficou ouvindo com ateno as mensagens dos ltimos trs dias. Nenhuma das chamadas era do Ted. Paula tambm no 
telefonara. Aparentemente, ningum sentira sua falta enquanto esteve fora.
      Com passos arrastados, subiu para o quarto. Por que ele no ligava? Ser que sabia que ela ia sair da cidade?
      Bob empurrou a porta do quarto com a mala.
      - Desculpe! No sabia que voc j tinha subido.
      - No tem problema. Faz o favor de coloc-la em cima da cama para mini?
      A primeira coisa que tirou da mala foi a sacola com as blusas. Retirou a do Ted e ficou com um dilvio de dvidas: Ser que ele acharia tolice? Ser que deveria 
dar o bluso a ele? Talvez devesse esperar o momento certo, como quando ele viesse v-la ou quando a chamasse para sair, ou...
      - Carteiro! gritou Bob da porta.
      Seu corao saltou de esperana. Quem sabe ele lhe mandara um carto daqueles engraadinhos, terno, sem ser meloso. Pegou os quatro envelopes e olhou depressa 
os remetentes. Uma das cartas era de sua me, uma de Paula, no, duas de Paula e uma do seu irmozinho. Pacincia! Chega de sonhos!
      - No fique empolgada demais, brincou Bob, vendo que ela estava chateada.
      - Ah, no ligue pra mim, tio. Cris enrubesceu, surpresa por seus pensamentos estarem to evidentes. Abriu primeiro uma das cartas de Paula e, ao faz-lo, uma 
nota de cinco dlares caiu do envelope no cho.
      - Dinheiro! exclamou Bob. Puxa! Bem que eu gostaria de receber cartas assim! Que espcie de jogo voc ganhou? Cris passou os olhos pela carta.
      -  da Paula, uma amiga l da minha cidade. Ns fizemos uma aposta e eu ganhei, quero dizer, mais ou menos.
      - Entendi, disse ele, levantando a sobrancelha.
      - Bem, na verdade eu ganhei mesmo, mas no me sinto como achava que me sentiria. Ah! Deixa isso pra l! 
      Naquele momento Marta apareceu  porta.
      - Ah, vocs esto a!
      - Ei, escutem essa! disse Cris lendo em seguida a carta de seu irmo de oito anos.
      Querida Cris,
      Sinto sua falta. Espero que esteja se divertindo na casa do tio Bob e da tia Marta. Espero que se divirta quando for  Disneylndia. No se esquea de comprar 
uma lembrana para mim na Disneylndia. Eu quero um chapu. Divirta-se.
      Com amor,
      David Miller
      - No  uma gracinha? exclamou. Pena que no dia-a-dia ele seja um pestinha. Quando  que vamos  Disneylndia? Seria divertido no meu aniversrio, que  daqui 
a poucas semanas. Ta a indireta!
      Marta olhou para Bob procurando uma resposta. Como ele nao disse nada, ela falou:
      - Eu no sou exatamente o tipo de pessoa que vai  Disneylndia. Esse  mais um programa para o seu tio. Voc pode ir l com ela, no aniversrio, no pode 
querido? 
      Com um sorriso esperto, Bob disse: 
      - Acho que eu no sou bem o cara com quem ela gostaria de ir a Disneylndia, se ela pudesse escolher. 
      - Bob deu uma piscadela, Cris enrubesceu e Marta de repente entendeu.
      - Ah, bem! exclamou.  claro que voc prefere que o Ted a leve. Seria maravilhoso! Bem, no se pode prever o que acontecer entre hoje e 27 de julho! Pensamento 
positivo, Cris! Pode ser que seus sonhos se tornem realidade. Marta saiu do quarto, deixando no ar seu rastro de perfume.
      Cris leu as outras duas cartas. A vida por l no mudara muito. Paula parecia a mesma de sempre. Sua me tambm. Como elas podiam permanecer as mesmas, quando 
tanta coisa diferente lhe acontecera?
      Tirou o vestido novo, azul-cobalto, da mala e encostou-o ao corpo, estudando sua imagem no espelho. Nem parecia a mesa garota que chorara por causa de sua 
aparncia diante deste mesmo espelho, semanas antes.
      O cabelo curto agora caa em ondas naturais e, embora no tivesse to deslumbrante quanto no dia que Maurice o penteara, ainda estava bonito. Naquele momento 
no se sentia arrependida por t-lo cortado. Os ombros queimados pelo sol haviam descascado, mas o rosto permanecia bronzeado e sardento, dando-lhe uma aparncia 
esportiva. Estava satisfeita com seu visual. E agora tinha esse vestido espetacular, com cinto e sapatos prateados para combinar. Marta tinha um olho clnico para 
roupas. Escolhera esse traje com cuidado no Macy's, perto do hotel. Na praa Ghirarde-III encontraram uns brincos de prata com pingentes bem modernos, que complementavam 
o conjunto. Era o tipo de roupa que deveria ser usada numa ocasio especial. Quem sabe num encontro com Ted? Entretanto a nica coisa que podia fazer a respeito 
disso era esperar.
      Estava louca para ir  praia no dia seguinte: queria ver se o Ted estaria l e saber se ele a convidaria para sair. Sentia-se to ansiosa que acabou indo  
praia quando ainda no havia viv'alma! Ou melhor, quase ningum! Havia s uma pessoa: Alissa.
      Sentimentos mistos inundavam Cris. Alissa no fora ao enterro de Sam. Talvez nem soubesse. Pensou em voltar e correr em direo contrria, mas Alissa j a 
vira e acenava para que se aproximasse.
      - O tempo est perfeito hoje! disse Alissa, cumprimentando-a e parecendo realmente contente em v-la.
      - Oi, respondeu Cris. Como foi seu encontro na festa, sema na passada?
      O que realmente tinha vontade de dizer era: "Por que voc me abandonou, traidora? Por que voc  to perfeita e to horrvel ao mesmo tempo?"
      - Foi timo! O nome dele  Erik, ele tem um Porsche, e de l pra c temos nos encontrado todos os dias. Acabamos de voltar de Lajolla, onde passamos o fim 
de semana juntos. Alissa parecida no ter vergonha de seu relacionamento obviamente "avanado" com o namorado.
      Cris no sabia muito bem como mencionar o acidente com Sam, mas comeou:
      - Alissa, voc soube do Sam?
      - Soube o qu? Cris engoliu em seco.
      - Ele foi pegar onda l no quebra-mar, na noite da festa. Voc j tinha ido embora com o Erik.
      - E da?
      - Nem sei como lhe dizer, mas ele se chocou contra o quebra-mar e foi levado para o hospital, mas no resistiu. Morreu na manh seguinte.
      -  uma pena, respondeu Alissa, passando leo de coco nas pernas bronzeadas. Eu lhe contei que o Erik tem um Porsche?   preto com estofamento interno preto.
      Cris nem queria acreditar no que ouvia.
      - Alissa! gritou. Eu acabo de lhe dizer que o Sam morreu, e voc fica a falando sobre um carro! Voc no me ouviu?
      - Sim, ouvi, respondeu ela friamente. 
      - No ficou chocada, emocionada, nada?!
      - Escute, disse Alissa, olhando fixamente para Cris. Talvez voc seja nova demais para saber o que  a vida, ento vou lhe dizer. A vida  dura, menininha, 
e quanto mais cedo voc entender iss, melhor ser.
      Cris retraiu-se enquanto Alissa continuava a destilar veneno. 
      - Sam morreu. E da? As pessoas morrem, e no podemos perturbar muito quando isso acontece. A gente tem de viver o que quer e deixar que o resto se lixe... 
Se quiser ser feliz, te de lutar pela sua prpria felicidade, porque quando acabar, acabou.
      - Mas... disse Cris, interrompendo-a. 
      - Mas nada, menina!
      O rosto de Alissa estava vermelho, mas os olhos permanecia glidos.
      - Sem essa, Cris! A gente est s, cada um tem de se virar. No podemos ficar parados esperando que algum responda nossas oraes ou realize nossos sonhos! 
Cris suspirou e tentou pensar em alguma coisa para dizer, mas no conseguia.
      Quando Alissa acabou de dizer tudo que queria, deitou em toalha, de olhos fechados e rosto voltado para o sol, ignorando Cris.
      Cris no sabia o que fazer. Estava morrendo de raiva. Como que uma pessoa pode ser to fria e sem corao? Quanto mais pensava nisso, mais queria gritar com 
Alissa e dizer-lhe o quanto estava errada. Viver no  simplesmente aproveitar a vida ao maximo para depois morrer! Mas s conseguia chegar at a em seus argumentos 
ntimos. No sabia como refutar nada do que a outra dissera. No tinha soluo melhor.
      Irritada, deu um pulo e correu em direo  gua. Entrou apenas o suficiente para molhar os ps e foi caminhando pela praia. Depois que seus ps e sua ira 
haviam esfriado, voltou para onde estava sua toalha, decidida a enfrentar Alissa com calma.
      Para alvio seu, Alissa havia ido embora. Ento deitou-se, sobre a toalha, deixando que os raios ternos do sol a consolassem. Meia hora mais tarde algum aproximou-se 
dela.
      - Ol. Tudo bem com voc? Era o Ted.
      - Oi!
      Cris sentou-se depressa. Ficava sem palavras quando o via.
      - Quer ir a uma apresentao musical hoje  noite? Ted era extremamente direto.
      - Uma apresentao musical?! Claro! respondeu Cris, com corao disparado.
      - Como foi a viagem?
      Cris tentou acalmar-se e adotar um tom mais maduro.
      - Muito boa. Me diverti bastante.
      Com um sorriso largo e simptico, Ted convidou:
      - Vamos entrar na gua?
      Nas horas que se seguiram Cris sentia-se mais viva do que nunca. A gua brilhava como um campo de brilhantes ao sol do meio dia, e as ondas estavam calmas.
      Num momento em que surgiu uma onda maior, Ted agarrou a mo de Cris e disse:
      - Mergulhe!
      Seu tom de voz era forte, porm terno, e ela sentia seu calor mesmo na gua fresca. Quando a onda passou, ele soltou sua mo. Cris queria sentir novamente 
a emoo daquele toque. Divertia-se imaginando como seria maravilhoso sentir seu brao sobre os ombros  noite, durante a apresentao musical.
      - To a fim de sair da gua, disse ele. E voc?
      - Tambm. Estou faminta!
      - Eu trouxe um pacotinho de "chips". Ted ofereceu-lhe o salgadinho enquanto se enxugavam.
      - timo! disse Cris. Eu s trouxe gua mineral, que minha tia ps na sacola. Mas pelo menos ela colocou duas garrafas!
      Enquanto comiam, Cris contou-lhe como tinha sido a viagem a San Francisco: passear de bonde, jogar moedas nas caixas dos violes dos msicos ambulantes, comer 
o melhor chocolate do mundo na praa Ghirardelli, empanturrar-se de caranguejo no Alioto's. Contou at da discusso que teve com os tios sobre Deus.
      Ted escutou com ateno e depois perguntou:
      - E o que eles disseram quando voc perguntou a respeito das idias deles sobre Deus?
      - Mudaram completamente de assunto. Eles so assim mesmo. Agem como se soubessem tudo, mas quando procuro aprofundar mais uma questo, simplesmente mudam de 
assunto. 
      - , meus pais fazem a mesma coisa, comentou Ted. 
      Dois meninos pequenos que corriam at a gua passaram por cima da toalha de Ted, jogando areia dentro do pacote de salgadinhos. 
      - Deixe para l! disse Ted, pegando o pacotinho e olhando l dentro. Agora no saberemos se estamos comendo sal ou areia. Ele tentou rir da prpria piadinha, 
mas Cris achou-o meio tenso.
      - Ted, como voc tem passado desde... desde, sabe, o enterro?
      - No tenho dormido muito bem. Fico pensando e remoendo aquela noite, tentando imaginar o que eu poderia ter feito for-lo a parar. 
      - Deve ser horrvel. 
      - E .
      Cris olhou em sua volta. A praia estava cheia, mas no estava vendo nenhum dos outros surfistas.
      - Ted, desde que Sam morreu, minha cabea est cheia de perguntas sem resposta, disse Cris em voz contida, e continuou: Acho que voc  o nico que talvez 
possa explicar o que estou tentando entender. Posso lhe fazer umas perguntas?
      - Claro.
      - T bem, comeou. Primeiro, como  que voc sabe que vai para o cu quando morrer?
      - Porque no vero passado eu aceitei a Cristo.
      - Mas o que voc quer dizer com "aceitei a Cristo"? Eu o aceito, creio que ele  Filho de Deus e tudo o mais. Nunca o rejeitei ou neguei. 
      Ted olhou para o mar. Parecia estar pensando muito.
      -  to simples que fica difcil explicar. As pessoas podem optar por viver do jeito que elas querem ou conforme Deus quer.
      - Mas qual o jeito de Deus? perguntou Cris, quase gritando. Meu tio fica me dizendo para ser fiel a mim mesma, para seguir meu prprio rumo, e minha tia vive 
evitando a realidade e tentando pensar positivamente. Estou to confusa!
      - Eu entendo como voc est se sentindo.
      Cris continuou.
      - Em casa era fcil. Todo mundo freqenta a mesma igreja e acredita em Deus. Agora voc me diz que se eu quiser ir para cu tenho de viver conforme o propsito 
de Deus. Mas qual a vontade dele, afinal?
      Ele desviou o olhar para o oceano. No gostava de se sentir ignorante.
      -  assim, explicou Ted. Voc est olhando o oceano Pacfico, no ? L longe est o Hava. Suponha que o Hava seja o cu. Voc nunca chegaria l a nado. 
Precisaria de um barco.  com. se Jesus fosse esse barco. T acompanhando meu raciocnio?
      - Mais ou menos.
      - Bem, ns temos de escolher, Podemos rejeitar uma viagem gratuita de barco ao Hava, ou ento sentar aqui e dizer: ''Eu acredito no barco e acredito no Hava". 
Entretanto se no entramos no barco, nunca chegaremos ao Hava. Ted parecia contente com a ilustrao, mas Cris ainda se sentia confusa.
      - Eu acredito em tudo isso, disse. Parecia haver algo mais profundo no que ele dizia, mas ela simplesmente no conseguia entender.
      - Sim, mas voc entregou sua vida a Jesus? Ou est sentada na praia dizendo "acredito no barco e no Hava", sem subir no barco?
      Ted estava mexendo numa rea que ela ainda no estava muito disposta a encarar. Imaginou-se subindo num barco que iria para o Hava. Parecia arriscado deixar 
a segurana da praia e enfrentar as fortes ondas do mar.
      - Sei l, disse ela com um sorriso. Pelo menos isso me da algo para pensar. Vou refletir um pouco a respeito do que disse. Preciso ir embora.
      - Pego voc em casa hoje l pelas seis e meia, est bem? disse Ted.
      - Claro! Fico te esperando!
      Cris pegou suas coisas e foi para casa.
      A vida parecia realmente estar-se tornando bela. Isso era boimdemais para ser verdade! Cris pensou no quanto ela j melhora por haver seguido os conselhos 
da tia. Estava realmente tornando-se uma pessoa autntica.
      - Tia Marta! gritou, abrindo a porta. Tio Bob! 
      Encontrou-os na sala, olhando um livro de amostras de papel de parede.
      - Adivinhem o que aconteceu? Ted me convidou para sair hoje  noite! D pra acreditar? Uma apresentao musical! Ele vem me buscar s seis e meia! S tenho 
trs horas para me aprontar. Vou j para o chuveiro. Estou to contente!
      - Oh, Cris! exclamou Marta. Que timo! O que voc vai vestir querida? Ser que o vestido novo que compramos em San Francisco fica bem?
      - Acho que sim. Nem pensei no que vestir. S estou preocupada porque meu nariz comeou a descascar. Olhe s.
      - Voc no tem usado o protetor solar que eu te dei? repreendeu a tia enquanto subiam a escada. Voltando-se ento para Bob, acrescentou:
      - Bob, querido, faz o favor de ligar para o Maurice e cancelar minha hora com a manicure. Preciso ficar e ajudar a Cris a se aprontar!
      Em p, sozinho, com o livro de amostras de papel de parede na mo, Bob respondeu, observando a animao das duas l em Cima: 
      - Tuuuuuudo bem!
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      O Grande Encontro 
      10
      Eram exatamente dezoito horas. Bob colocou a travessa de rosbife  jardineira sobre a mesa. Marta estava acabando de encher de gua as taas de cristal, quando 
Cris apareceu
      na porta, de vestido novo, azul, com acessrios prateados.
      - Voc est lindssima, querida! elogiou Marta. No acha que o cabelo dela ficou muito bem desse jeito, Bob?
      - , minha sobrinha, voc vai abafar. Esse rapaz vai ficar tonto quando olhar pra voc!
      - Obrigada, disse Cris com um sorriso. Adorei o vestido que voc me deu. Foi muito legal.
      Ao sentar  mesa, Cris comentou:
      - Sabe, naquela festa que eu fui todas as pessoas estavam com roupas desse jeito, e eu me senti pssima de jeans. Ainda bem que hoje estou com uma roupa legal.
      Marta sorriu, contente consigo mesma .
      - Que tipo de programa vocs vo assistir? perguntou Bob, passando mais manteiga na batata.
      - Sinceramente, no sei. Mas no se preocupe com o Ted. Ele  um cara bacana, e tenho certeza de que no me levaria a nenhum lugar imprprio.
      s seis e vinte e cinco, foram todos para a sala esperar o toque da campainha. Cris carregava um embrulho de presente, que deixou ao lado da porta.
       - Que  isso? perguntou Bob.
      -  o bluso de moletom que comprei para o Ted em San Francisco. Hoje vai ser a ocasio perfeita para entreg-lo. Espero que ele goste!
      -  claro que vai gostar! asseverou Marta. Ele deve estar chegando a qualquer instante.
      Esperaram at cansar. Finalmente, s sete, Bob comeou a cantar hipteses para explicar por que Ted estaria atrasado.
      - Talvez ele tenha parado para lhe comprar flores.
      - Hoje em dia ningum compra flores assim, tio.
      - Ento quem sabe ele ficou com medo e desistiu!
      - Bob! Como  que voc diz uma coisa dessa?! repreendeu a tia. Os olhos de Cristina se encheram de lgrimas.
      - Bem, eu estava s querendo ...
      Naquele instante a campainha tocou. Cris piscou para evitar que a maquiagem borrasse. Correu para a porta, pegou o presente e concentrou-se em melhorar a expresso 
do rosto, mostrando um ar mais alegre. Afinal de contas, ele provavelmente tinha uma boa razo para estar atrasado.
      Abriu a porta e, com seu sorriso mais simptico, cumprimentou-o.
      A gelou. Ele estava de bermuda! Bermuda e camiseta! Por que fora pr um vestido de festa?
      Ted pareceu no notar que ela exagerara na roupa. Nem pediu desculpas pelo atraso. Sua voz era tranqila, natural.
      - Ol, tudo bem? Vamos?
      Cris gritou "tchau" e correu para fechar a porta antes que a tia pudesse ver como Ted estava vestido. Tarde demais. Bob e Marta estavam no hall, e o tio estendia 
a mo para Ted.
      - Prazer em v-lo, disse. Lembra-se de minha esposa, Marta, daquele dia no hospital?
      - Ted, disse Marta com um sorriso.  to bom ver voc novamente. Virou-se ento um pouquinho de lado e dirigiu a Cris um olhar apavorado. Voc tem certeza 
de que est pronta para sair, querida?
      Cris entendeu a dica. Sabia que era a chance de correr par trocar de roupa, mas no sabia o que iria vestir. S queria sa com o Ted. Agora mesmo! Antes que 
acontecesse mais algum, coisa e ela perdesse essa oportunidade.
      - Acho que estou pronta, respondeu.
      - Tem certeza, minha filha?
      Marta lanou-lhe um olhar penetrante.
      - Sim, tenho. Vamos, Ted.
      - Boa noite, disse ele  Marta. Virando-se ento para Bob acrescentou:
      - Ns voltaremos antes das onze e meia, seu Robert.
      - timo. Divirtam-se.
      Cris e Ted foram para o carro.
      - O que  isso? perguntou o rapaz, olhando para a caixa.
      - Quase me esqueci.  pra voc, explicou com voz trmula
      - Pra mim? O que ?
      - Comprei em San Francisco. Se no gostar, tudo bem.
      Por que foi ter a idia de comprar uma lembrana para ele. Por que se achava vestida para uma festa quando ele estava to  vontade? Por que se sentia to 
boba? Por um segundo pensou em dizer que no estava se sentindo bem e no poderia ir. Mas j estavam  porta da velha kombi, que ele chamava afetuosamente de "Kombi 
Nada".
      Ted abriu a porta e Cris quase soltou um grito. O veculo estava lotado de gente. E outra moa, Trcia, j estava sentada no lugar de passageiros da frente.
      Ted fez as apresentaes.
      - A Trcia e o Douglas voc j conhece. Estes so Bruce, Helen, Lillian e Michelle.
      O nico lugar vago era bem atrs. Cris sentou-se rapidamente, revoltada e envergonhada.
      E o pior de tudo  que todos estavam de jeans. Ela estava ridcula com aquela roupa. O que  que aquelas pessoas estavam fazendo ali? Ted no a convidara para 
sair com ele? O que a Trcia estava fazendo ao lado dele? Era de dar nojo!
      - Que  aquilo? perguntou Douglas quando o carro saa.
      - Uma coisa que Cris comprou pra mim em San Francisco.
      - Deixa que eu abro! ofereceu-se Trcia.
      Antes que Ted pudesse responder, ela j havia rasgado o papel e estava levantando o moletom para que todos na kombi vissem. Os comentrios ardiam como sal.
      -  exatamente o que voc precisava, Ted! Ela descobriu tudo sobre voc, seu bandido!
      Cris no abriu a boca em todo o trajeto. Todo mundo falava e ria, mas no a incluam. Entraram num estacionamento do que parecia um centro comunitrio, e a 
turma foi para a porta da frente onde uma multido ia entrando.
      - Vamos! chamou Trcia, agarrada ao brao do Ted. Se andarmos depressa ainda conseguimos lugar na frente.
      Os outros se mandaram com Trcia, mas Cris ficou para trs, torcendo para que Ted notasse e voltasse para andar com ela, ou pelo menos que lhe prestasse um 
pouco de ateno. Mas ele nem se tocou.
      Os sonhos que acalentara a tarde toda vinham pouco a pouco esvaziando-se como um balo furado. Quando percebeu que teria de sentar-se entre Michelle e Helen, 
seus planos acabaram de frustrar-se por completo. Trcia ficou entre Ted e Douglas no final do corredor e virou-se para dar um alzinho para Michelle.
      - Pra mim chega! murmurou Cris. Vou-me embora.
      - Voc disse alguma coisa? perguntou Michelle.
      - No estou muito legal, respondeu Cris, assustada por Michelle t-la ouvido e ainda mais por ter falado com ela.
      Acho que vou ligar para meu tio e pedir que venha me buscar.
      - No! No v agora! A apresentao j vai comear. Voc no pode perder! argumentou Michelle.
      Naquele instante as luzes diminuram e um jovem foi ao centro do palco anunciar a cantora. Michelle cochichou para Cris:
      - Voc tem alguma das fitas dela?
      - Quem?
      Cris teve de gritar para que a outra a ouvisse em meio aos aplausos.
      - Debbie Stevens! gritou Michelle, apontando para a artista magra e alta que aparecera no palco, vestindo um conjunto vermelho vistoso.
      - No. Essa  a primeira vez que a ouo, respondeu Cris.
      Sentia-se meio atordoada com a msica alta e o entusiasmo da multido. Forte e clara, a voz de Debbie encheu o auditrio:
      
      "Todo mundo me diz
      Que caminho devo escolher,
      Mas ningum tem as respostas!
      Voc sabe me dizer?
      No sou tola. Vejo que voc
      No vive o que diz crer.
      Algum pode me mostrar?
      Deve haver um modo melhor de viver!"
      Cris ouvia atentamente e percebeu, meio surpresa, que conseguia entender bem a letra. Aos poucos a msica ia desfazendo a tenso que se formara em sua garganta 
e em seu estmago. Com o canto do olho, via Trcia se balanando, batendo palmas ao ritmo da msica, rindo e se mexendo, livre como a brisa. Ted e Douglas faziam 
o mesmo. Quando Debbie anunciou o nmero seguinte, assobiaram e aplaudiram de p.
      "Voc no o encontra em lojas,
      Nunca entra em liquidao,
      No pode pagar com carto
      Nem encomendar por reembolso.
      Seu valor  incalculvel,
      Mas hoje  gratuito; de graa pra voc.
      Entregue o corao e a vida a Cristo
      E eternamente vai viver.
      Por esse bem voc no pode pagar,
      Essa dvida algum j quitou;
      Jesus lhe deu esse presente
      Quando da morte ressuscitou."
      - Esse show tem alguma coisa que ver com religio? perguntou Cris a Michelle.
      - Sim. Essa  a igreja que ns freqentamos. Cris deu uma olhada no salo. Parecia um auditrio qualquer, imenso e cheio de janelas. A nica indicao de que 
aquilo era uma igreja era o fato de haver bancos em vez de cadeiras.
      A apresentao prosseguia e Cris ouvia atentamente. Percebeu que todas as msicas tinham mensagens embutidas e, como o Ted gostava daquele tipo de coisa, queria 
entend-las tambm. Talvez ele se interessasse mais por ela se conseguisse conversar Com ele sobre o "Senhor", como a Trcia.
      Olhou para o rapaz na ponta do banco.
        um gato e tanto! pensou. Ah, se ele gostasse de mim...
      Depois de cantar por uns quarenta minutos, Debbie pediu que todos se assentassem antes de apresentar o ltimo nmero.
      - Quero lhes falar sobre algo que me aconteceu alguns anos atrs, principiou. O auditrio foi-se aquietando.
      - H quatro anos vim a este lugar com alguns amigos para ouvir uma banda tocar. No final, o baterista disse que entregara sua vida a Jesus e que ele e todos 
os rapazes do conjunto eram cristos.
      Debbie aproximou-se da beira do palco e continuou falando e gesticulando. Falava com bastante entusiasmo, movendo a cabea, fazendo tremer o cabelo cacheado 
em volta do rosto.
      - Eu no entendia o que eles diziam, porque havia sido criada numa famlia que sempre freqentava a igreja. Achava que era automaticamente crist.
      As palavras de Debbie penetravam fundo no corao de Cris.
      - Ento, um dos cantores disse como poderamos nos converter, e muitas pessoas oraram com ele naquele dia. Eu no. No entendia por que precisava pedir perdo 
por meus pecados. Afinal de contas, eu era uma pessoa muito legal. No matava, no colava nas provas e tentava obedecer aos meus pais. No via por que Jesus teria 
de me "salvar", como aqueles caras estavam dizendo.
      Cris olhou de novo para o Ted, que lhe deu um sorriso. Seu rosto se aqueceu e ela voltou o olhar para o palco.
      - Bem, continuou a cantora. Na noite seguinte fui dar uma volta de bicicleta perto da praia e resolvi sentar-me num banco. Fiquei ali pensando um longo tempo. 
Um dos moos tinha citado um versculo da Bblia que dizia: "Todos pecaram e carecem da glria de Deus".
      - Fiquei l, ouvindo o rudo do mar e vendo o cu mudar de cor, apresentando vrios tons de rosa. Naquele momento reconheci que eu carecia da glria de Deus. 
De repente tudo ficou claro! S Deus  perfeito e santo. Eu jamais conseguiria ser boa o suficiente para me apresentar diante dele, por mais que me esforasse. Precisava 
que Jesus me abrisse o caminho para que eu pudesse chegar a Deus.
      - Naquela hora, naquele lugar, orei mais ou menos assim: "Senhor Jesus, eu preciso de ti. Perdoa os meus pecados e entra em minha vida. Transforma-me, de modo 
que eu venha a ser como queres que eu seja. Amm".
      - Escrevi a prxima cano naquela noite, depois que voltei do passeio de bicicleta. Foi uma das noites mais felizes da minha vida. Durante muito tempo eu 
pensei que no precisava de nada, mas Jesus sabia que eu precisava dele e no desistiu de mim. A msica comeou baixinho, de maneira lenta:
      "At hoje eu no sabia,
      Que era de ti que eu precisava.
      Mas de um jeito especial
      Demonstraste o quanto me amavas,
      Mostraste o teu interesse
      Mesmo quando eu nem ligava.
      Dou-te agora minha vida,
      Entrego-a sem reservas,
      Pois embora no soubesse
      Era o Senhor que eu procurava.
      Desde o princpio de tudo,
      O Senhor j me amava."
      Que msica linda! disse Cris a Michelle.
      DebBie repetiu o finalzinho da cano com os olhos fechados, segurando o microfone bem prximo  boca: "Desde o princpio de tudo, o Senhor j me amava."
      Os ouvintes estavam em silncio total.
      Os ltimos acordes da msica desvaneciam. Debbie abriu os olhos e disse:
      - Se voc ainda no entregou sua vida a Jesus, estou orando para que o faa hoje mesmo. Ele est te esperando. Que Deus abenoe a todos! Obrigada por terem 
vindo!
      As luzes se acenderam, e as pessoas comearam a conversar descendo os corredores em direo s portas de sada. A galera de Ted permaneceu em sua fileira, 
esperando que a multido diminusse.
      - Gente! Vamos tentar ir aos bastidores falar com a Debbie, sugeriu Douglas.
      - Ah, que  isso! replicou Helen, duvidando.
      - Vamos! insistiu Douglas, puxando o grupo at o palco e procurando um jeito de chegar aos bastidores.
      - Querem alguma coisa? perguntou-lhes um rapaz que pertencia ao conjunto da cantora.
      - Queramos conhecer a Debbie, disse Douglas, com confiana. Ser que ela teria um tempinho pra falar com uns fs?
      - Claro, por que no? Venham comigo, convidou o msico. Levou-os a uma porta lateral, entrou por um corredorzinho, seguindo at um camarim, onde bateu  porta 
e disse:
      - Debbie, tem uns fs aqui que querem conhec-la. Debbie abriu a porta de chofre e exclamou:
      - Ol, fs! Mas imediatamente ficou vermelha e, de brincadeira, deu um tapa no colega.
      - Mark! gaguejou. Pensei que estivesse brincando! No sabia que tinha gente aqui mesmo!
      Todos riram, quebrando o gelo. Debbie se recomps, cumprimentando a todos e perguntando o nome de cada um. Quando chegou a vez de Cris, disse:
      - Estou to contente por voc ter vindo hoje!
      - Eu tambm, respondeu Cris.
      - Sabe, disse Debbie, sempre gostei do nome Cristina. Quer dizer "seguidora de Cristo", sabia?
      - No. No sabia, respondeu Cris, surpresa com a amabilidade da cantora.
      Sempre achara que as estrelas eram todas distantes, temperamentais e procuram proteger ao mximo sua privacidade. Debbie, porm, irradiava autenticidade.
      - Ns realmente gostamos do seu show, elogiou Douglas:
      - Tenho todas as suas fitas, comentou Michelle. Voc tem mais alguma para sair?
      - Espero que at dezembro consiga lanar a prxima, respondeu Debbie com um largo sorriso.
      Seu cabelo negro reluzia em pequenos cachos que caam na testa, e Cris ficou pensando como ela era bonita. No era por causa da maquiagem, porque no estava 
muito carregada. Mas havia um brilho em seus olhos que a tornava linda.
      - Gostei principalmente da ltima, disse Cris, meio sem graa. Me fez sentir algo diferente.
      - ? O que voc sentiu? perguntou Debbie, com interesse sincero.
      -  difcil explicar.
      Cris queria que os outros no estivessem ali, todos olhando para ela.
      Talvez Ted tenha sentido sua falta de jeito e interrompeu:
      - Queremos comprar alguns dos seus discos, Debbie.
      - Voc autografa pra ns? acrescentou Trcia.
      - Claro! disse Debbie. Quer ficar aqui alguns minutos para conversar, Cris?
      Na verdade ela no queria, mas sentiu-se constrangida e no sabia como dizer no.
      - Voltamos j, disse Ted, saindo com Trcia e os outros.
      - Ento, me diga: o que foi que minha msica fez voc sentir? perguntou Debbie sentando e oferecendo uma cadeira a jovem.
      Levou alguns segundos para Cris aclarar os pensamentos. Ali estava ela, sozinha com uma estranha que lhe perguntava sobre seus sentimentos mais ntimos. E 
ela s conseguia pensar no Ted. Talvez ele estivesse tentando livrar-se dela para poder abraar a Trcia ou coisa parecida. E se eles fossem embora e a deixassem 
para trs?
      - Eu... eu no me lembro, gaguejou.
      - No tem importncia. No tive a inteno de deixar voc sem jeito.  que gosto de conversar com as pessoas depois das apresentaes, para ver como o Senhor 
lhes fala atravs da msica.
      - Na verdade, eu vim com umas pessoas que assistem a muitas apresentaes como esta. Talvez voc devesse perguntar a elas o que acharam, porque falam o tempo 
todo sobre Deus.
      - E posso lhe perguntar uma coisa? disse Debbie, com os olhos brilhando.
      - Claro.
      - Cris, se voc morresse hoje, tem certeza de que iria para o Cu?
      O corao da garota latejava. Havia pensado mil vezes nessa questo quando Sam morrera. At questionara seus tios sobre isso, mas nunca ningum lhe fizera 
essa pergunta.
      - Bem, acho que sim.
      - Existe uma maneira de ter certeza, disse Debbie. Pea a Jesus que perdoe seus pecados e entre em sua vida.
      Por que eles me deixaram aqui para a Debbie me encurralar desse jeito? Seu corao batia mais rpido.
      - Sim, sei isso tudo, disse. Freqento a igreja desde que eu era pequena.
      - Isso  bom, mas no basta, acrescentou. Todos pecaram, e isso nos torna incapazes de nos apresentarmos diante de Deus, porque ele  santo. A penalidade do 
pecado  a morte, e foi por isso que Jesus morreu. Pagou o preo dos nossos pecados. S podemos ser salvos atravs dele.
      Por que ela est pregando para mim desse jeito? pensou Cris, sentindo ainda mais raiva da galera por hav-la deixado ali sozinha.
      - Obrigada por sua ateno, disse Cris, tentando ser educada. Mas preciso procurar meus amigos antes que eles saiam sem mim.
      - Est bem. Olhe, quero lhe dar uma de minhas fitas. Tudo que acabei de dizer est na letra destas msicas.
      Entregou uma fita cassete a Cris com sua foto e a palavra "AUTENTICIDADE", na capa.
      - Obrigada, murmurou Cris. Depois, com receio de ter sido grosseira por ter cortado o papo to depressa, acrescentou:
      - Vou escut-la. Prometo que vou.
      Debbie ps a mo em seu ombro e, com uma expresso carinhosa, disse:
      - Prometa apenas que vai escutar o que o Senhor falar ao seu corao.
      Cris desviou os olhos.
      - Est bem. Mais uma vez, obrigada. Voc foi muito gentil. Preciso ir. Tchau.
      A volta para casa foi to desagradvel quanto a ida. Ted perguntou se queriam comer alguma coisa.
      - Claro, exclamou Trcia. Desde que no seja na sorveteria Hanson!
      Sugeriu ento que fossem  sua casa e de l pedissem uma pizza.
      A ltima coisa que Cris queria era passar mais uma hora com Trcia, ainda mais no territrio dela.
      - Acho que prefiro ir para casa, se voc no se importa, Ted murmurou Cris no seu cantinho l atrs. Ela esperava que ele se importasse e insistisse para que 
os acompanhasse.
      - Tudo bem, falou o jovem, se  isso que voc quer. Por que ele tinha de concordar to facilmente com tudo?
      - Afinal, sua casa est no caminho da casa da Trcia. Para sua surpresa, em vez de simplesmente parar o carro e deix-la descer, Ted acompanhou-a at a porta.
      - Fiquei contente por voc ter vindo, disse ele sob a luz da varanda.
      - Mesmo? Achei que voc nem tinha notado que eu estava l, entre tantos outros amigos.
      - Claro que eu notei voc, replicou Ted, parecendo meio confuso. Espero que venha outras vezes. Quando volta para Wisconsin?
      - No final de agosto. No me lembro exatamente o dia.
      - Bom, boa noite, disse ele, dando-lhe um rpido abrao. Seu rosto bronzeado chegou a apenas alguns centmetros do de Cris. Vejo voc amanh?
      - Sim. A gente se v, respondeu Cris, sentindo o corao derreter-se.
      Como ele podia fazer isso com ela? Uma hora parecia gostar dela, na outra quase a ignorava. Ser que ele tinha noo da montanha russa emocional em que a estava 
colocando, uma hora pra cima, outra pra baixo? Ela ficou olhando enquanto ele voltava para o carro, e acenou, meio sem graa, para os outros que o esperavam no carro.
      - Ei! gritou Ted. Gostei do seu vestido!  Entrou na kombi e, com um solavanco e um barulho, desceram rua abaixo.
      Bob e Marta aguardavam na sala de televiso. Bob assistia a TV com o som bem baixo, enquanto Marta conversava ao telefone. Ao ver Cris, Marta desligou imediatamente, 
curiosa por ouvir tudo sobre o grande encontro.
      Cris recapitulou rapidamente os acontecimentos decepcionantes daquela noite, deixando de fora o detalhe de que era uma apresentao de msica crist. Contou-lhes 
que todos foram para a casa da Trcia, mas que ela no teve a mnima vontade de ir com eles.
      - Mas que moa desagradvel! exclamou Marta. Como ela se atreve a se meter com seu namorado desse jeito!
      - Ela no  to m assim, admitiu Cris. E o Ted no  exatamente meu namorado. Quer dizer, est na cara que ele tambm a convidou para sair. Mas ele gostou 
do meu vestido e ainda disse que me veria amanh, acrescentou com um sorriso.
      -  isso a! exclamou Bob, com os olhos ainda grudados na TV. Tem de dar tempo ao tempo. Ele vai acabar caindo.
      - Esse  o problema! lamentou a menina. No tenho muito tempo. Vou voltar para casa dentro de algumas semanas!
      - Fique firme a! Fique firme! murmurou Bob.
      - Mas como vou ficar firme? perguntou Cris, tentando fazer com que o tio tirasse os olhos da televiso e olhasse para ela. Como vou conseguir fazer com que 
ele goste de mim?
      - Derruba ele!  assim! Derruba no cho!  a sua chance! V com tudo, v em frente!
      Cris olhou brava para o tio e para a televiso.
      - Luta livre! gritou. Estou pedindo um conselho srio, pensando que voc est me escutando, e voc est conversando com um lutador de televiso!
      - Bob! repreendeu Marta.
      - O qu? perguntou ele, olhando-a assustado. Voc disse alguma coisa?
      - Esses homens! exclamou Cris. So todos iguais! Todos esquisitos!
      
      Tudo que Uma Garota Poderia Desejar 
      11
      
      Cris caminhou devagar as quatro quadras at a casa de Alissa. Uma hora antes Alissa telefonara, pedindo-lhe que fosse l. Ela concordara, com alguma relutncia, 
mas quanto mais se aproximava da casa, mais temerosa e insegura ia ficando.
      Alissa parecia chateada ao telefone, e Marta havia dito que ela tinha telefonado na noite anterior, quando Cris estava fora. Que ser que ela queria? E por 
que a chamou, em vez de ligar para o Erik?
      Quando a moa atendeu a porta, Cris percebeu que o cabelo cobria-lhe o olho direito. O short e a camisa que vestia estavam amarrotados.
      - Entre, disse ela secamente, indicando-lhe a sala.
      Caminharam com cuidado para no pisar em algumas maas abertas, espalhadas pelo cho, que aparentemente ela comeara a arrumar. Alissa tirou uma caixa de cima 
do sof para que pudessem sentar.
      - Voc j vai embora? Pensei que sua famlia ia ficar at o fim de agosto.
      - amos, mas agora no vamos mais, respondeu Alissa baixinho. Vou para Boston, a casa de minha avo.
      - E o resto da sua famlia?
      - O resto da minha famlia?! repetiu Alissa rindo. O que voc quer saber? perguntou, com uma expresso de fria no olhar. Vou lhe contar sobre o resto da minha 
famlia! EU! Eu sou toda a famlia que tenho!
      - O que voc quer dizer com isso?
      Cris temia que Alissa estourasse, mas viu algo diferente no seu rosto que lhe causou d.
      -  isso mesmo. Sou filha nica, e meu pai morreu de cncer pulmonar h trs meses, declarou Alissa, acalmando-se um pouco.
      - Sinto muito. No sabia.
      - , no lhe contei. Eu e minha me viemos para c para espairecer e descansar durante o vero. S que minha me trouxe consigo uma velha amiga. Sua garrafa.
      - O qu?
      - Quero dizer que minha me  alcolatra. Ela fez um tratamento alguns anos atrs, mas, com a morte de meu pai, comeou a beber de novo. Desde o dia em que 
chegamos ela s ficou dentro dessa casa. Bebeu at no saber mais onde estvamos nem quanto tempo havia passado.
      Alissa virou a cabea para olhar pela janela, e Cris notou que seu olho direito estava machucado e inchado.
      - Que horror, Alissa! Voc est bem? O que aconteceu com seu olho?
      - Minha me me deu um soco quando tentei fazer com que fosse para a cama ontem  noite. O Erik ia passar aqui para me pegar, e ela estava deitada no cho da 
sala. Erik ainda no a conhecia, e eu no queria que ele a visse naquele estado. Ento tentei arrast-la para o quarto. Ela ficou furiosa, me bateu e jogou uma garrafa 
de vodca em mim. Estava maluca, dizendo que ia me matar. Fiquei com muito medo e sa correndo pela rua at ao telefone pblico. Chamei a polcia. Levaram minha me. 
Tenho certeza de que iro coloc-la novamente em alguma clnica de recuperao.
      - Puxa, que coisa terrvel! Ser que tem alguma coisa que eu possa fazer por voc?
      Alissa voltou ao seu jeito frio e calculista e disse:
      - Eu gostaria que voc me ajudasse a fazer as malas. Preciva dar tantos telefonemas... Nunca vou conseguir arrumar tudo at a hora do vo, s quatro.
      Cris ficou arrumando as malas de Alissa durante uma hora. Suas roupas enchiam trs guarda-roupas. Tinha tantos vestidos lindos de seda, jeans caros de marcas 
famosas e sapatos que no acabavam mais.
      Enquanto Alissa terminava os telefonemas, Cris encheu uma maleta com os cosmticos. Abrindo a ltima gaveta, tirou um,i poro de delineadores, um espelho 
e uma caixinha cor-de-rosa redonda de plstico.
      O que ser isso? pensou Cris, destampando a caixinha. Dentro dela havia vrios comprimidos brancos, pequenos, numerados dispostos na forma de um crculo.
      - Tudo resolvido, disse Alissa ao entrar no quarto. Minha me estava mais sbria hoje de manh e concordou em assinar os papis de admisso ao hospital. Se 
tudo for bem, ela poder voltar a Boston no final de setembro. J arrumei a mala dela hoje cedo para deixar no hospital quando for para o aeroporto.
      - Como voc vai para o aeroporto?
      - O Erik disse que me levaria.
      - Voc tem sorte de ter o Erik, disse Cris. Ele parece gostar muito de voc. Vai ser horrvel deix-lo aqui, no ?
      - Olhe s, onde voc achou isso?! perguntou Alissa, estendendo a mo para pegar a caixinha cor de rosa. Estou procurando isso h dias.
      Antes que Cris pudesse responder a campainha tocou.
      - Provavelmente  o Erik, disse Alissa, saindo para atender a porta e deixando Cris no quarto.
      Cris ouviu a voz de Erik ecoando pelo corredor.
      - Vou sentir sua falta, sabia?
      Ficou sentada na cama, pensando: Que doura! Ser que o Ted vai me dizer algo assim quando eu estiver voltando para casa?
      - Fico contente que voc tenha vindo, Erik, disse Alissa com voz aveludada. No sei o que teria feito se voc no tivesse vindo.
      - Eu at cheguei cedo, voc no notou?
      - Ainda bem, porque tenho de deixar as coisas da mame no hospital.
      - Isso no deve demorar, disse Erik em voz mais baixa. Voc ainda tem tempo de me dizer adeus.
      - Pare com isso Erik! Agora no! Estou falando srio! A voz de Alissa ficou abafada, e Cris s conseguia ouvir passos no corredor, vindo em direo ao quarto.
      - Tem gente...
      A voz de Alissa vinha do outro lado da porta.
      Antes que ela pudesse terminar a sentena, a porta do quarto se abriu. Cris deu um salto, olhos arregalados. Erik entrou abraado com Alissa.
      Cris se assustou. O que deveria fazer?
      - Ei! gritou ele. O que voc est fazendo aqui?
      - Eu... eu... eu estava de sada! gaguejou Cris.
      - No precisa! gritou Erik, saindo pelo corredor.
      - Erik, gritou Alissa. Preciso de voc! No v embora! Ele abriu a porta da frente de sopeto e replicou:
      - Eu tambm precisava de voc, mulher! Mas voc no est nem a para mim. Estou cansado de suas desculpas e de seus joguinhos infantis. Cresa e amadurea! 
concluiu batendo a porta.
      Cris ouviu o barulho estridente dos pneus do Porsche descendo a rampa de entrada. Esperou no quarto, sem saber o prximo passo a dar. Depois de alguns instantes, 
saiu devagar pelo corredor.
      - Alissa, voc est bem?
      - Que cara mais mau-carter! Eu no gostava mesmo dele, disse Alissa, com os olhos cheios de lgrimas. Cris sentou-se ao seu lado no sof.
      - Sinto muito ter atrapalhado voc.
      - No foi voc, disse a moa deixando as lgrimas jorrar. Ele  um menino que no sabe o que fazer quando no consegue o que quer. Tenho coisas melhores pra 
fazer do que perder tempo com ele.
      Aparentemente ela no estava convencida do que dizia. Enterrou o rosto nas mos e chorou at no poder mais.
      - Calma, disse Cris procurando um leno de papel. Vai ficar tudo bem. Voc tem tudo que uma garota pode desejar.
      Alissa levantou os olhos vermelhos e encarou Cris com uma expresso de frieza.
      - Tudo que uma garota pode desejar? perguntou com sarcasmo. Ento por que estou sempre to sozinha. E por que estou to infeliz que... que em dezembro passado 
tentei me matar? Concluiu, depois de hesitar por um instante. Pode me responder? perguntou quase gritando.
      - No, quer dizer, no sei, respondeu Cris, com lgrimas brotando nos olhos. Alissa, no acredito que voc esteja me dizendo tudo isso! Voc tem tudo. Voc 
 exatamente como eu gostaria de ser!
      - No sou no, disse Alissa, enxugando as lgrimas e passando a mo no longo cabelo loiro. Voc no sabe como sua vida  boa. Continue sendo inocente, Cris. 
Continue inocente.
      Por um momento ambas ficaram em silncio. Cris sentia o corao apertado. Queria muito ajudar a amiga e oferecer-lhe respostas. Se tivesse alguma maneira de 
ajud-la... De repente teve uma idia.
      - Vou telefonar para o meu tio e pedir que ele leve voc ao aeroporto, t bem?
      No era muito, mas j era um comeo.
      Enquanto esperavam que Bob viesse, Alissa se recomps e parecia ter se recuperado do desentendimento com Erik. Dentro de vinte minutos Bob chegou e colocou 
no carro os pertences da moa.
      Durante o trajeto at o aeroporto, Cris ficou matutando como explicar ao tio aquela situao. Entretanto ele foi bem discreto e no disse nada; foi s quando 
estavam a ss, voltando para casa, que ele perguntou se ela queria conversar sobre alguma coisa.
      - Os homens so esquisitos, disse Cris. No d pra acreditar na maneira como Erik tratou Alissa. Ele simplesmente a abandonou, como se no ligasse mais pra 
ela.
      - Imagino que Alissa tenha tido muitos namorados como o Erik, comentou Bob. Ela d a impresso de ser uma moa muito solta. Isso no  bom.
      - Estou comeando a perceber isso. Quando a conheci, achava que ela era perfeita. Queria ser como ela em tudo. Hoje quase no acreditei quando ela contou como 
 infeliz. Obrigada por ter vindo e por t-la ajudado. Essa foi a segunda vez nessas frias que voc me socorreu quando meus novos amigos estavam em apuros.
      - Estou sempre s ordens. Gosto de ajudar. Quer parar em algum lugar para jantar?
      - Quero sim. Estou faminta. Desde que no seja na sorveteria Hanson.
      - O que? 
      - Deixa pra l. Esse  outro problema que preciso resolver.
      
      
      
      
      Esperanas e Sofrimentos 
      12
      
      
      - Cris? Bob? Vocs chegaram? Gritou Marta l do quarto. Eram mais de dez horas. Eles estavam chegando do restaurante onde haviam jantado, depois de deixarem 
Alissa no aeroporto.
      - Sim, querida, respondeu Bob.
      Marta desceu a escada saltitando, vestindo um macaquinho amarelo-ovo.
      - Cris, tenho timas notcias para voc! Seu namorado veio aqui enquanto voc estava fora e perguntou por que no foi  praia.
      Ela se acomodou no sof e continuou, gesticulando muito.
      - Eu disse a ele que voc estava de papo pro ar l na Alissa. Cris girou os olhos.
      - No estvamos bem de papo pro ar.
      - No importa, continuou Marta. Ns conversamos um pouco, e ele disse que ligaria para voc hoje  noite. O coitado j ligou duas vezes, mas acho que acabou 
desistindo porque, na ltima ligao, disse que falaria com voc amanh. Ele  um encanto de rapaz, Cris!
      - Seria to bom se ele tambm me achasse um encanto de garota...
      - Ah! J ia me esquecendo! Voc precisava ver que gracinha! Ele estava com o moletom que compramos em San Francisco. Ficou to bem nele!
      - Verdade? No acredito!
      -  um rapaz legal! Exclamou Bob, com um brilho de satisfao nos olhos. D tempo a ele. Voc ainda vai fisg-lo.
      - Voc  um bobo! exclamou Cris com ar de riso, jogando uma almofada do sof na cabea do tio. Em seguida foi para o quarto, onde resolveu escrever para Paula 
antes de dormir, mas estava caindo de sono. Finalmente cedeu ao cansao e, bocejando, entrou debaixo das cobertas.
      Na manh seguinte, ficou mais de uma hora na cama, escrevendo uma carta para Paula e outra para seus pais. Provavelmente teria ficado ainda mais, no fosse 
a ansiedade de ver Ted.
      Ser que devo ir  praia ou ficar esperando em casa? Acho que vou esperar, pelo menos at o meio-dia; depois, se ele no telefonar, vou para a praia.
      Depois, com um cuidado todo especial, fez escova no cabelo e maquiou-se.
      Como ser que est a Alissa na casa da av? Espero que as coisas melhorem para ela. No d para acreditar que o Erik a tenha largado daquele jeito. Pensei 
que ele gostasse dela. Pensei que a vida dela fosse to legal...
      Cris resolveu parar de pensar em Alissa e foi dar uma olhada no guarda-roupa. Ainda havia roupas novas que no tinha vestido. Mas quanto mais olhava, mais 
desanimada ficava.
      - No tenho nada pra vestir! reclamou alto, jogando-se na cama. Acho que vou usar o mai e uma camiseta de novo. Estou cansada de usar a mesma coisa de sempre.
      - Cris?
      A batidinha de unhas postias na porta j era conhecida.
      - Cris, querida?
      - Entre, tia Marta.
      - Com quem voc estava conversando, meu bem?
      - Comigo mesma.
      - Voc ainda est de camisola?
      - . No consigo achar nada para vestir.
      - Talvez estejamos precisando fazer mais compras. Mas no agora. Tenho uma reunio. Que tal a gente ir ao shopping do South Coast Plaza hoje  tarde? Bob poderia 
nos encontrar l para jantarmos juntos. Alm do mais, eu queria comprar algo para voc usar no seu passeio de aniversrio.
      - O que voc est tentando me dizer, tia Marta?
      - Nada, absolutamente nada, respondeu com uma risadinha forada. Simplesmente achei que seria bom fazer algumas compras para seu aniversrio.
      Marta olhou para o relgio cravejado de brilhantes.
      - Cus! Preciso ir! Estarei de volta l pelas duas e meia, poderemos sair logo depois.
      Olhou novamente para Cris e disse:
      - Voc deveria se aprontar depressa. No  educado deix-lo esperando.
      - Deixar quem esperando?
      Marta olhou-a com uma expresso de interrogao.
      - Quer dizer que eu no lhe disse?! Jogou a cabea um pouquinho para trs e riu de uma piada que s ela estava entendendo. Cus, querida! Onde estou com a 
cabea? Subi para lhe dizer que o Ted est esperando voc na sala de televiso.
      -  mesmo? disse Cris abafando um grito. Por que voc no falou antes? O que  que vou vestir?
      - Preciso ir, meu bem. Divirta-se. Vejo voc l pelas duas e meia.
      Saiu abanando a cabea e rindo consigo mesma.
      - Diga a ele que j vou descer, gritou Cris.
      Correu para vestir um short e uma camiseta e se olhou rapidamente no espelho. Pelo menos arrumei o cabelo e me maquiei, pensou, procurando animar-se antes 
de descer a escada.
      - Oi, Ted; me desculpe! Deixei voc esperando! Minha tia no me disse que voc estava aqui. Isto , s disse agora h pouco. Seno eu no teria deixado voc 
sozinho aqui tanto tempo.
      - No tem importncia. Voc gostaria de ir  Disneylndia? Ted no era mesmo de fazer rodeios.
      - Agora? perguntou Cris com um salto.
      - No, no dia do seu aniversrio.
      - Srio?! Claro que sim! Ser divertido. Adoraria!
      De repente Cris parou um pouco e, diminuindo visivelmente o entusiasmo, indagou:
      - Quem mais vai?
      - S voc e eu, disse o rapaz. A no ser que queira levar mais algum.  seu aniversrio.
      Cris ruborizou, envergonhada por haver pensado que ele estivesse planejando levar outra "Kombi Nada" repleta de gente para a Disneylndia. Claro que no; era 
uma ocasio especial: o aniversrio dela. Ele deve ter pensado nisso.
      - No, respondeu ela delicadamente. No quero convidar mais ningum. A menos que voc queira.
      - No. Poderemos comemorar juntos o nosso aniversrio. Voc faz quinze anos e eu completo um ano no Senhor.
      - O qu?
      - Lembra daquela noite na praia, depois da festa do Sam? Eu lhe disse que havia-me tornado cristo no ano passado, no dia 27 de julho, e foi a que voc me 
contou que era o dia do seu aniversrio. Voc faz quinze anos e eu fao um!
      Ted ergueu o queixo quadrado e cruzou os braos. Cris achou-o um pouco parecido com o tio Bob quando queria brincar com ela.
      - Est com fome? Quer comer alguma coisa? perguntou. Ainda no tomei caf, e acho que meu tio est na cozinha. Quem sabe a gente descola um "rango"?
      Encontraram Bob na cadeira de sempre,  mesa da cozinha, molhando um donut* numa xcara de caf fresquinho.
      
      *Rosquinha frita, de massa semelhante  do sonho. (N.E.)
      - Bom dia! cumprimentou ele. Vocs querem uns donuts?
      - De onde vieram estes? perguntou Cris.
      - Quando sua tia saiu hoje de manh, disse que eu precisava de exerccio. Ento andei a passos rpidos at a confeitaria, disse ele, dando uma piscadela para 
a sobrinha. Preciso de ajuda para destruir a "prova do crime", entendeu?
      Ted e Cris riram e sentaram-se  mesa.
      - Quais os planos para hoje? perguntou Bob.
      - Eu e Marta devemos ir ao South Coast Plaza por volta das duas e meia. Voc dever encontrar-nos l pra jantarmos juntos.
      - Ainda bem que perguntei. Minha diretora social no tinha me revelado seus planos para o fim da tarde. Deve ter sido uma daquelas coisas que ela esquece de 
falar, disse com amabilidade.
      - , concordou Cris, lembrando do incidente no quarto, no comeo da manh. Ela anda um pouco esquecida ultimamente.
      - Sabe, so apenas onze horas. O que vocs acham da idia de dar um passeio em nossa bicicleta de dois lugares? Ns a compramos o ano passado, pensando em 
fazer exerccio, mas s usamos duas vezes.
      - Legal! Voc quer, Ted?
      - Claro, vamos at a ilha Balboa.
      Bob ajudou-os a tirar a geringona da garagem e deu-lhes um empurro para a rua. Cris acenou rapidamente e colocou a mo de volta no guido, para ajudar a 
firmar o monstrengo capenga.
      - Ainda bem que voc est indo na frente, disse ela a Ted. No tenho muita coordenao em coisas desse tipo.
      Ted dirigiu at o cruzamento. Cris tentava manter o equilbrio, evitando olhar para os carros velozes  sua volta. Pedalaram at a balsa da ilha Balboa. Ela 
levava apenas alguns carros de cada vez, mas, como eles eram os nicos de bicicleta dupla, logo chegou a vez deles.
      Ted tirou umas moedas e pagou a taxa. O barco partiu com um movimento brusco, fazendo muito barulho durante a rpida travessia at a ilha Balboa.
      - Olha quanto barco  vela! exclamou Cris, achegando-se mais a Ted.
      - Aquele  um catamar* legal, disse Ted.
      * Embarcao de esporte ou de recreio, de pequeno porte. (N.E.)
      
      - Onde?
      - Est vendo, l adiante? apontou Ted. Cris aproximou-se, roando o ombro no dele. No sabia o que era um catamar, e no queria perguntar para no parecer 
boba. De qualquer forma, estava achando timo ter uma desculpa para ficar mais juntinho do rapaz.
      Seria to bom se ele me abraasse! pensava.
      Mas antes que Ted pudesse se mexer, a balsa j estava ancorando no cais, e eles desceram com a bicicleta. Subiram as ruas estreitas, repletas de chals. Cris 
gostou das janelas com vitrais coloridos e das flores de cor viva nos jardins.
      - Quer um "esquim" Balboa? perguntou Ted, virando um pouco a cabea.
      - Nunca comi, nem sei o que , admitiu Cris. Pararam numa barraca de sorvetes e Ted disse:
      - No se pode vir a Balboa sem tomar um "esquim" Balboa. O que voc quer no seu? Confeitos? Castanhas? Chocolate granulado?
      Cris olhou as gravuras dos diversos tipos de "esquim" no cardpio. A fila atrs dela estava longa e a balconista parecia impaciente.
      - No sei.
      Ela detestava quando se sentia assim, perdida, insegura. Devolveu a deciso para Ted.
      - Eu aceito o que voc escolher.
      Ted pediu dois "esquims" com castanhas na cobertura de chocolate. Cris no gostava de castanhas, mas no disse nada. Andaram pelas butiques da rua principal, 
curtindo o "esquim".
      Cris tomava o "esquim" sem prestar muita ateno ao que viam nas vitrines. Sentia-se abatida pela frustrao que experimentara alguns momentos antes.
      Por que tenho tanta dificuldade para tomar decises simples? Por que sempre perco a confiana em momentos-chave e ajo como uma completa idiota? Ser que o 
Ted percebe a minha insegurana? Ser que ele gosta de mim? E a Trcia? Por que a Trcia  to mais auto-confiante e alegre do que eu? Por que no consigo ser como 
ela?
      Veio-lhe ento um pensamento estranho.
      Como posso ser fiel a mim mesma como o tio Bob falou, se no gosto de mim do jeito que sou?
      Cris reconheceu que sempre queria ser igual a outra pessoa. Primeiro Alissa, agora Trcia. E em casa sempre tinha imitado a Paula.
      Paula! pensou. Se a Paula me visse agora! Ainda bem que ainda no mandei aquela carta. Tenho tanta coisa pra contar!
      - Que tal? Gostou? perguntou Ted, apontando para o "esquim".
      - Gostei.
      Na verdade, ela havia comido quase tudo e nem notara o sabor. O sol estava derretendo o chocolate, e ela tentou lamber os pingos antes que cassem em sua roupa.
      Como estou sendo chata, pensou Cris. Quase no conversei com ele. Espero que o Ted no fique pensando que no gosto dele!
      - Ento, falou ela, percebendo que j estavam voltando para pegar a bicicleta. O que voc conta de novo?
      - No h muito, disse ele, montando a geringona e dando um empurro para comear a pedalar. E voc? Dizendo isso ele sorriu e, do ngulo em que estava, Cris 
via pequenas covinhas na pele bronzeada do seu rosto. No as havia notado antes.
      - Isso  divertido! Obrigada por ter vindo comigo aqui, disse Cris, aproximando o rosto dos seus ombros largos, para que ele pudesse ouvi-la melhor.
      - De nada, respondeu ele, virando-se novamente. Vamos voltar pedalando, passando pela ponte em vez de pegar a balsa, tudo bem?
      - Claro!
      Cris inclinou-se para a frente para ver melhor suas covinhas. Imaginou como seria sentir o rosto dele encostadinho no seu, e um beijo dele em seus lbios, 
como aquele que Sam dera em Alissa.
      Sua imaginao voou um pouco mais. E se o Ted realmente comear a gostar de mim, e comearmos a namorar? Ser que ele vai agir comigo como o Erik agiu com 
a Alissa? O que vai acontecer nesses prximos dias, antes de eu voltar para casa? Ser que vou quebrar minha promessa a meus pais e acabar fazendo algo de que me 
arrependa mais tarde?
      Ted disse alguma coisa, mas ela s ouviu o nome "Trcia". Cris cerrou os dentes e disse:
      - O qu? No ouvi o que disse!
      - Perguntei se voc sabe as horas? Prometi buscar a Trcia no trabalho s duas.
      Trcia! Por que ele tinha de falar nela?
      Sentiu-se tola por pensar em ficar mais prxima de Ted quando, na verdade, ele nem estava pensando nela. Ficou emburrada o resto do caminho pra casa. Ted pareceu 
no se importar com seu silncio.
      Quando chegaram em casa, ele ajudou a colocar a bicicleta de volta na garagem. Sorriu como se fosse dizer algo engraado, mas acabou dizendo somente "at mais 
tarde", e correu para a "Kombi Nada".
      Cris ficou olhando a "Kombi Nada" descer a rua. Quando a traseira bege desbotada desapareceu no trnsito, ela murmurou: "At mais".
      Entrando pela porta dos fundos, chamou os tios, mas no havia ningum em casa. Procurou na geladeira algo pra comer e decidiu-se por um pedao de frango grelhado 
e um copo de leite.
      Ento sentou-se, firmou o cotovelo na mesa da cozinha, apoiou o queixo na palma da mo e ficou ali parada um tempo. A onda de depresso - que j conhecia 
bem - comeou a envolv-la. Uma hora l em cima, outra hora l em baixo. Sua vida parecia feita de ondas, sempre indo e voltando. Como seria bom se pudesse nivelar 
tudo, deixar tudo igual... encontrar uma base estvel em que pudesse se firmar.
      Tendo passado as duas ltimas horas com Ted, deveria estar feliz. Alm do mais, ia com ele  Disneylndia no seu aniversrio, na semana seguinte.
      Mas estava na pior. Desde o incio das frias tinha conseguido tudo que queria e mais um pouco. Havia comprado muita roupa nova e agora ainda ia fazer mais 
compras! Nunca tivera antes tantas oportunidades de passear e fazer coisas to interessantes. Vinha sendo super paparicada pelos tios havia semanas, mas simplesmente 
no se sentia feliz e no entendia por qu.
      Olhou o relgio. Quinze para as trs, e Marta ainda no estava em casa. Tpico.
      Vagou um pouco pela casa, olhando os enfeites caros. As compras nunca acabam para minha tia, pensou. De repente lembrou-se da letra da msica de Debbie Stevens: 
"Voc no o encontra em lojas".
      "Ummm." De repente Cris comeou a compreender algo: Talvez a Debbie esteja certa. Talvez eu esteja mesmo precisando de Jesus. Entretanto no queria pensar 
sobre aquele assunto naquele momento. Precisava sair daquela depresso. Ficar pensando na morte de Jesus na cruz, e no fato de ser pecadora, certamente no iria 
ajud-la a melhorar seu estado de esprito.
      Estava subindo a escada, tentando resolver que roupa iria vestir, quando a porta da frente abriu-se de repente.
      - Cristina, querida, voc est pronta?
      Cris voltou do seu marasmo e gritou de cima da escada:
      - J vou descer!
      Correu para o quarto e, em tempo recorde, vestiu uma saia jeans e uma das blusas que ainda no havia usado. Nem se olhou no espelho; desceu as escadas correndo 
e disse:
      - Estou pronta!
      Marta estava ao lado da porta com um mao de cartas na mo. Olhou para Cris e franziu a testa em desaprovao.
      - O que  que voc fez com seu rosto, menina?!
      - Meu rosto? No sei.
      Cris correu para o espelho do lavabo e Marta a seguiu. Tinha sujado o rosto com o chocolate do "esquim" que deixara nele uma mancha que ia desde o lbio superior 
quase at a orelha!
      Cris caiu no choro.
      - No! No! No! No! Por que sou to boba assim? Certamente o Ted me viu deste jeito. Por que no disse nada?
      Marta, achando aquela exploso exagerada, repreendeu-a:
      - V se isso  modo de uma mocinha agir? Acalme-se. Vamos sair para fazer compras, e voc tem de subir e arrumar a maquiagem. A propsito, essa camisa no 
combina bem com a saia.
      Cris subiu para recompor o rosto conforme as instrues da tia, murmurando e fungando.
      Apesar da confuso, chegaram ao shopping do South Coast Plaza antes das quatro. Mas Cris, depois da repreenso da tia, no estava conseguindo animar-se com 
as compras.
      - Cris, voc no acha esta saia uma gracinha? disse Marta, mostrando uma saia preta de brim.
      - No. Voc se lembra de que preto no  uma de minhas cores? Mas gosto desta, disse, erguendo uma saia de listas vermelhas e brancas. No  linda?
      No era to bonita assim, alm de ser algo que Marta jamais teria escolhido. Depois de vrias provas, Marta sentou-se numa cadeira e declarou resignada:
      - Depende de voc, Cris. Escolha o que voc quiser, o que voc gostar.
      Ento Cris fez algo que nunca fizera antes: correu a mo pelas roupas expostas e pegou tudo que lhe chamava a ateno, levando em seguida para provar. Se ficava 
bem, pedia a tia para comprar. No olhou nenhuma etiqueta de preo. Talvez a pilha de roupas somasse mais de quinhentos dlares. Cris sabia que o que estava fazendo 
era uma bobagem, mas era o nico jeito de se vingar da tia.
      O total foi mais de setecentos dlares, mas Marta j ia pagar tudo com o carto de crdito, sem pestanejar. De repente Cris sentiu um mal-estar tremendo. Setecentos 
dlares! No tinha coragem. Alm do mais, quem realmente pagava as contas era o tio Bob.
      - Espere, disse  vendedora. Eu... bem... acho que eu peguei algumas peas no nmero errado. Voc pode cancelar essa conta? Seria horrvel chegar em casa e 
descobrir que algumas coisas no me servem.
      Marta parecia muito irritada.
      - Bem, ande depressa querida. Precisamos encontrar com seu tio daqui a meia hora.
      Cris entrou no provador, e a vendedora acompanhou-a, carregando aquele monto de roupas. Fechou a porta e escolheu apenas cinco peas, todas combinando entre 
si. Eram as que ela tinha gostado mais. Uma camiseta estava at em liquidao.
      - Aqui, disse Cris, entregando  vendedora uma pilha bem menor de roupas. S vou levar isso.
      - Tem certeza?
      - Sim.
      Marta no abriu o bico. Ficou em silncio at encontrarem com Bob no restaurante.
      - Muito bem! exclamou ele, olhando as sacolas. Parece que vocs tiveram um bom comeo!
      Marta concordou friamente.
      - Sim. Se o gosto de sua sobrinha por roupas fosse to forte quanto a sua impulsividade, estaramos muito bem!
      O comentrio atingiu Cris como um vento gelado. Era isso! Algo deu um dique. Na mente de Cris, a tia Marta transformou-se de uma ricaa sofisticada num pavo 
altivo e egocntrico. E da, se ela podia comprar tudo que queria? Ela no tinha corao. Havia demonstrado repetidas vezes que no tinha a menor considerao pelas 
pessoas. Vivia abusando do tempo, e dos sentimentos daqueles com quem se relacionava.
      Cris queria retrucar: " Estou cansada de ver voc tentando fazer de mim a filhinha perfeita que voc nunca teve. No preciso mais do seu dinheiro e dos seus 
sermes. Quero ser apenas Cristina Juliet Miller, de Wisconsin. E se isso no bastar pra voc, ento, sinto muito!" 
      Entretanto disse apenas:
      - Vou querer um fil. Pode ser, tio Bob?
      - Claro, querida. O que voc quiser.
      Marta dirigiu-lhe um olhar de desprezo e pediu uma mini-salada da casa.
      Embora Cris no estivesse com muita fome, comeu tudo, inclusive uma batata assada com montes de manteiga e creme de leite. Depois ainda pediu um sundae de 
caramelo s para provar  tia que ela era dona do prprio nariz.
       noite, porm, no conseguia dormir, sentindo dor de barriga, e ficou se perguntando se havia realmente conseguido provar alguma coisa.
      *****
      Nos dias que se seguiram, continuou aproveitando todas as oportunidades de rebelar-se, em silncio, contra as tentativas de manipulao da tia. Eram coisinhas 
sutis e mnimas, que no comeo Marta nem notou. Mas, para Cris, cada insolncia sua intensificava o desprezo que sentia pela tia.
      Uma tarde, quando voltou da praia, atendeu o telefone e anotou um recado para Marta, sobre uma reunio especial no centro cvico, naquela noite s sete. Deixou 
o recado escondido, de propsito, at s seis e meia. Ento colocou-o em cima da escrivaninha e perguntou:
      - Voc pegou o recado ao lado do telefone, no pegou?
      No era de seu feitio ser vingativa daquele jeito, mas quanto mais tentava segurar as frustraes, mais sua amargura se manifestava. Havia convivido com Marta 
tempo suficiente para saber o que a incomodava, e procurava fazer tudo que podia para aumentar sua irritao. Comia na frente da televiso, deixava a toalha de praia 
cheia de areia no cho do quarto e colocava o telefone no suporte com o fio do lado errado, cruzando Sobre os botes da frente. Alm disso procurava, sempre que 
possvel, fazer duas coisas que a irritavam mais: ficar encurvada, com a coluna torta, e roer as unhas.
      Como uma fera ferida, Marta recuou. Parou de tratar a sobrinha de maneira agressiva, passando a fazer-lhe apenas alguns lembretes gentis.
      Quando voltava da praia uma tarde, Cris encontrou a tia na cozinha.
      - Chegou uma carta para voc. Est na sua cama, disse Marta.
      - timo.
      Cris encheu a mo de biscoitos com "gotas" de chocolate, uma receita secreta de seu tio, e foi para o quarto.
      -  Cris, gritou Marta. Por que no deixa sua toalha aqui? Eu jogo na mquina de lavar para voc. E talvez seja bom voc levar um guardanapo de papel, acrescentou 
timidamente.
      Cris enfiou um biscoito inteiro na boca, ignorando as sugestes da tia e procurando sufocar o sentimento de culpa que lhe sobrevinha por estar agindo de modo 
to insuportvel. No gostava de agir daquela maneira, mas como j havia comeado era mais fcil continuar do que parar. Nunca fora boa em pedir desculpas. Especialmente 
se a outra pessoa estava recebendo o que merecia.
      Seu quarto, claro e refrescante, estava to convidativo aquela tarde... Encontrou a carta na cama, como a tia dissera. Para sua surpresa, era de Alissa. Leu 
e releu a carta, percebendo como sua vida era boa. A vida de Alissa parecia to triste e sem esperana!
      Querida Cris,
      Cheguei  casa de minha av sem maiores dificuldades.
      Quero agradecer a voc e a seu tio por terem me levado ao aeroporto e pela sua ajuda na arrumao das malas.
      Minha me est firme no programa de controle do alcoolismo, e o diretor da clnica telefonou ontem para dizer que, se ela continuar a melhorar, ter alta dentro 
de poucas semanas.
      Vou ficar com minha av at o comeo das aulas, e depois ela vai me mandar para um internato. Meu endereo est no envelope. Se voc puder, escreva-me. Seria 
to bom receber uma carta sua...
      Tenho pensado muito em voc, no Ted, no Sam e no Erik. Estou sentida pelo modo como agi em Nevvport, especialmente porque foi to pouco tempo... Sei que lhe 
disse umas coisas horrveis sobre o Sam, na praia aquele dia. S posso dizer que no sei por que as pessoas morrem, e no sei como encarar isso. Queria encontrar 
um pouco de paz, em vez de toda essa dor que existe em minha vida. Minha av arranjou um psiquiatra pra mim. Tenho consulta trs vezes por semana para tratar dessas 
coisas. Ela me probe de sair sozinha.
      Bem, no era minha inteno narrar a "triste histria da minha vida". S queria lhe dizer o quanto apreciei seu apoio. Gostaria de me corresponder com voc.
      Queria que minha vida fosse como a sua: doce, inocente e livre, com uma famlia de verdade, numa fazenda do Wisconsin. Parece um sonho.
      Por favor, diga ao Ted que mando um abrao pra ele. Voc tem sorte de t-lo!
      Sua amiga,
      Alissa.
      Cris chorou vrias vezes enquanto lia a carta. Como estava to longe de Alissa, a nica coisa que podia fazer era escrever. Mas acabava jogando fora toda carta 
que comeava. Queria de alguma maneira animar a amiga, dar-lhe alguma esperana, mas no encontrava palavras. Tudo que tentava dizer parecia to artificial.
      Alm disso, cada vez que lia aquela parte que dizia que tinha sorte por ter o Ted, sentia-se perturbada. Ela no "tinha o Ted". Ningum tinha o Ted. As coisas 
com ele continuavam no mesmo vaivm de sempre. Eles se viam na praia todo dia, mas quando parecia que a situao ia melhorar, Trcia aparecia, e ela acabava ficando 
em segundo plano.
      Alm do mais, o Ted tinha uma poro de amigos surfistas, com os quais Cris no conseguia se entrosar. Alguns eram super esquisitos. Parecia at que haviam 
levado um bocado de pancadas na cabea com a prancha, ou coisa parecida.
      
Naquela manh um dos caras, quando saa da gua, disse:
      - Passei batido!
      Sacudiu a cabea de cachos loiros, respingando gua em Cris, c continuou:
      - T doido, cara! S tem caixote!
      Da ele colocou a prancha debaixo do brao e foi embora murmurando:
      - T um lixo!
      Cris virou-se para Trcia e perguntou:
      - Ele estava falando comigo? Acho que preciso de um intrprete!
      - As ondas no esto boas. Ele vai para casa, interpretou Trcia.
      - Ah! Ainda bem que o Ted no fala assim, disse Cris, olhando para o mar, observando Ted surfar com sua prancha alaranjada.
      - O Ted fala a lngua de todo mundo. Ele tem seus amigos surfistas, mas anda com a turma mais "certinha" tambm.
      - Voc o conhece bem, no ? comeou Cris.
      - Acho que sim.
      Parecia estranho que Trcia fosse sempre to amigvel. Cris tinha de esforar-se para manter a calma e trat-la bem. Ela era to amvel e autntica... Por 
que ser que ela no lutava para conquistar a ateno do Ted? Finalmente, Cris ousou perguntar:
      - Trcia, voc gosta do Ted?
      - Sim. Gosto muito.
      - Ento por que no fica com cime quando ele sai com outras garotas? perguntou.
      Aproveitando a oportunidade, acrescentou: Amanh, por exemplo, ele vai me levar  Disneylndia para comemorarmos juntos meu aniversrio.
      -  mesmo? perguntou Trcia, sem um pingo de inveja. Espero que vocs se divirtam bastante! E se eu no te encontrar amanh, feliz aniversrio.
      - Obrigada, murmurou Cris, chateada por ver sua pergunta ficar sem resposta. E isso no perturba voc? concluiu.
      - No, nem um pouquinho. Eu e Ted somos amigos desde o ano passado. O mesmo cara nos conduziu a Cristo aqui na praia.
      - O que voc quer dizer com "conduziu a Cristo"?
      - Que ele nos explicou como nos tornarmos cristos.
      - Voc quer dizer que ele explicou que a gente deve pedir perdo pelos pecados e pedir que Jesus entre em nosso corao indagou Cris.
      - ! Voc tambm j fez isso?
      - No, no exatamente, mas sou crist mesmo assim, replicou ela, caindo na defensiva.
      - Bem, sei que pode parecer duro, disse Trcia com meiguice mas ningum pode tornar-se cristo simplesmente por ser bom  por isso que Cristo morreu por...
      - Eu sei de tudo isso! interrompeu Cris, mas no entendo por que vocs ficam falando tanto em pecado.
      - Porque  ele que nos separa de Deus. Enquanto estivermos separados dele, nunca poderemos ser como ele quer que sejamos.
      - No estou entendendo o que voc quer dizer.
      - Voc nunca sentiu culpa por alguma coisa que fez e depois desejou apagar tudo e comear do zero?
      Cris relembrou a semana que passara e o sentimento de culpa que tivera por causa de seu comportamento para com a tia.
      - J.
      - Voc no precisa viver com esse sentimento de culpa. Pode livrar-se de todo esse incomodo; basta confessar a Deus seu pecado e pedir que Jesus entre na sua 
vida e seja seu Senhor.
      Cris sentia-se meio sem jeito. Invejava o jeito to livre de Trcia e a maneira como ela falava sobre Deus. Era como se ele fosse para ela um amigo chegado, 
no uma fora distante e poderosa, pronto para castigar qualquer um que fizesse alguma coisa errada.
      - Voc d a impresso de que voc e Deus so to amigos, disse Cris, comeando a abaixar as defesas.
      - E ns somos. Grandes amigos.
      - Sei no. Sempre pensei que Deus estivesse l em cima, e eu aqui embaixo, e que era minha obrigao ser uma pessoa boa. Enquanto conversavam, Ted chegou do 
surfe todo molhado e sacudiu-se espirrando gua nas garotas. Elas comearam a gritar e a rir.
      - Cuidado! Est molhando minhas pernas! protestou Cris. Agora vou ter de passar mais loo de bronzear.
      - Ah, no quer se molhar, hein? disse Ted com um olhar maroto.
      Cris viu de relance Trcia acenando um rpido "sim" para ele. Antes que pudesse se dar conta do que estava acontecendo, Ted agarrou-a pelos punhos, puxou-a 
para cima e comeou a lev-la na direo da gua.
      - No! No! gritou ela. Eu entro sozinha!
      Assim que ele soltou seus pulsos, ela correu na direo contrria, rindo e olhando para trs para ver se ele a seguia. Douglas estava vendo tudo e agarrou-a 
pelo brao, impedindo-a de fugir.
      - Segura ela! gritou Ted. Cris esperneava:
      - No! Me solte!
      - Pronta para um caldo? perguntou Ted, agarrando seus tornozelos.
      - Parem!
      Cris tentou soltar-se, mas com Douglas segurando as mos e Ted segurando os ps, no dava para escapar. Eles a levaram at a beira d'gua.
      - Um, dois, trs!
      Jogaram-na sobre uma onda espumante. Ensopada, ela levantou-se e gritou:
      - Ainda pego vocs! Vocs me pagam! Douglas tinha corrido para a areia, mas Ted permaneceu na beira da gua.
      - Olha gente, ela t querendo surfar! brincou Ted. 
      Levantando bem os joelhos, foi caminhando at onde Cris o esperava com as mos na cintura.
      - Vamos! Mergulhe! gritou Ted.
      Ento eles furaram a onda que se aproximava. Nadaram at o ponto em que as ondas comeavam a formar-se, e, por mais de uma hora, brincaram juntos na gua.
      Queria que esse dia no acabasse nunca! pensava Cris, enquanto outra onda a levantava e carregava, enchendo-a de prazer. Queria ficar com essa sensao pra 
sempre.
      Cris estava no quarto, deitada na cama, com a carta de Alissa ainda na mo. Via a luz do dia diminuir pouco a pouco e ainda' sentia no corpo o movimento do 
mar. Tambm ainda sentia alegria no s de surfar, mas de estar com o Ted.
      Isso foi hoje. E amanh, quem sabia como seria amanh com o Ted? Um dia na Disneylndia com ele. Seria ruim como o show da Debbie Stevens, ou maravilhoso como 
quando brincavam  juntos no mar? Seus pensamentos foram interrompidos por um, batida na porta.
      - Cris? Era a voz de seu tio.
      - Telefone, querida. So seus pais.
      - Obrigada, tio Bob. Vou atender no seu quarto, t?!
      Os pais de Cris conversaram com ela como sempre costumavam fazer. Sua me fez rodeios para chegar ao ponto que realmente lhe interessava, mas seu pai interrompeu-a 
com palavras rspidas:
      - Voc vai voltar para casa domingo, Cris.
      - Domingo? Quer dizer, neste domingo?
      -  isso mesmo. Este domingo.
      - Mas isso  daqui a trs dias! Eu ia ficar at o final de agosto!
      - No discuta comigo, menina! As frias acabaram. V se no se atrasa para pegar o avio.
      - Mas pai... comeou ela, ouvindo em seguida o clique do outro lado da linha, indicando que ele desligara. Sua me ainda estava na outra extenso.
      - Dei ao Bob as informaes de vo, querida. Ele disse que voc tem se divertido muito.
      - Me, por que eu tenho de voltar pra casa? Cris lutava com todas as foras para no chorar.
      - Simplesmente tem de voltar. No torne as coisas ainda mais difceis para todos ns.
      - O que est acontecendo, me? Houve uma pausa.
      - Ns explicaremos tudo no domingo, quando voc chegar.
      Cris voltou para o quarto arrastando os ps e deitou-se na cama. Queria chorar, mas as lgrimas no vinham. Tudo parecia to sem sentido. Teria de ir embora, 
e no sabia por qu. Ser que era a fazenda do pai? Ser que as coisas haviam piorado financeiramente para eles?
      Ou era ela? Ser que eles a estavam castigando por alguma coisa que tinha feito? Mas ela havia cumprido sua promessa; no fizera nada de que pudesse se arrepender. 
(Ou melhor, ainda no). Pelo menos ainda tinha trs dias pra aproveitar, a comear por amanh, quando iria comemorar seu aniversrio com o Ted.
      Seu aniversrio. Nem seu pai nem sua me lhe desejaram "feliz aniversrio". Quando se deu conta disso, as lgrimas brotaram. Lgrimas de amargura e de raiva.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      O Reino Encantado 
      13
      
      Na manh seguinte, Ted apareceu exatamente s nove. Cris ainda estava procurando suas sandlias novas.
      - No acredito que ele tenha chegado na hora! disse apavorada  tia.
      - Vou conversar com ele. Ande depressa! disse Marta.
      Cris lanou uma ltima olhada no espelho. Gostava muito desse conjunto. Short cor caqui e camiseta cor de pssego, com dez botoezinhos na frente.
      "Na verdade o nome desta cor  camaro.  um dos estilos mais populares de nossa coleo safri", dissera a vendedora.
      E era assim que Cris estava se sentindo hoje: como se estivesse indo num safri selvagem em lugares desconhecidos. Nunca mais teria esse tipo de liberdade. 
Quando voltasse ao Wisconsin, sabia que seus pais iriam regular tudo: maquiagem, namoro, roupas, horrio para chegar em casa. Tinha de aproveitar agora, enquanto 
podia.
      Desceu a escada com passos leves e cumprimentou Ted com confiana. Ted estava vestido da maneira informal de sempre: short de surfista e camiseta num amarelo 
bem vivo, com um logotipo comercial nas costas.
      - Divirtam-se bastante! disse Marta, com um sorriso de aprovao.
      - A que horas vocs voltam? perguntou Bob.
      - A que horas o Sr. quer que a Cris esteja de volta? perguntou Ted.
      - Aproveitem o dia, meninos! disse Bob. Ns s vamos comear a nos preocupar depois de meia-noite.
      - Tchau, disseram os dois, enquanto caminhavam para a "KombiNada".
      Cris parecia que ia estourar de contentamento e empolgao. Ted abriu a porta e l estava Trcia, sentada como uma pedra no banco da frente.
      - Ol, cumprimentou-a Trcia. Feliz aniversrio! Cris descontrolou-se e ficou ali parada.
      -  isso que voc chama de surpresa? Achei que amos s ns dois  Disneylndia, falou rispidamente.
      - Calma. S vou deix-la no trabalho!
      - Ah, desculpe, murmurou Cris, envergonhada.
      - Tudo bem, disse Trcia com relutncia, entregando-lhe um pacote em seguida. Aqui. Isto  para voc. Feliz aniversrio.
      Ted dirigiu at a Sorveteria Hanson em silncio. Cris estava se sentindo mal  bessa. Por que fora estragar o dia daquele jeito?
      - Pode abrir quando quiser, disse Trcia ao descer da kombi. Sinto muito t-la magoado. Eu no queria aborrecer voc.
      - Voc no aborreceu, no, Trcia. Eu estava sendo chata. Me perdoe.
      - No se preocupe, respondeu Trcia, voltando a falar no tom alegre de sempre. Espero que vocs realmente tenham um dia timo! Pensem em mim enquanto eu trabalho 
como escrava com baldes e baldes de sorvete o dia inteiro.
      Rodaram em silncio por alguns quilmetros antes que Cris olhasse para Ted. Seus dentes estavam cerrados, o que fazia seu queixo parecer ainda mais msculo.
      - Voc est bem? perguntou timidamente.
      - Na verdade no.
      -  por causa do jeito como tratei a Trcia?
      - No. Isso  algo que vocs duas tm de resolver. A Trcia no se importa de eu passar o dia com voc. Por que voc se importa de eu dar carona a ela at 
o trabalho?
      - No me importo. Acho que tenho inveja dela em algumas coisas.
      - No h razo para isso. Ela  uma das pessoas mais amveis e atenciosas desse mundo.
      Seu comentrio lembrou-lhe do presente.
      - Ser que devo abrir o presente agora?
      - Claro, pode abrir. Eu j sei o que . Espero que goste. Cris leu o carto escrito com a letra da Trcia:
      Cris,
      Esperamos que isto a ajude a entender tudo que lhe temos falado sobre o Senhor. Feliz aniversrio! 
      Com amor, 
      Trcia e Ted
      O presente  seu tambm? perguntou, rasgando o papel.
      - . Fui eu que escolhi, mas a Trcia fez a capa, o embrulho e tudo o mais.
      Cris tirou o resto do papel e viu que era uma Bblia. A capa era feita de um tecido almofadado cor-de-rosa, com florzinhas brancas e bordado ingls nas bordas. 
Havia duas fitas de cetim cor-de-rosa que funcionavam como marcadores.
      -  linda, Ted. Obrigada!
      No fundo ela desejava que tivesse sido algo mais pessoal. Uma Bblia  o tipo de presente que se recebe de um professor de escola dominical.
      - Ainda bem que voc gostou, disse ele, com um sorriso.
      Colocou uma fita da Debbie Stevens no toca-fitas, abaixou o vidro e aumentou o volume.
      Cris tambm abaixou o vidro do seu lado, curtindo a brisa. Queria comear o dia todo de novo, concentrando-se em aproveitar bem o tempo que passaria com Ted. 
No ia deixar que esse dia escapasse entre os dedos, como havia acontecido com o passeio de bicicleta dupla  ilha Balboa.
      - Eu lhe disse que fui surfar hoje cedo? perguntou Ted.
      - Hoje cedo? No brinca! A que horas?
      - L pelas seis e meia. Meu pai me acordou quando saiu para o trabalho.
      - As ondas estavam boas?
      - No, s lambe-tornozelos. Fiquei l um pouco com minha prancha, mas essa coisa toda com o Sam estava me arrasando. Ns costumvamos madrugar para surfar. 
Desde os oito, nove anos de idade.
      - Mesmo? Eu nunca teria imaginado... Vocs so to diferentes. Quer dizer, eram. Sei l, o que deveria dizer?
      - Tudo bem, eu sei o que voc quer dizer.
      Conversavam bem  vontade e, dentro de pouco tempo, estavam entrando no estacionamento da Disneylndia. Ted entregou uma nota de cinquenta dlares ao atendente 
do estacionamento.
      - No tem uma nota menor? perguntou o homem.
      - Vou ver.
      Cris ficou observando enquanto Ted abria uma carteira abarrotada de dinheiro, chegando finalmente a um bolo de notas de vinte dlares.
      Onde ele arranjou tanto dinheiro? pensou. Talvez a Disneylndia seja mais cara do que eu imaginava.
      - Pronta para entrar no Reino Encantado? perguntou Ted, trancando o veculo. Cris sorriu.
      - timo, disse, guardando as chaves no bolso. Ele  todo seu.
      No porto de entrada, ele pagou os passes para o dia inteiro. Quando estavam entrando, Cris apontou o jardim de flores que formava um desenho do Mickey.
      - Quando era pequena, vi isso na televiso e tentei convencer minha me a plantar nossas flores desse jeito. Ted riu.
      - E ela plantou?
      - No. Eu tentei fazer sozinha com pedras e torres de terra, mas no deu muito certo. Queria ter uma mquina pra tirar fotografias daqui.
      - Nada disso! A gente no leva mquina para a Disney, seno fica parecendo turista, como aquelas pessoas ali.
      Ted apontou para uma famlia. A me grandalhona e as trs crianas gorduchas estavam diante de um barber shop quartet* montado numa bicicleta de quatro lugares. 
O pai se contorcia numa posio hilariante, tentando focalizar a comprida bicicleta. 
      *Quarteto masculino que costuma cantar msicas sentimentais, em estilo antigo e harmonia bem simples. (N.E.)
      Ted e Cris olharam um para o outro, tentando abafar o riso.
      - Devem ser do Meio-Oeste, brincou Ted.
      - Ei! disse Cris, dando-lhe um tapa no brao, de brincadeira Cuidado! Eu sou do Meio-Oeste!
      Ted olhou meio de lado. Suas covinhas apareciam ainda mais enquanto tentava reprimir o riso.
      - Eu sei, disse ele, estendendo-lhe a mo. Vamos l! Vamos dar uma volta em alguns brinquedos!
      Cris deu a mo a ele e comeou a sentir um calor nos dedos que foi subindo pelo brao e espalhou-se pelo corpo todo. No solte! pensou. No solte minha mo 
nunca mais!
      Ficaram meia hora numa fila, conversando e rindo enquanto esperavam para andar de tren. Ted entrou no tren vermelho e sentou-se chegando bem para o cantinho 
e ficando com as pernas prensadas contra os lados.
      - Entre, por favor, pedia o atendente, que estava usando uma bermuda verde e meias at o joelho. Parecia um pastor de ovelhas da Sua.
      - Onde  que eu sento? perguntou Cris.
      - Aqui, disse Ted, indicando o pequeno espao bem  sua frente.
      Por um instante, Cris achou que jamais caberia ali. O atendente segurou seu brao e apressou-a. Ela entrou com cuidado e encaixou o corpo. Estava quase no 
colo do Ted!
      - Estou amassando voc?
      De repente o tren deu um solavanco e comeou a subir o Matterhorn.
      - Recoste-se em mim, disse Ted. T tudo bem. Voc parece pronta pra pular!
      - Estou pensando nessa possibilidade mesmo! admitiu Cris, recostando-se em seu peito.
      Nesse momento ela pde sentir seus msculos e seu calor. Queria tanto que ele a abraasse!
      O tilintar dos trilhos foi ficando mais devagar at quase parar na crista do Matterhorn. Cris s enxergava o cu  sua frente, e o medo ia s aumentando. Ela 
agarrou as barras de segurana do tren, fechou os olhos e deu um grito de terror quando o carrinho desceu em disparada o outro lado da montanha. Que ficar juntinho 
que nada! Deixa o momento de ternura pra depois! O negcio agora era segurar com todas as foras!
      Depois de vrias viradas e descidas fortes, o tren passou ainda pela gua e parou com um solavanco. Outro atendente estendeu-lhe a mo para ajud-la a sair.
      - Voc est bem? perguntou Ted, conduzindo-a para a sada.
      - To. 
      Seu corpo todo tremia, e estava envergonhada por ter gritado.
      - Pronta para a Montanha Espacial? perguntou Ted, com a empolgao de um menino.
      - Que tal beber alguma coisa primeiro? Preciso de alguns minutos para me recuperar.
      Ficaram o dia inteiro passeando, comendo e divertindo-se. Depois de provar algo em cada carrinho de lanche que encontraram, e de experimentar todas as atraes 
na Terra do Amanh, foram para a Terra das Aventuras. Subiram na casa de rvore da famlia Robinson, e, l de cima, avistaram todo o imenso parque de diverses. 
Ted falou de seu sonho de um dia viver numa ilha tropical.
      - Vou surfar o dia todo, comer mamo e mangas e tomar gua de coco, direto.
      - Que extico! E voc vai morar numa casa em cima de uma rvore como essa?
      -  isso a. E vou dormir numa rede.
      - E vai fazer o qu para ganhar dinheiro?
      - Ah, vou trocar colares com os nativos e viver dos produtos da terra.
      - Sabe, voc teria dado um excelente hippie.
      - Provavelmente sim. Meu pai foi hippie.
      - Srio!
      - Sim. Ele conheceu minha me em Berkeley, durante uma marcha de protesto e, na manh seguinte, estavam morando juntos. Isto , depois que saram da cadeia.
      - No acredito!
      -  verdade.
      Depois da casa de rvore, esperaram na fila durante quase uma hora para fazer o passeio dos "piratas do Caribe". Quando voltaram, resolveram entrar na fila 
do restaurante Blue Bayou para jantar. Cerca de meia hora depois haviam conseguido um lugar para sentar.
      Nenhum dos dois estava com muita fome, mas ficaram contentes por terem encontrado um lugar silencioso onde pudessem sentar. Sua mesa estava bem na beirada, 
a poucos passos do ponto em que os barcos dos piratas partiam. Cris ficara muito impressionada com o incessante piscar dos vaga-lumes artificiais.
      - No  relaxante? Sinto-me como que transportada para outro tempo e lugar. Esses vaga-lumes, ento! So inacreditveis! Eles so artificiais mesmo?
      - Claro! respondeu Ted sorrindo. Parecem to verdadeiros, no ? E a, j sabe o que quer pedir?
      O pnico que geralmente sentia nesse tipo de situao no apareceu.
      - Acho que o frango  uma boa pedida, mas, pra dizer a verdade, no estou com fome.
      Demoraram para comer e, quando o garom trouxe a conta, Ted pagou com uma nota de cinquenta dlares. Cris pensou sobre o dia. Ted havia jogado dinheiro para 
todos os lados, como se fosse um jogo de Banco Imobilirio. Pagou tudo, inclusive um conjunto de moletom da Minnie, um adesivo com a palavra Disneyland e um ursinho 
Puff, de pelcia.
      Ted guardou o troco no bolso e disse:
      - Bem, e agora, o que quer fazer?
      - Vamos dar uma volta em mais alguns brinquedos. Depois quero comprar uma lembrana para o meu irmozinho.
      Ted ficou segurando sua mo na sada do Blue Bayou, enquanto caminhavam pela praa New Orleans. Ela queria tanto que suas mos no estivessem suadas! Ser 
que o Ted notaria? A mo dele parecia to forte e segura. Era muito agradvel sentir-se prxima a ele e segura, mesmo em meio  multido.
      - Ei, que tal um daqueles para o seu irmozinho? disse Ted, apontando para uma pilha de chapus de Mickey numa vitrine.
      Eles entraram e experimentaram todos os chapus, rindo bastante um do outro. Finalmente resolveram comprar um chapu preto de pirata, com uma imensa pena azul.
      - Davi vai gostar muito deste! Espero conseguir levar para casa sem amass-lo.
      - Quando voc vai voltar? perguntou Ted, quando estavam na fila para entrar no "Cruzeiro da Selva".
      - Isso  uma coisa que eu precisava lhe falar, disse Cris, apertando um pouco mais a mo do Ted. Meus pais telefonaram ontem  noite e me disseram que tenho 
de voltar imediatamente. Vou embora no domingo.
      - Domingo agora? Depois de amanh?
      - . 
      - Mas por qu? perguntou Ted. As aulas s vo comear daqui a mais de um ms. Eu s vou pra casa da minha me no dia primeiro de setembro.
      - Eu sei, mas acho que as coisas no esto l muito legais, e meus pais querem que eu esteja em casa para passarmos juntos pela crise.
      - Mas qual  o problema?
      - Bem, s consigo imaginar que seja alguma dificuldade com a fazenda. Eu lhe falei que meu pai  fazendeiro, no falei? Sei que no  nada to interessante 
quanto um hippie regenerado... Mas nos ltimos trs ou quatro anos no temos ido muito bem financeiramente, e meu pai j vendeu uma boa parte da nossa terra. Acho 
que deve ter acontecido alguma coisa depois que sa de l, embora ainda no saiba exatamente o qu. S sei que eles querem que eu volte imediatamente.
      -  uma pena.
      - Vou sentir sua falta, Ted. Gostaria que voc me escrevesse ou que a gente mantivesse contato de alguma maneira.
      - Sinceramente, no sou muito de escrever.
      - Bem, Tallahassee no  to longe do Wisconsin quanto a Califrnia! Estou certa? Ted riu de sua lgica.
      - No sei.
      Haviam chegado ao princpio da fila e entraram no barco. O guia, com roupa de safri, recomendou aos passageiros que no colocassem as mos para fora do barco 
quando estivesse em movimento, devido aos animais selvagens que encontrariam  frente.
      Ted colocou brao no encosto do assento:
      - Esse era o meu passeio predileto, quando era garoto.
      Parecia um menino agora, curtindo todos os sons daquela selva artificial. Dava at pra imagin-lo balanando-se em um cip... Voc Tarzan, eu Jane... sua mente 
vagava, criando um romance na selva.
      - Logo  frente, disse o piloto ao microfone, esto os hipoptamos selvagens. Mas no tenham medo, minha gente. Eles s so perigosos quando mexem as orelhas!
      Cris virou um pouco a cabea para olhar para os hipoptamos selvagens que surgiam na gua, alguns metros adiante. O maior abriu a boca e comeou a mexer as 
orelhas.
      - Oh, no! Minha gente, ele est mexendo as orelhas! O piloto pegou um revlver de espoleta e atirou rapidamente no animal. Assustada, Cris gritou e agarrou-se 
ao Ted.
      O casal idoso, ao lado deles, comeou a rir quando o netinho passou a mo em Cris e disse:
      - Chora no, moa. Monstro foi embora!
      Todo mundo no barco ficou olhando, enquanto Cris se afastava de Ted, que estava muito envergonhado. O piloto aproveitou a ocasio para dizer:
      - Est tudo bem, minha gente. Na verdade, ns a contratamos para vir e acrescentar um pouco de empolgao  verso Disney do Barco do Amor.
      Todos riram. Cris estava envergonhada, mas riu tambm. Ted colocou o brao em seu ombro e sorriu tranqilo; um sorriso super significativo para Cris. Seus 
olhos pareciam dizer-lhe algo profundo... ou ser que no?
      Foi a que Cris comeou a pensar se ele iria beij-la quando a deixasse em casa. Distraiu-se com esse pensamento e quase no conseguiu prestar ateno no que 
estavam fazendo o resto da noite. Nem escutava o que Ted estava dizendo. Retraiu-se preocupada com sua aparncia; imaginando se iria bater o nariz no dele, quando 
se beijassem; em como deveria ficar com a boca... que tortura!
      L pelas nove da noite, pararam perto da Terra dos Ursos, para ver a exposio de fogos de artifcio. Ted colocou o brao em sua cintura, e ela descansou a 
cabea no seu ombro, sentindo as emoes explodirem, enquanto cada exploso de luz rompia no cu da noite.  distncia, viam uma moa vestida de fada "Sininho". 
Presa por um cabo, ela "voava" de cima do Matterhorn, em volta do Reino Encantado, at a Terra da Fantasia.
      Ao sair do parque, fizeram a ltima parada no Emporium, para ver um soprador de vidro fazer uma minscula esttua da fada "Sininho". O vidro derretido parecia 
chiclete transparente, enquanto o arteso o puxava, apertava e retorcia, chegando-o  chama azul do maarico.
      - Que gracinha! disse Cris, quando o arteso terminou e lhe mostrou a estatueta.
      - Voc quer? perguntou Ted.
      - Bem, no sei.
      Cris hesitou. Toda vez que dizia gostar de alguma coisa, Ted tirava a carteira empanturrada de dinheiro e comprava para ela.
      - Com licena, disse Ted  vendedora de vestido longo e avental branco. Podemos comprar a "Sininho" que ele acabou de fazer?
      - Claro.
      Ela pegou a estatueta de vidro e embrulhou em papel de seda, colocando-a numa caixa.
      - Obrigada, Ted, disse Cris, apertando-lhe o brao. Acho muito legal o que voc est fazendo, comprando todas essas coisas para mim. Obrigada.
      - De nada. Quer comer alguma coisa?
      - Acho que no vou conseguir comer mais nada durante uma semana!
      Desceram a rua principal, e Cris notou as luzinhas piscando em todas as rvores.  realmente uma terra de conto de fadas, pensou.
      Tentando equilibrar todas as sacolas de compras, ela se deu conta de que Ted tambm estava com as mos cheias. No havia percebido que fizera tantas compras, 
mas agora as sacolas pareciam pesadas e desajeitadas. Os ps doam, a garganta doa e os braos doam. Se ela fosse em mais algum brinquedo, nem conseguiria gritar, 
de to cansada.
      - Voc quer ver mais alguma coisa?
      - S quero um bom lugar pra sentar.
      - Que tal a "Kombi Nada"?
      - Boa idia.
      Tomaram o trenzinho que rodava pelo estacionamento e sentaram-se tentando equilibrar todas as sacolas no colo. A maioria dos carros j tinha ido embora. O 
estacionamento era muito maior que o parque de sua cidade, l no Wisconsin.
      A viagem de volta para casa foi sossegada. Ambos estavam cansados demais para conversar. Provavelmente Cris teria cado no sono se no fossem as inquietantes 
suposies sobre o momento da despedida. Reprisava mentalmente a cena toda hora. Ser que ele a beijaria? Como seria? Ela deveria fechar os olhos? E se estivesse 
com mau hlito? Quase no estava suportando o suspense.
      Finalmente chegou o momento quando Ted foi com ela at a porta da frente. Era quase meia noite. Seu corao estava em disparada. Engoliu em seco.
      - Obrigada Ted. Este foi o melhor aniversrio da minha vida. Olhou para ele timidamente, esperando para ver qual seria sua reao.
      Ele deu-lhe um abrao apertado.
      - Boa noite, Cris, murmurou ele, afastando-se sem tentar beij-la.
      - Boa noite, respondeu ela, disfarando o desapontamento.
      Ele enfiou as mos nos bolsos e foi para a kombi. De repente, como se tivesse esquecido alguma coisa, voltou. O corao de Cris gelou.
      Ele est voltando! E agora? O que  que eu fao? Ser que vai me beijar?
      - J ia me esquecendo. Toma aqui.
      Ele tirou um bolo de dinheiro do bolso e entregou a Cris.
      - O que  isso?
      -  da sua tia. O que sobrou.
      - Como? No estou entendendo.
      -  o dinheiro que sobrou do que ela me deu para levar voc  Disneylndia. Ns no gastamos tudo, ento acho que voc deve devolver-lhe o resto. Cris empalideceu.
      - Quer dizer que minha tia pediu que voc me levasse, e ainda deu o dinheiro?!
      - Ei, no esquenta no. Foi legal. Ns nos divertimos muito. Agora estou contente que ela tenha me convencido a ir.
      - Ela teve de convencer voc?!
      Cris virou as costas e abriu a porta de sopeto, voando como uma bala escada acima. Entretanto no terceiro degrau tropeou e a sandlia soltou-se de seu p. 
Com a ira de um guerreiro, agarrou a sandlia, jogou-a em direo ao Ted e entrou no seu quarto. Que dia esse no Reino Encantado! E o que dizer do "felizes para 
sempre"? A tia "fada madrinha" na verdade era uma bruxa malvada, e o prncipe encantado acabara de se transformar num sapo!
      
      A Deciso 
      14
      O relgio digital da mesa da cabeceira indicava 12:04. O sol brilhando na janela do quarto estava to forte que parecia berrar. Cris no se sentia nem um pouco 
melhor do que na noite anterior. Havia jogado a sandlia no Ted e atirado o dinheiro na tia, gritando: "Saia da minha vida!" Para completar, ainda atirara um travesseiro 
no tio quando ele a seguiu at o quarto, para tentar conversar.
      Fizeram bem em deix-la dormir, nas ltimas doze horas. Mas no podia continuar escondida na cama; tinha de se levantar e enfrentar o inevitvel. Precisava 
entender-se com a tia e ainda arrumar as malas para pegar o avio na manh seguinte. Contudo quanto mais pensava nessas coisas, mais ela queria afundar-se no travesseiro. 
Alm disso, estava-se sentindo horrorosa. Os clios superiores estavam grudados nos inferiores. Os dentes pareciam cobertos de pipoca caramelada, os olhos inchados 
de tanto chorar, e ainda estava com a roupa com que fora  Disneylndia.
      As sacolas de compras estavam espalhadas pelo cho, do jeito que as jogara na hora da raiva, na noite anterior. Achavam-se repletas das lembranas que Ted 
comprara para ela. Ou melhor, que sua tia havia financiado para que ele comprasse. O quarto estava uma baguna. Ela estava pssima. Sua vida era uma confuso s.        .
      Esse  o problema das exploses temperamentais, dissera-lhe Paula um dia. Quem acaba tendo de arrumar tudo depois  a gente mesmo, e  humilhante.
      O mais humilhante para Cris naquele momento foi ver a Bblia nova aberta como um leque; cara de uma das sacolas. Envergonhada, escorregou da cama e pegou 
a Bblia e se ps a alisar as pginas amassadas. 
      - Desculpe, sussurrou ela.  que no acho nada disso certo. Por que minha tia me fez de boba assim? Por que o Ted concordou em fazer o que ela queria? E por 
que tenho de ir para casa amanh? Agora as coisas nunca vo dar certo entre mim e o Ted.
      Cris percebeu que estava conversando com Deus como se fosse a coisa mais natural do mundo, da mesma forma como vira seus amigos falarem com ele.
      - No sei qual  o meu problema. S sei que estou perdendo o controle das coisas. Parece que tudo ao meu redor est desmoronando. O que foi que eu fiz de errado, 
Deus?
      No silncio que se seguiu, uma lembrana atingiu-a como uma flecha: o pesadelo de semanas atrs. Ao record-lo, todos aqueles sentimentos voltaram, derrubando-a 
como uma onda em toda sua fora. Era como se ela estivesse novamente dependurada na borda de um barco. Os tentculos de algas marinhas estavam se enrolando nela, 
cada vez mais apertados. Estava vivenciando aquela sensao de terror novamente: o momento em que tinha de resolver se entraria no barco ou se deixaria as algas 
pux-la para o fundo do mar. S que desta vez estava acordada, e o sonho agora era a realidade que estava vivendo. No dava para ignor-lo.
      Como o Ted dissera, Jesus era o barco. E se ela quisesse ir para o cu (ou para o Hava, como Ted havia exemplificado), tinha de entrar no barco.
      Cris compreendeu o que tinha de fazer, e teria de ser agora. Ajoelhou-se ao lado da cama, inclinou a cabea e fechou os olhos. Falou alto, mas com voz calma.
      - Deus, eu sei que o que falta em minha vida  voc. Quer dizer, eu tenho ouvido falar de voc minha vida inteira, mas no o conheo como o Ted e a Trcia 
dizem conhecer. E quero conhec-lo pessoalmente. Entra em minha vida, Senhor. Perdoa os meus pecados e entra em minha vida agora mesmo. Prometo que todo o meu corao 
ser seu pra sempre. Amm.
      Abriu os olhos e virou-se para ver seu reflexo no espelho No parecia diferente de quando se levantara da cama: cabelo desgrenhado, roupas amassadas, olhos 
de guaxinim (por causa do rmel manchado). Mas por dentro sabia que havia mudado. Nada de loucura emocional, nada disso. Simplesmente estava limpa. Segura. Feliz. 
Ela sorriu e abraou a Bblia. Acabara de entrar no barco, e a aventura estava prestes a comear.
      A primeira grande onda a enfrentar seria a tia Marta.
      Tomou banho e vestiu-se rapidamente. Encontrou os tios sentados na varanda, tomando ch gelado. Em silncio, Cris passou pela tia e sentou-se na espreguiadeira, 
perto da cadeira do tio. Os dois agiam como se ela no estivesse ali, esperando que ela desse o primeiro passo.
      - Sobre ontem  noite... comeou Cris, esfregando as mos. Eu... eu lhes devo um pedido de desculpas.
      - No, querida, disse Marta, virando-se para ela. Reconheo que eu  que tenho que me desculpar.
      Bob continuou em silncio, mas franziu a testa como se no soubesse o rumo que essa conversa iria tomar.
      - Eu tenho muita culpa nisso tudo, prosseguiu Marta, e no sei se poderei me perdoar por no t-la preparado para sua primeira experincia...
      - Bem, continuou Cris, procurando as palavras certas pra dizer. No  que voc no... quer dizer, acho que eu  que no deveria ter esperado tanto do Ted. 
 que eu pensei que ele queria estar comigo s porque gostava de mim, mas...
      - No, Cris, no se culpe assim. E no culpe o Ted. A culpa  minha. Eu deveria ter previsto isso e t-la preparado melhor.
      - S que di, tia. E me sinto to tola. To usada...
      - Sim, concordou Marta. Os homens podem fazer com que a gente se sinta assim, principalmente na primeira vez...
      - O que voc quer dizer com "os homens podem fazer com que a gente se sinta assim"? perguntou Cris, em tom de guerra. VOC me fez sentir assim, tia Marta!
      - EU a fiz sentir assim? Como  que eu posso t-la feito sentir-se usada?
      - Dando ao Ted todo aquele dinheiro e subornando-o para que me levasse  Disneylndia! Marta encarou-a meio espantada.
      - Quer dizer que todas aquelas lgrimas ontem  noite eram por causa disso?! Os gritos e aquele tumulto todo eram simplesmente porque eu ajudei a financiar 
seu passeio de aniversrio?
      - Sim, respondeu Cris, encarando-a. O que voc pensou que fosse?
      - Nem queira saber o que ela pensou, disse Bob interferindo. Ela no sabe mais como  a inocncia da juventude. Tem assistido a novelas demais. Est com a 
mente desvirtuada.
      - No mesmo, Bob! Eu no gosto quando voc diz essas coisas! Eu realmente estava preocupada, achando que a Cris tivesse tido sua primeira experincia sexual 
com um jovem, sem que eu a tivesse preparado melhor! E estava sentindo-me culpada.
      Cris estava aturdida. Ela preocupada com a possibilidade de Ted beij-la, e sua tia imaginando que eles tivessem ido para a cama!
      - Desde que voc chegou, eu no fiz outra coisa seno inund-la de carinho, continuou Marta. Tenho lhe dado tudo que uma moa pode desejar. Seu tio e eu temos 
feito muitos sacrifcios por voc. Se essa  a gratido que recebemos, ento talvez seja melhor mesmo voc ir embora amanh. Quem sabe, assim que estiver em casa, 
valorize mais tudo que compramos para voc!
      Cris teve vontade de correr para a tia, primeiro abra-la e depois bater nela! Como  que ela pode pensar de maneira to distorcida?! Como  que pode torcer 
tanto os fatos, jogando toda a culpa em cima da sobrinha? Contudo em parte Marta estava certa. Cris aceitara facilmente todas as roupas, os jantares em restaurantes 
e os passeios.
      - Tia Marta, comeou Cris com cuidado, esperando derreter o olhar gelado da tia. A verdade  que tem algumas coisas que no se pode comprar no shopping.
      Quando acabou de dizer isso, lembrou-se da cano de Debbie Stevens: "Voc no encontra em lojas". Agora entendia o sentido da letra da msica.
      - Mas, acrescentou depressa, estou muito agradecida por tudo que vocs tm feito por mim. De todo corao. Nunca me esquecerei destas frias. Foram as melhores 
frias da minha vida!
      Marta no respondeu. Ficou olhando para o mar, com os lbios apertados de ira.
      - No tenho mais nada para dizer, Cristina.
      - Sinto muito, disse Cris quase chorando. Sinto muito ter sido um problema assim to grande pra vocs.
      - Voc sabe que ns dois gostamos demais de ter voc aqui conosco, disse Bob, estendendo o brao e apertando o ombro de Cris. Por que voc no aproveita sua 
ltima tarde aqui e vai ver seus amigos na praia?
      - No sei se quero ver o Ted! Nem sei o que dizer se ele aparecer!
      - Claro que quer! Alm do mais,  sua ltima chance. Aproveite-a ao mximo, meu bem. A propsito, ser que isto por acaso  seu? indagou mostrando a sandlia 
que ela havia jogado na direo de Ted.
      - Sim, respondeu envergonhada, pegando o calado.
      - Vai sim, sugeriu Marta. Voc precisa acertar as coisas com ele antes de ir embora.
      - Tenho de acertar as coisas com voc tambm, disse Cris com ternura.
      - Est tudo perdoado, respondeu Marta, com um sorriso amarelo.
      Cris correu para a tia e abaixou-se para abra-la. Rindo, meio sem jeito, como se no estivesse acostumada a demonstraes de carinho, Marta abraou-a tambm.
      - Agora v.
      Ela soltou a sobrinha e arrumou o cabelo que havia sado do lugar.
      Vinte minutos mais tarde, Cris estava andando na areia, pensando no que poderia encontrar perto do quebra-mar. Alissa estava em Boston. Sam morto. Trcia provavelmente 
estaria trabalhando. Ted... quem sabia o que Ted estaria fazendo?
      Afinal de contas, pensou, ningum pagou para ele passar a tarde comigo hoje. Por que ele haveria de estar por perto?
      Olhou os surfistas na gua, mas ele no estava entre eles. Aproximou-se da turma que costumava andar com Ted, mas as nicas pessoas que conhecia eram Helen, 
Douglas e Lillian.
      Lembrando-se de como se sentira "sobrando" na noite do concerto, Cris hesitou, sem saber se queria mesmo enfrentar a galera. Mas era tarde demais. Eles j 
a tinham visto e acenavam para que se aproximasse.
      - Oi, Cris, disse Douglas. Voc acaba de desencontrar-se do Ted. Ele passou a manh toda aqui. Disse que vocs se divertiram pra "caramba" na Disney.
      - Caramba? brincou Lillian. Ningum mais fala "caramba" hoje em dia.
      - Mas o Douglas fala! disse Helen com uma risadinha. A Trcia contou que ela e o Ted lhe deram uma Bblia. Isso foi muito legal.
      - Oh! Legai! Essa  uma palavra super moderna, brincou Douglas.
      Helen embolou uma camiseta e jogou nele.
      - , disse Cris, tentando parecer tranqila. Foi muito bom. Ela queria contar-lhes sobre sua deciso de entregar a vida a Cristo, mas no sabia como.
      - Ns vamos fazer um churrasco hoje  noite, anunciou Douglas. Voc no gostaria de vir tambm?
      - Onde vai ser?
      - L naquela churrasqueira, disse Helen, indicando uma churrasqueira logo  frente. Cada um traz alguma coisa, e a gente senta, conversa, canta...  mais ou 
menos assim.  parecido com o nosso grupo da igreja, mas tentamos no ser fechados. Michelle, Douglas e eu viremos. O Ted disse que talvez viesse e, se vier, trar 
o violo.
      - O Ted toca violo? perguntou Cris.
      - C no sabia? E toca bem, viu!
      Durante as duas horas que se seguiram, Cris ficou conversando com Helen, enquanto Douglas surfava com sua prancha de Body Board. Ficou deitada de costas o 
tempo todo, para bron
      - C no sabia? E toca bem, viu!
      Durante as duas horas que se seguiram, Cris ficou conversando com Helen, enquanto Douglas surfava com sua prancha de Body Board. Ficou deitada de costas o 
tempo todo, para bronzear bastante o rosto. Assim, quando descesse do avio, todos veriam que ela estivera na Califrnia.
      L pelas cinco, Cris foi em casa pegar umas salsichas para grelhar e um moletom.
      Na mesa, ao lado da porta da frente, havia uma carta para ela. A princpio pensou que fosse a letra da Paula, mas depois percebeu que era da Alissa. Pensando 
bem, fazia tempo que a Paula no lhe escrevia. Deixa pra l. Amanh estaria em casa e em breve poderia contar  amiga tudo sobre a Disneylndia, a catstrofe com 
o Ted e a entrega de seu corao a Jesus. Tantas coisas tinham acontecido em to pouco tempo!
      Sentou no primeiro degrau e leu a carta rapidamente. Parecia que Alissa estava um pouquinho melhor do que demonstrava na carta anterior, mas talvez fosse por 
causa de um novo namorado que mencionava. At a av o aprovava. Um universitrio de nome Everett. Mas todo mundo o chamava de Bret. Ela parecia mais feliz, mas Cris 
ficou pensando quanto tempo isso duraria.
      Colocou a carta de volta no envelope e resolveu que escreveria para a amiga quando estivesse no avio. Agora ela achava que tinha algumas respostas a oferecer-lhe. 
Ter Jesus no corao fazia com que no se sentisse mais s. No precisava mais tentar decifrar as coisas sozinha. Alissa precisa desse Amigo, pensou. Algum que 
no a abandone.
      Abriu a porta do quarto e encontrou o tio guardando uma cala jeans dela numa mala.
      - Espero que no se importe, disse ele. Acho que vamos ter de arrumar umas caixas ou outra mala. Parece que vai voltar para casa com mais coisas do que trouxe!
      - No precisa fazer isso, tio. Eu arrumo mais tarde.
      - Bem, sua tia fez uma reserva s seis e meia no restaurante Five Crowns, e eu pensei em adiantar um pouquinho as coisas para voc.
      - Ah, no! suspirou Cris. Eu ia para a praia com o pessoal. Estvamos planejando assar salsichas pra fazer cachorro-quente. Ns temos mesmo de ir ao restaurante?
      - Acho que ela queria que sua ltima noite aqui fosse especial.
      - Se eu puder passar com meus amigos,  que vai ser especial! argumentou Cris.
      - Bem, disse Bob, com os olhos brilhando. A gente faz o seguinte: voc sai bem quietinha pela garagem, e eu coloco uma sacola com as salsichas na escada, na 
porta dos fundos. No se preocupe com sua tia. Eu dou um jeito de amans-la.
      - Voc  radical!
      Cris deu um abrao apertado no tio.
      - Radical? Isso  bom?
      - Com certeza!
      Passou alguns minutos diante do espelho, arrumando o cabelo. Borrifou gua fria no rosto e passou um pouco de gel de aloe vera sobre a pele queimada. Parecia 
mesmo uma garota da Califrnia: bronzeado escuro, cabelo clareado pelo sol.
      Assim que eu puder vou mudar-me para a Califrnia, pensou. Talvez possa cursar a faculdade aqui.
      Era ali que se sentia em casa agora. No estava mais ligada a vacas, nevascas e tudo o mais l do Wisconsin. Estava muito mais interessada agora em palmeiras 
e pranchas de surfe.
      Passou rmel, pegou o moletom e ficou na porta dos fundos esperando a sacola de salsichas prometida. Bob entregou-a com uma piscadela, e ela correu para a 
fogueira que j crepitava, preparada pela turma na praia. Trcia estava l, arrumando os espetos para assar as salsichas. Mida e bonitinha, Trcia tinha um sorriso 
fcil e enormes olhos castanhos. Cris tinha se esforado tanto para no gostar dela, mas agora percebia o quanto sentiria sua falta.
      - Cris! O Ted me disse que voc vai ter de ir embora amanh. No acredito! falou jogando os espetos de lado e abraando a amiga. Vamos sentir sua falta.
      Cris olhou rapidamente  sua volta. Ted ainda no chegara. Sentia-se desapontada e aliviada ao mesmo tempo.
      - Obrigada, respondeu, abraando Trcia. E obrigada pela Bblia com a capa to bonita que voc fez. Gostei demais!
      - Mesmo? Fico feliz. Depois do nosso rpido encontro de ontem, fiquei sem saber se deveria entreg-la a voc ou no.
      - Ainda bem que entregou. O Ted vem?
      - No sei. Brian, sabe se o Ted vir?
      - Ele esteve aqui hoje cedo quando falvamos sobre o encontro, mas no disse nada.
      - Quem sabe o que o "Sr. Imprevisvel" far? acrescentou Michelle.
      Falou bem, pensou Cris.
      Durante cerca de uma hora ela ficou olhando, esperando que o Ted aparecesse. Contudo no sabia bem o que diriam um ao outro se ele viesse. Depois de algum 
tempo, entretanto, parou de se preocupar com ele e tentou tir-lo da cabea. Todo mundo estava tratando-a muito bem e estava fcil divertir-se.
      - Se o Ted no vier com o violo, a gente canta assim mesmo, disse Trcia.
      O sol desaparecia na linha do horizonte como uma imensa bola alaranjada.
      O grupo de onze jovens ajuntou-se em volta da fogueira, comeando a cantar msicas que Cris nunca ouvira antes. Algumas eram suaves, outras mais animadas. 
Contudo todas falavam sobre o Senhor, ou melhor, eram canes que eles cantavam para Deus. A letra de uma das msicas era um versculo bblico:
      Buscai primeiro
      O reino de Deus
      E a sua justia,
      E as outras coisas vos sero acrescentadas
      Aleluia, aleluia.
      
      Este  o lugar mais lindo do mundo, pensou Cris. Que noite perfeita! Seria to bom se o Ted estivesse aqui... Se no tivssemos acabado a noite passada daquele 
jeito.... Mas este cu lmpido, essa brisa, essas msicas confortantes... Tudo isso  to maravilhoso! No quero ir embora! Quero ficar! No podem me obrigar a ir!
      Michelle deve ter notado as lgrimas de Cris brilhando  luz da fogueira, porque se inclinou para ela e cochichou:
      - Provavelmente vai ser duro para voc ir para casa. As lgrimas faziam arder a pele queimada de sol, do rosto de Cris.
      - No quero ir embora!
      
- Vai dar tudo certo, voc vai ver!
      O cntico que cantaram em seguida era inspirado em outro versculo bblico:
      
      "Lanando sobre Deus a nossa ansiedade, 
      Pois Ele tem cuidado de ns.
       Toda a minha ansiedade lano sobre ti. 
      Os meus fardos deixo a teus ps. 
      Quando no souber como agir, 
      Entregarei meus cuidados a ti."
      
      Cris nunca sentira o corao to cheio de alegria como agora.
      O grupo permaneceu em torno da fogueira at o ltimo pedao de lenha virar brasa. Ento cada um orou. Alguns oravam pela famlia, outros pela converso dos 
amigos, outros ainda agradeciam a Deus pelo que ele fez por eles. Cris foi a penltima a orar e, para sua surpresa, as palavras saram com facilidade.
      - Querido Senhor, quero lhe agradecer por ter entrado na minha vida hoje de manh. Esteja com minha famlia, ajudando-nos com os problemas que estamos enfrentando 
agora, e por favor, esteja comigo na minha viagem de volta amanh. Amm.
      Douglas, que deveria orar em seguida deu um abrao em Cris e perguntou:
      - Voc fez isso mesmo?
      -  Isso o qu?
      Cris abriu os olhos assustada. Todo mundo estava olhando para ela.
      - Voc convidou Jesus para entrar em sua vida hoje de manh?
      - Sim, respondeu, surpresa com a reao do pessoal.
      Todos falavam ao mesmo tempo.
      - Mas isso  timo! Que maravilha! Que legal! Temos orado tanto por voc!
      Ajuntaram-se todos ao seu redor e a abraaram. Cris ficou admirada com a alegria que eles estavam demonstrando. Nunca se sentira to amada e aceita como naquele 
momento.
      Seria to bom se o Ted estivesse ali tambm! Era horrvel no saber se o veria novamente. Depois daquela cena de ontem, ento... No fazia idia como poderiam 
resolver aquela questo, mas sabia que conseguiriam, se tentassem.
      Ficaram ainda em volta da fogueira j meio apagada at todos comearem a sentir o frio do vento noturno. L pelas onze, Douglas acompanhou-a at em casa.
      - E ento, aproveitou bem o vero? perguntou, passando a mo no cabelo curto.
      - Acabou depressa demais.
      - Estou feliz por ter conhecido voc; e mais feliz ainda porque voc tornou-se crist. No vai se arrepender nunca.
      - Ser que Deus ajuda mesmo a gente quando as coisas vo mal? perguntou Cris.
      - Sim, mas ele no tira as dificuldades. Ele nos ajuda a passar por elas. Alm do mais, todas as situaes difceis nos ajudam a crescer. A gente aprende a 
depender dele e no de ns mesmos. Pelo menos  isso que acontece comigo, disse Douglas, quando se aproximavam da escada na entrada da casa.
      - Sabe do que eu vou sentir falta? De escutar as pessoas falando sobre Deus com tanta facilidade e naturalidade. Aprendi muito com todos vocs nestas frias. 
L na minha cidade no tenho amigos que amem a Deus como vocs.
      - Bom, parece que voc vai ter de falar com eles. Comece o seu prprio grupo de amigos de Deus.
      - Amigos de Deus? repetiu ela.
      - , ou qualquer outro nome que voc queira dar ao grupo. Pra comear basta uma pessoa.
      Era to fcil conversar com o Douglas! Por que ela no gostava dele do jeito que gostava do Ted? Ele era gente boa, bonito e muito atencioso, mas havia um 
"algo mais" no Ted.
      Ted. Por que no era ele que estava ali com ela, em vez do Douglas? Ela havia estragado o relacionamento deles ao jogar a sandlia nele.
      - Preciso entrar, disse Cris, tremendo um pouco por causa do ar frio. At logo! Espero ver voc novamente algum dia. Douglas lhe deu um rpido abrao e disse:
      - Aqui, ou no cu, se no te encontrar antes.
      Cris riu e entrou. Encontrou o quarto totalmente limpo. Suas roupas estavam em trs malas novas, abertas no cho. Havia um bilhete de seu tio no travesseiro:
      
      "Espero que tenha se divertido. Voc ter de tirar alguma coisa da mala para usar na viagem amanh. Acordo voc s seis para que tenha tempo de se aprontar.
      B."
      
      Cris no conseguia dormir. Havia tantas questes em sua mente... Por que Ted no apareceu no churrasco? Ser que o verei novamente? Por que tenho de ir para 
casa? Por que a vida  to complexa? Ficou exausta tentando encontrar as respostas.
      Afinal, entregou os pontos. Resolveu simplesmente confiar no que Douglas lhe dissera: que Deus a ajudaria a enfrentar as dificuldades, em vez de remov-las.
      - Tudo bem, disse Cris em orao. Acho melhor depender do Senhor para me ajudar nessas frustraes todas, seno vou acabar enlouquecendo tentando entender 
tudo isso.
      Em seguida, entrou debaixo da coberta e comeou a cantar baixinho "Toda a minha ansiedade lano sobre ti. O meu fardo deixo a teus ps..."
      Adormeceu antes de terminar a msica.
      Na manh seguinte Bob bateu em sua porta s 6:02.
      - Temos de sair daqui a uma hora, Cris. Me chame se precisar de alguma coisa.
      Ela tomou um banho e se vestiu, ainda meio tonta. Os ouvidos zumbiam como se um aviozinho de brinquedo estivesse dando voltas ao redor de sua cabea.
      Depois de arrumar o cabelo, enfiou o ltimo dos cosmticos na mala e, abrindo a porta, gritou:
      - Estou pronta!
      Marta apareceu no corredor.
      - Tem certeza de que pegou tudo, querida?
      Estava elegantssima num conjunto amarelo e azul-marinho. Parecia friamente calma, e nada em sua atitude lembrava o conflito de ontem. Aparentemente Bob havia 
dado um jeito no problema do restaurante, mas Cris, prudentemente, achou melhor no tocar no assunto.
      - Sim, mas no consigo carregar estas malas. Esto pesando como chumbo!
      Bob levou as malas para o carro uma a uma e acomodou-as no porta-malas.
      Quando o carro estava descendo a rampa de entrada da garagem, Cris, chorando, deu uma ltima olhada na casa e na praia, e pensou no Ted mais uma vez. Estava 
tudo acabado: as frias, seu primeiro amor...
      O carro parou no sinal fechado. Era o mesmo cruzamento que ela e Ted haviam atravessado no passeio de bicicleta dupla. Ted. S pensar nele dava uma dor no 
corao! Cris engoliu em seco, tentando desfazer um n na garganta.
      - Estou de farol aceso? perguntou Bob a Marta.
      - No.
      - Ento por que o cara atrs de mim est piscando os faris e abanando as mos? Cris virou-se.
      -  o Ted! Fique parado a!
      - Mas querida, o sinal acabou de abrir! protestou Marta.
      Cris saltou do carro e correu at a "Kombi Nada". Ted desceu da kombi, deixando o motor ligado, e entregou-lhe um pequeno buqu de cravos brancos. Sua flor 
predileta! Como ele sabia? Ser que havia conversado com sua tia de novo? Nessas alturas, no estava nem se importando mais.
      - Ainda bem que voc parou, disse Ted, com um sorriso que fazia aparecer as covinhas. A buzina da "Nada" no quer funcionar hoje.
      - Obrigada pelas flores.
      - De nada. Ei! A Trcia me telefonou ontem e contou que voc aceitou a Cristo!
      - Sim! disse Cris, baixando timidamente o olhar. Finalmente tudo fez sentido, e percebi que era hora de entrar no barco como voc havia dito.
      - Voc nem imagina o quanto estou feliz! Tenho estado to chateado com a histria do Sam... Mas saber que voc tornou-se crist  o fato mais animador que 
poderia me acontecer no momento.
      Olhando mais uma vez seu rosto forte e bronzeado, Cris tentava desesperadamente memorizar tudo nele: os olhos azul-prateados, as covinhas, o cabelo clareado 
pelo sol.
      O motorista do carro atrs de Ted, cansado de esperar, deu a volta, passou por eles buzinando e atravessou o sinal amarelo.
      - Acho que precisamos ir, disse Ted, com um daqueles seus maravilhosos sorrisos confiantes. Meu endereo na Flrida est no cartozinho das flores. No prometo 
escrever muito, mas se voc me escrever, prometo responder.
      - Tudo bem, concordou ela, esforando-se para no chorar, e sussurrou: At logo, Ted.
      Ele se inclinou, l no meio da avenida, na frente de todo mundo, e lhe deu um beijo suave nos lbios. Um beijo breve e terno. O tipo que vem somente do amor 
inocente, cuja memria dura para sempre.
      - Vou sentir sua falta, murmurou Ted.
      - Eu tambm vou sentir sua falta!
      Ted ergueu o olhar e mudou o tom de voz.
      - Sinal verde de novo. Precisamos ir.
      - At logo! gritou ela, correndo para o carro. Prometo escrever.
      Bob acelerou, deixando a "Kombi Nada" para trs no sinal fechado.
      Por alguns instantes reinou profundo silncio no carro, enquanto Cris encostava os lbios no buqu de cravos, relembrando aquele primeiro beijo.
      - Bem, disse Marta com satisfao. S para voc saber, eu no tive nada a ver com esse encontro.
      - No mesmo? disse Cris com voz leve e em tom sonhador. Como ele soube que cravos brancos eram meus prediletos?
      - Kismet, declarou Bob.
      - O que  isso?
      - Algumas coisas so simplesmente inexplicveis. Voc tem de entender que h uma fora superior comandando tudo.
      - E h mesmo! concordou Cris. Eu o conheo pessoalmente.
      - Bem, isso  muito bonito, querida.  uma forma simptica de se pensar em Deus.
      Marta abaixou o quebra-sol para verificar a maquiagem no espelhinho.
      -  mais que isso. Eu fiz uma promessa a Deus nestas ferias.
      Prometi a ele todo o meu corao. Agora confio nele e espero que ele faa aquilo que achar melhor na minha vida.
      - Isso  timo, querida, disse Marta apertando os lbios. Mas o meu conselho : no exagere nessa viso religiosa da vida. Quem controla o seu destino  voc. 
No adianta ficar esperando que Deus faa aquilo que voc mesma pode fazer.
      - Voc est certa, Marta, concordou Bob. Como eu lhe disse h algumas semanas, "A ti mesma s fiel". Cris riu baixinho e passou os cravos no rosto.
      - Tentei ser fiel a mim e seguir minha prpria cabea, mas comecei a me afundar. Prefiro seguir a vontade do Senhor.  muito melhor! Alm do mais, agora tenho 
certeza de que vou chegar ao Hava.
      Marta deu uma olhada meio de lado para Bob, e cochichou:
      - O que ser que ela quer dizer com isso?
      O olhar de Bob dizia: "Sei no".
      Cris apenas sorriu e passou os cravos na ponta do nariz, sentindo o perfume doce e forte.
      Uma alegria indizvel brilhava dentro dela. Suas frias na Califrnia iam-se acabando como a mar que se afasta, deixando tesouros na praia de seu corao 
e mudando sua vida para sempre.

F I M



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